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Reflexões, um ano após a saída do MST Imprimir E-mail
Escrito por Maria Socorro de Lima   
Sexta, 07 de Dezembro de 2012
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Neste 22 de novembro de 2012, fez um ano de nossa saída do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) – minha e de meu companheiro Vanderlei, que somos do estado Ceará e estávamos há quatro anos na Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF). Nestes quatro anos, ficamos o ano de 2010 no Haiti, também pela ENFF, junto à brigada Internacionalista enviada pelo MST.

 

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Nossa saída do MST se deu juntamente com outros(as) 49 camaradas do MST e de outras organizações que assinaram a Carta de saída das nossas organizações (MST, MTD, Consulta Popular e Via Campesina) e do projeto estratégico defendido por elas – onde apresentamos os motivos que nos levaram ao nosso desligamento.

 

Enfrentamos as dificuldades e desafios, consequência da nossa saída. Continuamos firmes, aprofundando a crítica e procurando ir além do que nos produziu, como afirma a carta. Neste sentido, fizemos, juntos com o grupo que saiu, um estudo, o qual chamamos de inventário, que nos ajudou a compreender o processo que nos formou, considerando principalmente o Projeto Democrático Popular (PDP), tão difundido e assimilado por muitas organizações populares, e conduzido pelo PT. Esse aprofundamento nos levou a compreender a verdadeira essência do PDP, e esta não era o que pensávamos ser; como diz a referida carta, “propúnhamos o Socialismo como objetivo, mas o projeto estratégico que traçamos ou ajudamos a trilhar não nos leva a esse objetivo”.

 

Por conta de só nós – Socorro e Vanderlei do Ceará – termos saído do MST, decidimos continuar em São Paulo, na cidade de Campinas, pois aqui estamos mais próximo dos(as) outros(as) militantes que saíram, para fazermos juntos esta reflexão do processo citado, buscando espaços onde possamos continuar fazendo a nossa militância de forma que possamos fazer a crítica aberta, coisa que não era possível nos limites do MST, buscando também nos manter firmes no referencial Socialista.

 

Considerando a crítica aberta, quando ainda estava dentro do MST, sentia por parte dos intelectuais e professores(as) que o apoiam a ausência dessa crítica; e aqueles que ousaram em alguns momentos expressá-la foram considerados como inimigos do movimento, sendo até impedidos de serem convidados para dar aulas nos cursos, mesmo sendo professores voluntários. Acredito que alguns destes intelectuais e professores esperavam que essa crítica aberta surgisse a partir de dentro da organização. Talvez alguns, por comodidade ou diplomacia, mesmo tendo a crítica não a expuseram, pois se trata do maior Movimento Social da América Latina e mais conhecido no mundo.

 

Estando ainda no MST, fizemos um documento interno que apresentava nossas reflexões sobre o Internacionalismo, a partir da nossa vivência no Haiti. Tais questões não foram consideradas internamente, mesmo tendo sido insistentemente colocadas para debates e avaliações, entre as quais se apresentam também como razões da nossa saída. Eis alguns tópicos extraídos do documento, feito por nós em abril de 2011; compartilho agora, oportunamente, pois faz parte do processo da nossa crítica interna:

 

- “Como conjugar as nossas lutas cotidianas com o projeto estratégico – O SOCIALISMO?


Como nossa ação internacionalista pode ir para além da ajuda técnica/material, para que se diferencie de tantas ajudas humanitárias que no Haiti encontramos, desde a ONU até ONGs, entre outras?


Sabemos que o MST e a Via Campesina têm resgatado o internacionalismo, por acreditar que a luta dos trabalhadores é internacional. Em nossas místicas ecoamos o grito ‘Trabalhadores de todo o mundo, uni–vos’, de Marx; com isto sabemos que esta tarefa a cada dia se torna mais exigente, a partir do envolvimento concreto com realidades como a do povo haitiano, povo historicamente massacrado e explorado, mas também um povo historicamente resistente e lutador. Essa realidade nos faz sentir profunda indignação por ver de perto a ação criminosa, desumana e brutal do imperialismo.


Conhecer essa realidade nos faz perceber que é preciso aprofundar mais o sentido dessa tarefa internacionalista em sua essência, lembrando a referência marxista do trabalho voluntário que aparece nos contextos dos processos revolucionários, que sempre tentamos resgatar, como os sábados comunistas da Revolução Russa, o trabalho voluntário da Revolução Cubana, entre outros. Acreditamos que, à luz dessas experiências, deve se fortalecer o trabalho voluntário desenvolvido por nossas Brigadas Internacionalistas.


Nesse sentido é necessário que haja uma preocupação maior dos movimentos que fazem a Via Campesina e em particular do MST em disponibilizar pessoas para vivenciar o internacionalismo e que, além da questão técnica, possam também contribuir na análise política, aprofundando o tema do internacionalismo. Tentar resgatar sua essência e principalmente desenvolver uma prática mais consequente. Especialmente agora, a grandiosidade da ação do nosso inimigo exige que sejamos mais estratégicos em nossas ações de solidariedade”(tópico do documento, feito por nós em abril de 2011).

 

Dentro do MST muitos militantes compartilhavam do mesmo sentimento e da mesma crítica, tanto sobre a crítica que traz a Carta de saída quanto das reflexões sobre o internacionalismo acima citadas, mas se omitiam, por conta de sua formação estar embasada numa falsa unidade, que é colocada como princípio na organização. Nesta unidade imposta, quem fazia a crítica estava “queimando” o movimento e, por conta da relação de poder hierarquizada, havia e ainda há muita hipocrisia, expressando assim grandes contradições do MST, que insiste em sempre apresentar em suas místicas documentos, curso, debates etc., valores socialistas e revolucionários deixados pelos nossos históricos lutadores; mas, em sua prática política, nega tais valores.

 

Entre tantos valores é lembrado o que diz Fidel: “Um revolucionário pode perder tudo: a família, a liberdade, até a vida. Menos a moral”. E foi isso que o movimento perdeu, para nós, entre outras coisas: a moral. Para nós que vivenciamos esse processo internamente e nas instâncias diversas – regional, estadual, nacional e internacional –, o movimento perdeu não só a moral, perdeu parte do que diz ser o patrimônio principal, a militância, e falo aqui da militância revolucionária.

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Em que sentido o MST perdeu sua militância revolucionária?

 

Perdeu muitos militantes que hoje (alguns mesmo continuando no movimento) estão acomodados por ser mais confortável, pois, em algumas destas instâncias do MST, existem regalias que, fora delas, não se encontram – como, por exemplo, fazer um curso superior ou conhecer outro país e até estudar lá, como os que estudaram e estudam em Cuba e na Venezuela.

 

Perdeu outra parte da militância que, por não ter espaço de aprofundamento da crítica, não conseguiu enxergar com maior rigor as grandes contradições políticas do MST e ainda o seu verdadeiro projeto estratégico já revelado nas ações políticas, como diz a carta: “ao abandonar as lutas de enfrentamento, embora sigamos fazendo mobilizações, nossas lutas passaram a servir para movimentar a massa dentro dos limites da ordem e para ampliar projetos assistencialistas dos governos, legitimando-os e fortalecendo-os. Agora, o que as organizações necessitam é de administradores, técnicos e burocratas; e não de militantes que exponham as contradições e impulsionem a luta”.

 

Perdeu também a militância que dizia concordar com a crítica dos que assinaram a carta, mas não concordam com a forma com que se deu a saída, pois têm a ilusão de que o debate interno do MST volte às suas origens. Aqui vale lembrar mais uma vez a carta: ”Não é de hoje que existem críticas ao rumo que tomaram estas organizações, não só externas, mas sobretudo críticas elaboradas internamente. E este processo não ocorreu sem resistências por parte da base, militantes e alguns dirigentes”.

 

Perdeu ainda a militância que não conseguiu sistematizar a crítica por se sentir isolada e sem articulação; não deu para fazer o que os grupos das regiões Sul e Sudeste fizeram.

 

Nessas perdas, é preciso considerar outras questões subjetivas e que não nos cabe julgar, as quais se expressam de várias formas, como no medo, na covardia, no saudosismo, no romantismo, entre outros, sentidos hoje por muitas pessoas que dedicaram toda a sua vida a esse movimento e não conseguem acreditar que o projeto que defenderam com suas vidas, investindo sua juventude e pelo qual muitos(as) companheiros(as) foram assassinados, esteja dependente do capital e do seu Estado.

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Vale ainda lembrar que o movimento também perdeu uma boa parte da militância quando, não se adaptando às linhas políticas impostas pelos dirigentes maiores, saiu do movimento de forma isolada, sendo sobre esta militância colocada a culpa, porque foram cuidar de suas vidas.

 

Existe uma militância que já estava perdida, por não conhecer a essência da crítica, e porque seus dirigentes maiores, em sua arrogância e autoritarismo, nunca abriram o debate, considerando o que a militância pensa e sente. Haja vista que, internamente, o MST fechou o debate sobre as questões colocadas pela Carta dos 51, mesmo havendo, entre os dirigentes, quem tivesse concordância com tais questões. Mas não ousaram fazer o enfrentamento.

 

A militância que está com a mão na massa, sem os privilégios e sem nenhum poder de decisão na definição das linhas políticas do movimento, continua tendo nosso respeito e sendo nossa companheira.

 

Neste primeiro ano de nossa saída, não podia deixar de compartilhar estas reflexões, enquanto militante que acredita e continua lutando, como disse Rosa Luxemburgo, “por um mundo onde sejamos socialmente iguais, humanamente diferentes e totalmente livres”.

 

Também não podia deixar de compartilhar, enquanto militante cristã, porque minha formação de militante nasceu a partir do Projeto de Jesus Cristo, no auge da Teologia da Libertação, dentro das CEBs (Comunidades Eclesiais de Base) e da PJMP (Pastoral da Juventude do Meio Popular), em 1984.

 

Por isso concluo compartilhando as palavras de Ernesto Cardenal: “Declarei, muitas vezes, que sou marxista por Cristo e seu Evangelho. Que não fui levado ao marxismo pela leitura de Marx, mas pela leitura do Evangelho. O Evangelho de Jesus Cristo me fez marxista, como eu já disse e é verdade. Sou um marxista que crê em Deus, segue Cristo, e é revolucionário por causa do seu Reino” (CABRESTERO, 1983, p. 38. Entrevista com Ernesto Cardenal).

 

As ilustrações são de Gershon Knispel. No destaque a pintura Expulsão e Chegada – fase 1 e as demais compostas por cartazes da série Camaradas.

Maria Socorro de Lima, ex-militante do MST – Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra.

Publicado originalmente em Passa Palavra.

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