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Crack, a epidemia da farsa Imprimir E-mail
Escrito por Paulo Silveira   
Sábado, 15 de Dezembro de 2012
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Com certeza vivemos um momento especial de nossa história, a importância da diversidade cultural ficou ainda mais evidente com a facilidade de comunicação, tornando fundamental o indivíduo ter status de cidadão, condizente com o lugar que habita. Mas o cidadão capaz de transformar seus sonhos em realidade ameaça um sistema que sobrevive à custa da submissão, de estabelecer padrões comportamentais a partir de conceitos frágeis, criados de acordo com seus interesses e mãos pesadas para castigar os que ousam questioná-los.alt

 

“Você costuma sonhar?”, perguntou (...) um repórter de TV a uma criança de uns dez anos, bóia-fria, (...).

“Não”, disse a criança espantada com a pergunta.

“Eu só tenho pesadelo”. (Paulo Freire)

 

Dentro dessa ética, a “normalidade” deve prevalecer como a única alternativa, tornando necessário que se eliminem os que apontam novos caminhos ou falhas no sistema, nem que para isso tenha de se recorrer à barbárie, ao encarceramento, seja como criminoso, seja como doente, sob a justificativa de tratá-lo.

 

A estratégia política para conquista do apoio popular à barbárie é a mesma há séculos: cria-se um inimigo social através da difusão de dogmas, até que eles se tornem verdades absolutas. Como dizia Goebbels, ministro de propaganda de Hitler, “uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade”. O passo seguinte é promover o pânico na sociedade, ao atribuir a esse fictício inimigo todos os males momentâneos, como os nazistas fizeram com os judeus e a ditadura militar, no Brasil, com os comunistas. Ao criar-se o pânico, abre-se a possibilidade de estabelecer medidas de exceção para o combate ao suposto inimigo.

 

Nesse momento, a existência de populações em situação de rua é um forte fator ameaçador para realização dos grandes eventos em nosso país, como foi a Rio + 20, e serão a Jornada Católica, a Copa do Mundo e as Olimpíadas, estando em jogo bilhões de reais em obras superfaturadas que são justificadas apenas pela realização desses grandes eventos. É necessário eliminar tudo que ameace a realização desses eventos. A guerra ao CRACK surge como aliado perfeito.

 

É colocada em prática a velha e surrada estratégia. A veiculação sistemática na mídia de matérias confusas a respeito do crack não permite ao cidadão comum formar um quadro condizente com a realidade, levando-o a acreditar nos disparates veiculados a esse respeito. Cria-se o pânico e a justificativa para implantação de medidas de exceção.

 

O respaldo “científico” surge com a chegada de um psiquiatra com um currículo respeitável sob os olhares de nossa cultura e dono de clínica privada para tratamentos de usuários de drogas com alto poder aquisitivo e defensor, obviamente, de medidas de exceção para tratamento de usuários de crack.

 

A administração dos “abrigos”, para internação das CRIANÇAS e ADOLESCEBNTES usuários de crack, foi entregue à ONG Tesloo, com longo histórico de desvio de verbas, segundo o Tribunal de Contas do Município (algo em torno de R$ 130 milhões de reais). Além de comandada por um major da PM aposentado, acusado de 42 mortes, respondendo a processo criminal, conforme denúncia em matérias d’O Dia publicadas em 25, 26, 27, 28, 29 e 30 de outubro de 2012 (http://www.rebomeg.com.br/p/reportagens-atuais.html).

 

Assim, em março de 2011, foi implantado o “programa de internação compulsória de crianças e adolescentes usuárias de crack”, através de portaria da Secretaria Municipal de Assistência Social, disponibilizando 150 vagas para internação – número irrisório diante do triste universo existente. Não bastassem todos os desmandos e irregularidades cometidos nesse programa pela prefeitura do Rio de Janeiro, nem a dita portaria se cumpre. Nesse período, a prefeitura fez mais de 700 recolhimentos compulsórios de crianças e adolescentes nas ruas do Rio, tendo internado pouco mais de 200 pessoas, ao custo de R$ 28 mil reais por interno ao mês, só aumentando o caos na cidade.

 

O desmando e a certeza da impunidade são tantos que pesquisa feita pela própria prefeitura da cidade do Rio de Janeiro com as crianças e adolescentes internados em seus abrigos para supostamente serem tratados do vício do uso do crack aponta que somente 19% delas eram usuárias de crack. Alguns, inclusive, nem usuários de drogas eram, e mesmo assim foram mantidos aprisionados e tratados como se usuários fossem, por meses a fio, tomando medicamentos, tendo sido internados pelo simples fato de terem sido encontrados nas “cracolândias” quando lá os agentes da prefeitura estiveram.

 

Mais absurdo tudo isso se torna quando constatamos que as cracolândias são um produto desse mesmo Estado. A ocupação de alguns territórios da cidade, militarmente, seja oficialmente, através das UPPs, ou oficiosamente, através das milícias, provocou uma perda de espaço de circulação dessa população. Junte-se a isso o fato de a grande maioria dos atos de violência contra a população em situação de rua ser promovida exatamente por agentes governamentais.

 

Assim, não resta outra saída a essa população, a não ser se reunirem onde se sintam protegidas e os agentes do Estado não tenham livre trânsito: pontos de comércio de drogas.

 

A junção de uma população abandonada com pontos de vendas de drogas só poderia gerar a intensificação do consumo de drogas, principalmente do crack, por ser extremamente barato, acabar com a fome e o medo.

 

Parece óbvio que a questão do crack, assim como qualquer comportamento estranho a nossa cultura, não se resolve com aprisionamento, internação compulsória (vejam as experiências com os antigos manicômios, das prisões), mas certamente com a inclusão social de seus agentes, garantindo a todos os direitos fundamentais, como saúde, educação, moradia, trabalho e justiça.

 

“Quando os nazistas levaram os comunistas, eu calei-me, porque, afinal, eu não era comunista.

Quando eles prenderam os sociais-democratas, eu calei-me, porque, afinal, eu não era social-democrata.

Quando eles levaram os sindicalistas, eu não protestei, porque, afinal, eu não era sindicalista.

Quando levaram os judeus, eu não protestei, porque, afinal, eu não era judeu.

Quando eles me levaram, não havia mais quem protestasse”.

Martin Niemöller

 

Paulo Silveira é membro do movimento da sociedade civil “Respeito é BOM e eu gosto!” que luta pelos direitos dos portadores de distúrbios psicossociais, familiares e afins, dentre eles os usuários de drogas compulsivos.

 

Website: www.reBOMeg.com.br

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Última atualização em Terça, 18 de Dezembro de 2012
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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