Fotos jornalísticas e fotos espetaculares

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Sei que a discussão é polêmica, complicadíssima e contempla múltiplas análises. Mas eu não publicaria a foto do homem na iminência de ser atropelado por um trem de metrô, em Nova Iorque, que foi estampada na capa do tabloide "New York Post" na edição da última terça-feira (03 de dezembro). A imagem, me parece, namora apenas e tão somente e perigosamente com o espetáculo, com a naturalização da morte, a banalização da tragédia, a simplificação da condição humana, a indiferença ao sofrimento, despertando sensações e instintos primitivos, mas sem estabelecer conexões mais estreitas com uma narrativa racional, a privilegiar reflexões e o interesse público.

 

Qual a informação, a mensagem ali presente? "Um homem vai morrer em segundos". E...? Naquele instante, minha sensação é que pesaram mais na decisão do fotógrafo (que sequer estava em serviço ali, mas não perdeu a chance do clique) os prováveis cinco minutos de fama, o dinheiro que alcançaria com a venda da foto. Prevaleceu, portanto, o valor de troca, e não o valor de uso.

 

É diferente, penso, de outras fotos polêmicas e famosas, como a da criança negra no Sudão, agachada, com um abutre à espreita (1993), ou a da garota vietnamita que corria nua, queimada por napalm (1972). Nos dois casos, há certamente a vaidade dos profissionais em jogo, o ego, os possíveis prêmios, a decisão no átimo de segundo, o correr para ajudar ou registrar o instante. Mas nelas há também guerras, conflitos profundos, tragédias humanitárias, atrocidades em cena, contextos mais amplos. E as imagens cumpriram esse papel de denúncia, de voz da consciência, de dar um chacoalhão planetário e de chamar a atenção do mundo para esses dramas coletivos.

 

As duas foram fundamentais para furar bloqueios resignados de "não é comigo" e para ajudar a publicizar bestialidades que provavelmente se limitariam a círculos mais restritos, caso as fotos não tivessem corrido o mundo. As mensagens ali explicitadas eram, respectivamente, "somos cúmplices e estamos ignorando solenemente a fome, a miséria e as disputas intestinas que matam cotidianamente as crianças africanas" e "os Estados Unidos estão colocando em prática a política de terra arrasada, destruindo tudo o que encontram pela frente, sem respeitar sequer civis e crianças".

 

Embora o debate seja aqui também possível, e desejável, o conteúdo jornalístico destas duas fotos é evidente – dimensão que não consigo sinceramente encontrar na do metrô novaiorquino.


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Chico Bicudo é jornalista e professor de Comunicação Social.

Blog: http://oblogdochico.blogspot.com.br/2012/12/fotos-jornalisticas-e-fotos.html

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