Arquitetura na era digital-financeira – Desenho, canteiro e renda da forma

 

 

Às formas do capital predominantes numa época costumam corresponder formas estéticas. Ainda mais na arquitetura, cujas obras são percebidas por aquela “recepção tátil” de que falava W. Benjamin, a saber, uma recepção determinada pelo uso e pela função. Quais seriam então as formas arquitetônicas relativas ao capital predominantemente financeiro das últimas duas décadas?

 

A essa questão o livro de Pedro Arantes responde assinalando notáveis paralelismos. Nos projetos de algumas estrelas da profissão, mesmo atributos básicos e tradicionais da obra arquitetônica – “sobriedade tectônica e espacial” – se invertem nos atributos do capital contemporâneo – flexibilidade extrema, caráter mutável, criativo, liquefeito, instável e – por que não? – periclitante. O próprio elemento “tátil” da recepção se torna problemático, substituído por um “valor de culto”, para falar ainda com Benjamin, decorrente agora da venda da imagem da obra e do turismo que busca uma aura às avessas.alt

 

Mais do que analogia, porém, há uma organicidade muito bem explicada no livro entre as formas recentes do capital e da arquitetura. A crise iniciada já nos anos 1970 encontrou a saída para os problemas de sobreacumulação de capital recorrendo a operações de financiamento lastreadas em grande parte no mercado imobiliário e também na diferenciação de nichos de produção e consumo de bens ditos “imateriais”.

 

Em ambos os casos, tratava-se de se afastar do mundo do trabalho – pelo menos o tradicional, o “material” – para encontrar circuitos de valorização fictícia baseados na pura propriedade privada. Tratava-se de definir qualidades, valores de uso excepcionais, pela mera circunscrição de espaço, pela venda de acesso, pela criação de marcas de fantasia – o que corresponde, no plano urbanístico, a cidades muradas e futuristas que Pedro Arantes chega a chamar de mônadas. As regras da distribuição da mais-valia se impõem às da sua produção: é antes à concorrência entre capitalistas armados da vantagem conferida pela sua propriedade exclusiva do que ao trabalho por eles empregado que se deve uma pretensa valorização.

 

Mas de fato o trabalho continua sendo o único criador de valor, como dizia Marx, e o que os capitalistas e os autores geniais conseguem com suas marcas é no máximo um preço especial para seus produtos, desviado do valor médio. O traço apenas fictício de toda essa acumulação se revela, no caso, já no canteiro de obras, lugar de hibridismo de formas avançadas e arcaicas, do dualismo de projeto e execução. Aqui o livro se estende em páginas centrais, descrevendo a composição difícil entre as novas possibilidades abertas pela técnica aos arquitetos e a realidade tão tradicional quanto inevitável da exploração do trabalho no canteiro.

 

E a culminação de todo o processo, como não podia deixar de ser, é a crise econômica atual, que expõe a dimensão fictícia da acumulação de capital em bases especulativas e, assim, que a exceção não era a regra. Num momento é desmontada a engrenagem reunindo trabalhadores migrantes de países pobres, arquitetos-estrela, prédios que serviam de marca para cidades decadentes, esquemas de financiamento imobiliário e produção de renda diferencial. O resultado não se fará esperar, mas por enquanto todo este mundo está em suspenso.

 

Jorge Grespan é professor do Departamento de História da FFLCH-USP.

 

Ficha técnica:

Título: Arquitetura na era digital-financeira – desenho, canteiro e renda da forma

Autor: Pedro Fiori Arantes

Editora: Editora 34

Ano: 2012

Páginas: 368

Preço: R$ 54,00

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