Estimativas pessimistas

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As estimativas da Cepal sobre o crescimento da América Latina e do Caribe, incluindo o Brasil, são pessimistas. Devido ao agravamento da crise nos Estados Unidos e na Europa, e dos reajustamentos na China, a região não deve crescer além de 3,2%, e o Brasil não deve superar os 1,6%. Ainda segundo a Cepal, a queda só não será maior porque houve um aumento do consumo do mercado interno e do mercado de trabalho, incentivados pelo aumento do crédito e outras medidas que incentivaram a atividade econômica. A diminuição nos níveis de desemprego, aliada aos salários mais altos, teriam contribuído para a expansão moderada da demanda interna e do consumo.



Por outro lado, aquele organismo latino-americano acredita que o enfraquecimento da demanda externa, principalmente norte-americana e europeia, e a queda no valor da maioria dos principais bens básicos de exportação, transformou o comércio exterior no principal canal de transmissão das crises internacionais para a economia brasileira. Apesar disso, a Cepal acredita numa recuperação da economia do país, projetando a possibilidade do crescimento registrar uma alta consistente, embora reconhecendo que existe uma trajetória levemente descendente do crescimento, pela maior dependência da exportação de produtos básicos para a China.


Além disso, a Cepal considera que os investimentos externos estão vulneráveis às crises internacionais, recomendando esforços para uma estabilização econômica através da coordenação de políticas fiscais, monetárias, cambiais e macroprudenciais. Tal estratégia favoreceria não somente uma maior estabilidade do crescimento do produto, do investimento e do emprego, mas também a redução da heterogeneidade produtiva e da desigualdade social. Em outras palavras, a Cepal não sugere nada além do feijão com arroz para manter o crescimento em taxas positivas mínimas. Desse modo, desdenha o fato de que muitos capitais europeus e norte-americanos precisam buscar novas oportunidades de investimentos fora de seus territórios, acentuando uma tendência que já vem de antes das crises dos anos 1990. Também desconsidera que a Ásia se transformou no principal eixo de desenvolvimento econômico mundial e de que a China, apesar do forte reajustamento estrutural já em curso, deverá continuar crescendo a uma taxa de 7% ao ano e apresentando uma liquidez invejável.

 

Portanto, apesar da queda da demanda norte-americana e europeia, que poderá persistir por muito tempo, o problema das relações comerciais com a China e outros países asiáticos pode ser de queda de demanda de algumas commodities minerais e agrícolas, mas de crescimento de demanda de outros tipos de produtos, tanto minerais e agrícolas quanto de manufaturados e de serviços. Nesse sentido, a estratégia brasileira teria que reestruturar suas ofertas de produtos, de modo que os canais de comércio externo com a Ásia compensem, em medida considerável, o decréscimo do comércio com a Europa e com os Estados Unidos.

 

Além disso, é preciso tratar como elemento estratégico fundamental a acumulação interna de capital, sem o que as baixas taxas de investimento e a chamada trajetória levemente descendente do crescimento podem se acentuar e levar o país à crise. A alta concentração de capital nas corporações empresariais, tanto estrangeiras quanto nacionais, continua agindo no paroxismo de altos preços administrados, altas remessas de lucros para salvar matrizes em crise nos países centrais, ações legais e ilegais para eliminar do mercado tanto pequenos como grandes concorrentes, formação de cartéis para ganhar concorrências públicas e por aí afora.

 

Portanto, para que os investimentos produtivos se elevem e contribuam para o crescimento sustentado do Brasil, será necessário articular políticas estatais que, por um lado, inibam o poder de monopólio dessas corporações e, por outro, aproveitem a liquidez internacional em busca de oportunidades para estimular a concorrência e a desconcentração e a descentralização do capital, a associação com empresas nacionais, tanto estatais quanto privadas, e a criação de mais e mais postos de trabalho. O Estado brasileiro também precisa elevar a sua interferência na economia, seja através de um controle mais efetivo sobre as concessões públicas, seja tornando as empresas estatais em instrumentos de fomento da industrialização, seja ainda criando estatais para implementar a produção em áreas estratégicas, em que as corporações transnacionais não interessam ver criadas no Brasil, e em que os capitais nacionais não possuem capital suficiente para desenvolver.

 

No fundo, a questão estratégica que está em jogo é a redução substancial do enorme exército industrial de reserva, criado pela modernização do latifúndio e pela descontinuidade do propalado milagre econômico do regime ditatorial militar. Apesar das políticas de promoção social e de redução das taxas de desemprego dos últimos nove anos, esse exército continua extenso e não tem sido medido como deveria, já que as pesquisas sobre o desemprego se restringem àqueles que procuram colocação em postos de trabalho. Portanto, se a elevação dos investimentos, incluindo os externos, não for realizada de modo a descentralizar a acumulação do capital e criar milhões de novos empregos, permitindo ao Estado uma ação mais incisiva na educação geral e profissional, não só o Brasil continuará capengando em seu crescimento, como aquele exército de deserdados continuará intensificando o crescimento da violência, agora não só nas grandes cidades, mas também nas médias e pequenas.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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