Estados Unidos: a federação em xeque

 

 

Apresenta-se a escolha à Casa Branca de um republicano ou de um democrata ao eleitorado como se houvesse uma demarcação ideológica bem definida entre os dois postulantes: um seria a direita ao passo que o segundo, a esquerda, ainda que moderada.

 

O vermelho (republicano) seria insistentemente conservador enquanto o azul (democrata) seria persistentemente progressista. Tamanho distanciamento ideológico de ambos somente funcionaria em um plano ideal. Nem na retórica haveria tanta divergência.

 

Na prática, os dois grandes partidos comungam há muito tempo valores bastante próximos, com variação na intensidade da aplicação de certas medidas especialmente em política externa e econômica.

 

Diferenças importantes entre os candidatos à presidência costumam prover de postura pessoal relativa a questões comportamentais, como as vinculadas ao direito de aborto ou de união civil do mesmo gênero, sem significar o acolhimento oficial de suas agremiações ou da maioria extrema de seus militantes.

 

A alternância atual de poder demonstra que os democratas, a despeito da histórica oportunidade de resgatar o progressismo do início do século vinte, optaram por acomodar-se politicamente logo no início da gestão, a não ser em uma área: a da saúde pública, setor em que os Estados Unidos se distanciam dos demais países desenvolvidos.

 

Ao contestar a nova legislação, restou aos republicanos reviver o difícil debate acerca do grau de federalismo a existir em um país de extensão continental. Historicamente, há duas posições básicas entre as elites políticas.

 

De um lado, os defensores de um governo central habilitado ao asseguramento dos interesses comerciais em todo o globo e da preservação do status diferenciado das forças armadas perante as demais, via supremacia tecnológica e gerencial. Para tanto, há a imperiosa necessidade de manter dois ministérios bem presentes no cotidiano administrativo: o de Defesa e o de Estado; de outro lado, os partidários de uma administração descentralizada, direcionada mais para as necessidades de produção e de consumo interno e para o relativo isolamento nos assuntos mundiais, malgrado a privilegiada situação geográfica: voltado tanto para o Atlântico como para o Pacífico.

 

Ao longo da evolução da sociedade norte-americana, é possível identificar o perfil político-geográfico dos dois grupos: os chamados centralizadores situavam-se mais próximos do litoral atlântico – e depois da segunda metade do século dezenove do Pacífico também – e eram mais liberais na economia, enquanto seus opositores localizavam-se mais no interior e tendiam a ser mais protecionistas.

 

Em três momentos, os centralizadores prevaleceram sobre os oponentes, após disputas políticas renhidas: entre 1776 e 1787, a novel federação passou por momentos difíceis, ao não dispor de poder para arrecadar na medida de suas necessidades e para definir as responsabilidades federais e provinciais.

 

Diante disso, eles se concentraram na promulgação no ano seguinte de uma legislação maior, a Constituição. Com isso, encerrou-se a primeira disputa.

 

Quase 3\4 de século depois, nova confrontação entre as duas visões de mundo. Todavia, a divergência naquela vez desencadeou o maior conflito militar do continente até hoje, com centenas de milhares de mortes entre 1861 e 1865: a Guerra de Secessão, em cujo centro estava o papel de que tipo de mão de obra poderia ter o país.

 

No lado concentrador, o posicionamento favorável ao trabalhador livre, com o objetivo de expandir o consumo interno, através da incorporação como assalariados, mesmo precária, dos futuros libertos e de imigrantes europeus e, em menor escala, asiáticos.

 

A despeito da derrota militar, os estados do sul conseguiram com o passar do tempo estabelecer um regime segregacionista, validado pelo poder judiciário ao fim do século dezenove. Nos anos 50 e 60 do século passado, nova tensão federativa em torno do conceito de cidadania, a ser estendido a todos os habitantes em todo o território, independentemente da etnia ou ainda da religião. De novo, a vontade do Executivo nacional predominou sobre a dos governos estaduais.

 

Na eleição presidencial da semana, é possível que, diante de novo resultado desfavorável, os republicanos tentem distinguir-se dos democratas não pela eventual adoção do progressismo social, de uma economia supervisionada ou de uma política externa mais multilateral, mas pela proposta de outro federalismo, sobre o qual as responsabilidades sociais como em educação e saúde seriam mais estaduais que federais.

 

Dessa maneira, esperariam eles que a ampla classe média, em face da tentação de obter redução de impostos, ainda mais em momento de crise econômica, seria a de aproximar-se mais do espectro republicano, não obstante o alargamento das disparidades sociais.

 

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Virgílio Arraes é doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da mesma instituição.

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