Obama x Romney: diferenças que pesam

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Para muita gente, não importa quem ganhará as eleições de 6 de novembro: a política externa dos EUA não vai mudar nada. Nesse capítulo, Obama e Romney seriam as duas faces de uma mesma moeda.

 

De um modo geral, parece verdade. No entanto, há certas nuances particulares em um e outro que podem acabar significando diferenças até expressivas.

 

Recentemente, não sei se estava falando sério, Romney mencionou uma idéia pelo menos absurda: uma nova intervenção militar no Iraque para conter os progressos da Al Qaeda naquele país.

 

Talvez fosse apenas um papo de bar, mas revelava uma postura de arrogante imperialismo, desconsiderando as centenas de milhares iraquianos e os milhares de soldados americanos mortos na guerra, a destruição da economia iraquiana e o fato de o povo e o governo do país serem certamente contrários a receber um novo ataque militar americano. Acho que Obama nem brincando pensaria em algo assim.

 

As posições de Romney em favor de maior fortalecimento das já fortíssimas forças armadas estadunidenses falam com ainda mais eloquência sobre suas posições pró-America master of the world.

 

Ele propõe, por exemplo, a construção de 15 novos vasos de guerra por ano, até chegar ao total de 350. Obama é bem mais modesto: nove belonaves anuais, compondo uma esquadra de 298.

 

Com Romney, as despesas militares nunca serão menores do que 4% do PIB, enquanto Obama as quer ir reduzindo, baixando a 2,6% do PIB em 2022.

 

Essas diferenças mostram um Romney bem mais belicoso, propenso a entrar em novas aventuras guerreiras com maior facilidade.

 

Podemos prever que o candidato republicano provavelmente enviaria armamentos para os rebeldes sírios, talvez mesmo topasse uma invasão militar.

 

Obama vem mantendo uma postura bem mais comedida. Muitas ameaças e condenações de Assad, financiamentos para fins não-letais, que os rebeldes sabidamente usam para comprar armas, e críticas à Rússia e à China, por impedirem que o Conselho de Segurança aprove sanções contra o governo sírio.

 

Claro, ele pode, eventualmente, mudar, partir para a briga, coisa que Romney teria muito mais chance de fazer.

 

As diferenças bélicas entre os dois candidatos não parecem existir no trato dos problemas do Afeganistão e do Paquistão. O republicano concorda com a saída das tropas do território afegão, em 2014, deixando uma força militar limitada, e com o bombardeio por drones dos talibãs e camponeses do Paquistão, onde Obama foi muito além de George Bush.

 

Mas as discordâncias voltam quando se discute a questão do Irã. O democrata prefere persuadir os aiatolás a erguerem a bandeira branca através de sanções e diplomacia (até agora apenas mencionada...), mostrando-se totalmente contrário ao bombardeio defendido por Netanyahu.

 

Romney, retoricamente, diz que é preciso ser mais duro com Teerã. E explica o que isso significaria: acompanhar Israel, caso o amigo Bibi decida-se pelo ataque, e bombardear os iranianos assim que eles consigam “capacidade nuclear”.

 

Ora, essa expressão é totalmente ambígua. Permitiria a Romney dar o sinal verde para as bombas de Tio Sam mandarem brasa quando ele bem entendesse.

 

Se ele ouvir o grupo dos realistas do Partido Republicano, isso não aconteceria facilmente. Mas os chamados neocons, os neoconservadores que assessoraram Bush, têm prestígio junto a Romney. E eles estão entre os mais ardentes falcões dos EUA.

 

Mas e quanto a Israel? Tudo indica que os dois pensam igual. No debate sobre política externa, o nome “Israel” foi falado 34 vezes. Sabe quantas vezes os dois candidatos mencionaram a Palestina? Errou. Não mencionaram uma única vez.

 

Obama e Romney brigaram para mostrar quem ama mais os israelenses. Cada um, por sua vez, enumerou os motivos que provavam ser seu amor maior e mais sólido. A segurança dos israelenses foi destacada como a grande questão do Oriente Médio. A independência da Palestina foi completamente ignorada, como algo absolutamente sem importância.

 

Deixando de lado o debate, que, afinal, foi tratado pelos dois como mais uma peça de propaganda, convém verificar sua atuação em situações concretas.

 

Como todo mundo sabe, o Obama modelo-2008, diferentemente da nova versão, queria mudar a política externa estadunidense, tornar o país mundialmente respeitado e não temido. Achava indispensável resolver a questão palestina, através da solução dos dois Estados.

 

E, de fato, no começo do seu governo buscou pressionar Netanyahu para que interrompesse os assentamentos, tornando possível as negociações de paz com os árabes palestinos.

 

Conseguiu apenas alguns meses de interrupção parcial e mais nada. Anos depois, declarou ser urgente a criação do Estado palestino, com base nas fronteiras de 1967, como, aliás, já foi determinado pela ONU.

 

Bibi reagiu, chamou às armas seus aliados do Congresso americano e Obama arreglou, só faltou pedir desculpas. Depois disso, só fez apoiar servilmente Israel em todos os seus injustos pleitos contra os palestinos.

 

Há quem diga que, num segundo mandato, não tendo de se preocupar com nova reeleição (proibida pela lei), Obama poderia voltar a ser o Obama modelo-2008, o autêntico Obama, que queria mudar os EUA e o Oriente Médio, através da paz e da justiça.

 

Com isso, ele viria com tudo contra Netanyahu para obrigá-lo a ser razoável e aceitar um acordo que viabilizasse a independência da Palestina.

 

Parece difícil. Obama teria contra si o Congresso, muito justamente chamado por um jornalista americano de “o melhor congresso que a AIPAC (lobby judaico) pode comprar”. E não só o Congresso. Também boa parte da imprensa, a indústria de armamentos, o Pentágono, os lobbies judaicos, cristãos fundamentalistas, enfim, um mix variado e poderoso.

 

Obama nunca demonstrou nem coragem e nem audácia para remar contra uma maré tão alta. Mas, enquanto ele tem ao menos desejo de conseguir uma paz justa na Palestina, Romney... Vá lendo.

 

Numa reunião com financiadores de sua campanha, ele declarou: “o caminho para a paz (na Palestina) é impensável de ser conseguido”. Isso porque o grande alvo dos palestinos seria acabar com Israel.

 

Só por cima do cadáver do republicano que, sendo eleito, “os EUA reduzirão sua assistência aos palestinos se eles continuarem a insistir no seu reconhecimento pela ONU ou formar um governo que inclua o Hamas...”

 

Romney afirmou que estreitar ainda mais o relacionamento com Israel será a pedra angular de sua política externa.

 

Na mesma reunião com os financiadores, ele exemplificou sua política de Israel first, informando que costumava ser brifado sobre o Oriente Médio pelo embaixador de Israel nos EUA.

 

Não se sabe o que o candidato republicano falou sobre os assentamentos (condenados pela ONU), mas quando Obama propôs negociações de paz com os palestinos, tomando por base as fronteiras de 1967, ele somou-se a Netanyahu num veemente repúdio. E proclamou: “o presidente atirou Israel debaixo de um ônibus”.

 

O Israel first de Romney faz com que ele olhe a Primavera Árabe com desconfiança. Está muito preocupado com a eleição para presidente do Egito de um líder egresso da Irmandade Muçulmana, inimiga histórica dos israelenses.

 

Por isso, embora não rejeitando de todo a Primavera Árabe, ele insiste que os EUA só devem ajudar os governos que não criarem problemas para sua política externa. Ou seja: que não contrariem os interesses estadunidenses e de Israel. Por isso, acha que os EUA devem pôr rédeas curtas na ajuda ao Egito.

 

Já Obama acha que as revoluções populares no norte da África e no Oriente Médio são desafios e oportunidades para os EUA recuperarem sua imagem, muito rebaixada nos países dessas regiões.

 

Sua idéia é colaborar com os regimes islâmicos moderados, ajudando seu desenvolvimento econômico e social, além de estimular causas justas como os direitos humanos, a democracia e os direitos da mulher.

 

Ele tem agido com prudência no relacionamento com esses novos regimes. No caso do Egito, por exemplo, onde o antiamericanismo é muito forte, ele tem evitado pressionar o governo, pelo menos publicamente.

 

Ao mesmo tempo, ainda não mudou a política de assistência dos tempos de Bush, que concede 1,1 bilhão de dólares em armamentos e apenas 300 milhões para fins econômicos.

 

É de se crer que ele está esperando por uma decisão final do presidente Morsi sobre as questões da abertura da fronteira do Egito com Gaza, da revisão do acordo Egito-Israel e do reatamento das relações diplomáticas do Cairo com Teerã. Provavelmente os EUA não vão gostar nada do que vai acontecer.

 

No entanto, dependendo da maneira com que Morsi faça suas escolhas e da disposição de Obama de enfrentar as inevitáveis reações de Israel e do Congresso, é possível que os EUA mantenham sua política atual de apoio ao Egito.

 

O contrário do que Romney provavelmente faria. Além das relações que seriam complicadas com os novos regimes islâmicos do norte da África, Romney vai enfrentar problemas com a Rússia, já por ele apontada como o inimigo número 1, e a China, que ele considera perigosamente desleal.

 

Não quer dizer que Obama terá uma amizade fraternal com esses países. Tendo contestado frontalmente os EUA nos affairs da Síria, do Irã e mesmo da Palestina, as duas antigas rivais estão se unindo diante de um país que já veem como um adversário comum.

 

As recentes ações dos EUA no extremo oriente vêm criando um clima de indignação na China. E os russos andam furiosos com as críticas que autoridades, políticos e jornalistas americanos fazem dos direitos humanos no país. Seu Ministério das Relações Exteriores soltou, inclusive, uma mensagem apontando as infrações estadunidenses nesse delicado terreno.

 

Através desta visão comparativa das possíveis políticas externas dos dois candidatos, dá para fazer algumas apostas.

 

Com Romney, as chances de guerra contra o Irã e de fornecimento de armas à oposição síria seriam maiores. São mínimas quando se pensa num avanço no processo de paz na Palestina.

 

O que não quer dizer que Obama irá pressionar Bibi (ou outro premier), com sucesso, a aceitar a independência dos palestinos.

 

É até possível que Obama seja compreensivo com o Egito e não jogue tudo pro ar caso aconteça um reatamento egípcio-iraniano e a reabertura da fronteira com a Faixa de Gaza.

 

Pode ser até que ele exerça pressões apenas moderadas nos vários regimes islâmicos que se estabeleceram e ainda vierem a se estabelecer via Primavera Árabe. E chegue a fazer acordos de amizade, incluindo auxílio econômico. Mas será complicado.

 

Não se sabe o que acontecerá no choque entre EUA e a dupla China-Rússia caso um ou outro dos candidatos vença.

 

É de se crer que ninguém pode afirmar com segurança. Provavelmente tanto o republicano quanto o democrata se limitarão a falar grosso.

 

Não acredito que Romney na presidência apelaria para a força militar – nem os republicanos são malucos.

 

Mas, e a América Latina? Ela foi praticamente ignorada na campanha dos dois postulantes.

 

No governo Obama, aconteceu como nas outras áreas: Obama começou bem, dizendo que queria amizade e igualdade entre as nações da América, sorrindo para Chávez e Evo Morales – mas parou por aí.

 

Nos golpes de Honduras e do Paraguai, pareceu disposto a contestar, mas logo somou com os golpistas, todos amigos de longa data da Casa Branca.

 

Aboliu algumas restrições contra Cuba. Houve reações dos eleitores cubano-americanos. E Obama não foi adiante.

 

De um modo geral, sua atuação na área latino-americana foi absolutamente rotineira. Se reeleito não se espere que mude. Não se deve esperar nada muito diferente de Romney.

 

Nas vésperas da eleição, a disputa parece parelha. Obama, que vinha ganhando fácil, perdeu muito depois de sua desastrosa participação no primeiro debate.

 

Recuperou-se um pouco nos dois seguintes, mas foi graças ao Sandy que ele cresceu mais, com sua atuação enérgica e eficiente, elogiada até por um adversário ferrenho, o governador de New Jersey.

 

O palpite é que vai dar Obama. Se ele perder, perde o mundo.

 

Em política externa, embora os dois candidatos tenham posições basicamente iguais, a forma com que Romney promete executá-la é bem mais agressiva e vinculada aos interesses de Tel-aviv. Ainda que injustos.

 

Luiz Eça é jornalista.

Website: Olhar o Mundo.

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