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A direita que tenta pensar: Dicta & Contradicta Imprimir E-mail
Escrito por Rudá Ricci   
Quarta, 28 de Novembro de 2012
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O Observatório da Imprensa publicou um artigo de Gabriel Perissé sobre a revista Dicta & Contradicta, intitulado "Uma revista que se acha" (24/06/2008). Ao final deste artigo, Perissé sustenta que se trata de iniciativa de frequentadores da Opus Dei. Cita, com ilustração, a presença de Henrique Elfes, editor da revista, da Editora Quadrante, criada pela Opus Dei em 1964.alt


Confesso que tais credenciais me atraíram. Há tempos percebo uma certa movimentação de pensadores de direita tupiniquim farfalhando as saias. Ainda não produziram algo relevante, mas estão tentando, o que não deixa de ser importante para a democracia do país. Já afirmei que os que comandam o poder normalmente não produzem críticas expressivas, tarefa que quase sempre cabe aos que se encontram do lado oposto. Daí a tentativa de momento.


A revista Dicta & Contradicta nasceu em junho de 2008 e foi criada pelo Instituto de Formação e Educação (para conhecer o IFES, clique AQUI ), que teria nascido a partir da leitura, por um pequeno grupo, de Platão e metafísicos. Em seguida, formaram esta entidade sem fins lucrativos com o propósito de "divulgar e revitalizar a cultura ocidental". Digamos que não se trata de algo muito humilde, como se percebe.


Pois bem. Comprei a edição de julho deste ano. E um artigo me chamou a atenção. Escrito por um professor da UERJ, João Cezar de Castro Rocha, o artigo trata da "rivalidade literária" entre Sérgio Buarque de Holanda e Gilberto Freyre. Li com atenção. Trata-se de um ensaio, encharcado de intenções ideológicas, embora o autor tente refutar o evidente. A tese central é que Sérgio Buarque de Holanda alterou o texto de Raízes do Brasil a cada edição deste livro, de 1936 a 1969 (esta última, a quinta edição revisada). O autor logra o objetivo de comprovar as alterações. Mas, aí, oscila entre sugerir que as alterações foram motivadas por ideologia e postura política e uma pueril desavença entre nordestinos e paulistas.


Um primeiro problema é que o autor resvala em certa maledicência. Sugere que Sérgio Buarque foi deselegante por vezes, até mesmo com Cassiano Ricardo (com quem discutiu longamente a respeito do conceito de homem cordial, se relacionado à noção de bondade), ao contrário de Gilberto Freyre, respeitoso e aberto ao diálogo.


Mas o texto avança e se desconstrói. Afirma que, ao final, o conceito de cordialidade e simpatia, sugerido por Freyre, triunfou sobre o conceito atribuído a Sérgio Buarque. Sintomaticamente, o ensaio sobre a rivalidade recua. E começa a sustentar que a diferença era meramente regional. À página 23, escreve:

 

Um autêntico duelo entre os jovens mais bem informados de sua geração. Sérgio Buarque, nessa altura, viajante incansável à roda de biblioteca. Freyre, pelo contrário, mais cosmopolita, já possuía experiência internacional incomum, o que incluía um mestrado na Columbia University. Destaque-se ainda a presença de Manuel Bandeira no papel de mediador entre Nordeste e Rio-São Paulo.

 

Esta hipótese parece das mais frágeis. Tanto que o autor se vê obrigado a reproduzir uma ácida crítica de Gilberto Freyre aos marxistas paulistas (não exatamente uma diferença regional), em entrevista publicada em 1980 pela Coleção Nossos Clássicos (Editora Agir):

 

Dos sociólogos paulistas, o que eu considero a figura máxima é Fernando Henrique Cardoso, que é até político militante marxista, mas há pouco, num artigo, mostrou-se simpático às minhas atitudes, embora divergindo de mim (...). Mas quando o marxista é um Octavio Ianni, que não é intelectualmente honesto, a meu ver (...), Florestan [Fernandes], que não é desonesto, mas que é um fanatizado pelo marxismo. (...) eu respeito o Florestan, uma cultura real, um talento autêntico, mas fanatizado.

 

Ora, como se percebe, a rivalidade não era regional, mas política e ideológica. Neste caso, o ensaio sobre a rivalidade parece encobrir uma reprimenda moral sob a guarda de uma exposição desavisada sobre diferenças entre grandes autores.


Fico me perguntando qual o erro que uma pessoa cometeria ao alterar suas convicções ao longo da vida. Ocorreu o mesmo com Dom Helder Câmara e com Carlos Lacerda, para citar dois exemplos brasileiros com sinais trocados. Nem sempre a mudança de postura é das melhores, mas me parece um atributo da liberdade de escolhas e da cidadania. Caso contrário, a vida seria uma sucessão de vivências e não propriamente experiências (que seriam a vivência refletida, pensada e revisada).


Também fiquei me perguntando por qual motivo o autor do ensaio não fez uma breve apresentação da trajetória intelectual dos dois autores em conflito. Cita, de passagem, vários outros autores que seriam do núcleo intelectual ou de amizade de Sérgio Buarque, mas não faz o mesmo com Gilberto Freyre, o que descontextualiza a crítica.


Enfim, o ensaio é bem escrito e de leitura agradável. Mas peca pela fulanização das diferenças intelectuais.

 

Rudá Ricci é sociólogo e autor do livro Lulismo - da era dos movimentos sociais à ascensão da nova classe media brasileira.

Blog: http://rudaricci.blogspot.com.br/

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Última atualização em Quarta, 28 de Novembro de 2012
 

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