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Recuperar o estado de confiança face à dura incerteza da economia em crise Imprimir E-mail
Escrito por Guilherme Costa Delgado   
Sábado, 15 de Dezembro de 2012
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Dois importantes analistas da economia contemporânea – o sociólogo norte-americano Immanuel Wallerstein (longa entrevista ao cientista político coreano Lee-Su-hoon publicada pelo jornal sul-coreano Hankioreh), sobre as tendências do capitalismo mundial; e o brasileiro Delfim Netto (artigos recentes em ‘Carta Capital’, especialmente o de 12/12, que trata da “Engrenagem da Confiança”) – analisam, cada qual à sua maneira, a situação presente de crise econômica, recorrendo aos conceitos keynesianos de ‘incerteza dura’ e ‘estado de confiança’. O ponto de convergência, se é que assim se pode falar da análise de ambos, é o apelo à ação política como via de superação da ‘incerteza dura’ no mundo da economia, face aos graves perigos que esta traz à vida e à paz social. Vejamos como se colocam essas abordagens e que consequências nos trazem às nossas condições concretas de vida humana nos próximos anos.

 

Estou simplificando ao extremo as convergências das abordagens teóricas de Wallerstein e Delfim Netto, porque na verdade suas proposições de agir político face à crise capitalista são muito diferentes com relação ao conteúdo da ação suscetível de recriar um ‘estado de confiança de longo prazo’.

 

Segundo a concepção keynesiana de Delfim Netto, a persistência de um clima de incerteza no meio empresarial brasileiro, especialmente financeiro, de teor ideológico, mesclado com psicologia social inspirada na crise da economia mundial, paralisa o investimento privado, mesmo quando há sensação de melhoria de situação econômica, segundo a expectativa revelada pela esmagadora maioria das famílias consultadas.

 

De maneira muito sintética, a abordagem do ex-ministro e professor Delfim Netto tem foco na ação econômica do Estado brasileiro com vistas a reanimar o ‘espírito animal’ dos empresários (queda dos juros, desonerações, investimento público vigoroso etc.), que ele aplaude no governo Dilma; mas também aplaude a política social, e aqui está a novidade – ‘que melhora os níveis de igualdade’, passo a passo, com a reativação econômica, porque é com este clima de legitimidade social que se recupera o estado de confiança tão almejado.

 

Por outro lado, a visão comum sobre a necessidade de superação das condições de incerteza econômica financeira, que desde 2008 domina a economia mundial, faz de Wallerstein um obstinado defensor da ação política e civil, não propriamente para restaurar o estado de confiança no mundo dos negócios, como apregoaria um keynesiano convicto, que este sociólogo não é. Mas é como precaução contra a barbárie coletiva e mundial, que a longa crise estrutural da economia capitalista ainda enfrentará nos próximos 20 ou 30 anos, que se precisariam adotar, em todos os recantos do planeta, micro ou nano ações de defesa contra a desordem global, decorrente da desestruturação do capitalismo mundial ora em curso.

 

Segundo este autor, é a emergência de inúmeros novos atores políticos e sociais, atuando para criar novas condições de vida, trabalho, atendimento a necessidades e organização das economias domésticas, que criaria condições para o trânsito da incerteza dura criada pela crise financeira estrutural, e de hegemonia dos Estados nacionais líderes do sistema-mundo, para uma nova organização internacional, que sucederia o capitalismo mundial. Nesse entremeio, muitos riscos de xenofobias e autoritarismos, mas também muitas oportunidades novas se abririam para criação de nova sociedade e novos Estados democráticos. Mas é a ação das micro e nano iniciativas nacionais e sociais que é capaz de mover este devir histórico, porque não haverá hegemonias planetárias de Estados e de mercados globais, já que padeceriam de uma crise sistêmica, insolúvel pela via global e financeira, que caracteriza o capitalismo contemporâneo.

 

Estejamos ou não de acordo com o diagnóstico sobre a crise global de Wallerstein, temos de lhe reconhecer o mérito enorme da sua proposta de ação, como uma espécie de semeadura de esperança que se devolve à sociedade civil, para preparar os caminhos de transição para uma ordem democrática pós-capitalista. E não é pela derrubada violenta da ordem capitalista global, mas pelo suicídio do sistema. No entanto, é preciso ter muita cautela, porque se realmente o sistema capitalista mundial vive esta crise longa e irreversível, de que nos fala este autor, forças poderosas da barbárie estarão também sendo liberadas, contra as quais precisamos nos prevenir e nos proteger.

 

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Guilherme Costa Delgado é doutor em Economia pela UNICAMP e consultor da Comissão Brasileira de Justiça e Paz.

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Última atualização em Sexta, 21 de Dezembro de 2012
 

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