200 mil cisternas

 

 

Nosso programa “Um Milhão de Cisternas” atingiu a cifra de 206.182 cisternas, segundo o comunicado dos companheiros da ASA. Os beneficiados totalizam 979.600 pessoas.

Quando atingimos a marca de cem mil, sempre há uma alegria extra. Afinal, só nós que estamos envolvidos com esses projetos do semi-árido desde sua raiz sabemos das dificuldades e das alegrias que eles proporcionam.

Estamos longe da nossa meta simbólica de um milhão de cisternas. Mesmo assim, já damos os primeiros passos concretos para implantar o projeto “Uma Terra e Duas Águas”, que implica no acesso à terra e a uma segunda tecnologia de captação de água de chuva para produção. Sonhamos, é verdade, mas com os pés no chão.

Sempre soubemos que os governos torceriam o nariz para nossos projetos de convivência com o semi-árido. Eles preferem grandes obras, de empoderamento do capital, nunca o empoderamento popular. Por isso o trabalho é lento. Embora apoiados economicamente pelo governo federal, o avanço seria outro se esse mesmo governo mostrasse o mesmo empenho pelas tecnologias sociais e a reforma agrária que mostra pela transposição do São Francisco.

 

Aqui está a grande contradição entre nossa proposta e a do governo: nossa opção é pela infra-estrutura descentralizada, na linha de Amartya Sem, com mais retorno social. A opção do governo é na linha do regime militar, de Dilma e Delfim, das grandes obras que empoderam o capital, não o povo. Então, o governo joga sua força e grandes volumes de recursos nesses projetos do PAC, mas investe pouco em infra-estrutura descentralizada. Essa opção política do governo é fatal para a lentidão do processo.

Quando somos criticados pela morosidade do projeto, sempre respondemos que não queremos apenas fazer cisternas, mas mudar o modo de se viver nessa região brasileira. Além do mais, não temos a infra-estrutura, os recursos e nem o pessoal que o Estado tem para levar à frente um projeto dessa magnitude. Se houvesse interesse do Estado em todos seus níveis – federal, estadual e municipal -, avançaríamos com muito mais velocidade. Só agora os governos da Bahia e Ceará sinalizam na direção de assumir esse tipo de política hídrica.

Ultimamente, quando se fala em seca no sertão, já não se fala mais numa tragédia como era apenas alguns anos atrás. Essa infra-estrutura básica vai realmente mudando o poder de conviver com o clima. Seria fácil para o governo – os governos - levar à frente os nossos projetos da ASA e a proposta do Atlas do Nordeste para o meio urbano, elaborado pela Agência Nacional de Águas. Realmente prepararíamos essa região para as mudanças climáticas drásticas que virão, venceríamos a dívida histórica dos governos para com a população nordestina que não tem acesso à água de cada dia e mudaríamos a correlação de forças entre o povo daqui e as elites que o oprimem. Por hora, permanecemos no sonho.

Fala-se muito na CPI das ONGs que aí virá. Muitas são acusadas de corruptas, chapa branca, abocanhadoras do dinheiro público. É provável que isso também aconteça. Entretanto, as quase 800 entidades articuladas na ASA – ONGs, Sindicatos, Movimentos Sociais, Igrejas etc. – têm dado mostra que o trabalho honesto e eficiente também é possível. Apesar de nossas deficiências e contradições, já fizemos mais de 200 mil cisternas. Quem passou a ter água no pé de sua casa sabe o que elas significam.

 

 

Roberto Malvezzi, o Gogó, é coordenador nacional da CPT.

 

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