Palestina: derrota do colaboracionismo

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Nas eleições municipais da Margem Oeste, o presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, e seu partido, o Fatah, foram derrotados. Apesar de o Fatah concorrer praticamente sozinho (o Hamas não participou) contra candidatos independentes, perdeu em cinco das 11 cidades principais. Além disso,a abstenção passou de 50%.

 

Pesou contra Abbas e o Fatah uma série de fracassos: o processo de paz que sequer começou; a busca de reconciliação com o Hamas; a tentativa de reconhecimento como país independente pela ONU; a economia que entrou em crise, com salários dos funcionários públicos atrasados desde setembro.

 

Ficou claro que o povo votou contra a política de conciliação com Israel, semelhante à do governo de Vichy, criado pelos alemães na 2ª Grande Guerra para administrar parte da França, sob controle de Berlim.

 

Na Palestina, em decorrência dos tratados de Oslo, parte da Margem Oeste passou a ser administrada, com poderes bastante limitados, pela chamada Autoridade Palestina.

 

Sua função era colaborar com Israel na segurança – perseguindo e prendendo os elementos radicais,

garantindo o fluxo das mercadorias israelenses e cuidando dos serviços públicos, além de estimular as atividades econômicas em geral.

 

Tudo sob a supervisão do exército de Israel. Era um relacionamento semelhante ao do governo de Vichy com os dominadores alemães.

 

A ideia era que, através da colaboração entre israelenses e palestinos, seria mais fácil realizar negociações que fossem gradativamente conduzindo à independência da Palestina.

 

O objetivo final desse processo de paz seria a existência de dois Estados: uma Palestina livre e um Israel seguro em suas fronteiras.

 

Mas não deu certo. Nem poderia dar.

 

Israel não parou de construir novos assentamentos em terras palestinas, tornando a situação cada vez mais difícil de ser resolvida já que, para haver independência da Palestina, eles não poderiam continuar existindo.

 

Hoje, esses assentamentos já têm uma população de 500 mil habitantes. Nos dois governos Netanyahu o ritmo de novas construções atingiu os maiores picos.

 

Embora se dizendo, publicamente, favorável à solução dos dois Estados, o premier israelense en famille repetidas vezes assegurou sua fidelidade à ideia do Grande Israel, incluindo a Palestina.

 

Há alguns meses, a comissão Levy, nomeada por Tel-aviv, entregou um estudo sobre a Palestina, afirmando que toda ela pertencia a Israel. Portanto, cabia ao governo, inicialmente legalizar todos os assentamentos irregulares feitos na Margem Oeste, desrespeitando as próprias exigências das leis israelenses.

 

Num segundo passo, toda a Margem Oeste deveria ser anexada a Israel, acabando com o sonho da Palestina independente.

 

Netanyahu recebeu o estudo sem fazer comentários, mas, na semana passada, ordenou a legalização de todos os muitos assentamentos ilegais judeus na Margem Oeste, atendendo à primeira proposição da comissão Levy.

 

Ficou evidente sua intenção de criar o Grande Israel. O que não deveria provocar surpresa. Afinal, a Carta de Princípios do Likud, o próprio partido do premier Netanyahu, proclama que os assentamentos são “a realização dos valores sionistas” e a Margem Oeste e o total de Jerusalém pertencem a Israel.

 

Se uma das partes deixou bem claro que não está de acordo com o objetivo final do processo de paz – a solução dos dois Estados – a conclusão só pode ser uma: o processo de paz está morto.

 

Foi invocando as negociações entre as partes como única forma de se promover um processo de paz justo e equânime que o governo Obama sabotou a apresentação do reconhecimento unilateral da Palestina pelo Conselho de Segurança da ONU. Pelo mesmo motivo, a Europa unida somou com ele.

 

Foi para não perturbar esse processo de paz que os EUA manifestaram-se contra a entrada dos palestinos na UNESCO; contra a condenação dos crimes do exército israelense no ataque a Gaza e à frota de socorro humanitário; contra uma série de propostas de comissões de inquérito da ONU sobre violências e violações israelenses na Margem Oeste.

 

Agora que o próprio Bibi Netanyahu lançou uma pá de cal sobre o processo de paz e a solução dos dois Estados, será difícil para Obama justificar sua ação totalmente parcial no Oriente Médio, favorecendo Israel e prejudicando os árabes.

 

Jefferson, Washington, Tom Paine, Franklin e os outros pais da pátria americana ficariam vermelhos de vergonha.

 

Voltando a Terra, gostaria de lembrar que, antes da viagem de Abbas a Nova Iorque para falar na Assembleia Geral da ONU, ele declarou que renunciaria ao voltar.

 

Foi sua 15ª renúncia. Ele agora diz que vai adiá-la até a conclusão do requerimento da Palestina à ONU para ser aceita como membro não-oficial.

 

Em caso de vitória, que ele tem como certa, é de se apostar que voltará atrás. Não deveria. Sua política de complacência com os EUA e de colaboração com Israel não resultou num único passo em direção à Independência. Não conseguiu de Netanyahu qualquer concessão de algum valor.

 

Mas nem tudo está perdido para os palestinos. Ainda lhes resta um caminho: a resistência civil, defendida por Bargouthi, o líder preso numa penitenciária de Israel.

 

Não colaborar de nenhuma forma com Israel. Boicotar seus produtos e seus serviços. Insistir sempre em lutar por novas posições na ONU e em outros organismos internacionais. Denunciar as violências do exército israelense. Estimular o boicote internacional dos produtos e serviços israelenses.

 

É uma proposta similar à de Gandhi. Dura, difícil, sobretudo para o povo que, certamente, sofrerá ainda mais privações e castigos. Será um preço muito alto. Mas independência costuma custar caro.

 

Leia também:

Renúncia de Abbas trará resistência civil


Luiz Eça é jornalista.

Website: Olhar o Mundo.

Comentários   

0 #1 escritorbernardo kucinski 01-11-2012 10:43
Prezado Luiz Eça:
O terceiro paragrafo dessa matéria ( "Ficou claro que...")é gratuito e não tem o suporte do anterior onde você dá as razões da "derrota" do Abbas, que nem foi bem derrota, considerando o peso dessas mesmas razões.
Porque o terceiro parágrafo? é a deixa para comparar Israel com o Nazistas, abordagem tipica de certo discurso de certa esquerda, que não trabalha com a razão e com os fatos sim com o mito do bem contra o mal.
O ponto fundamental,creio, é que houve eleições, depois de muitos anos.
Não discordo necessariamento dos demais pontos doa artigo,( embora alguns estejam grosseiramente simplificados) que criticam duramente e com razão a atual politica do governo de Israel de digerir aos poucos território alocado pelo tratado de Oslo a um futuro Estado Palestino.
Mas o que você oferece em alternativa ao Abbas? O Hamas, que nestas duas ultimas semanas lançou mais de 100 foguetes contra cidades ao Sul de Israel ( depois que o governo israelese retirou a força todos os assentamento judeus em Gaza),ou o Hezbolla que apoia o governo de Assad na Siria e nele se apoia?
Para ficar na sua comparação com o governo de Vichy,obviamente sua opção é a de eliminar a Autoridade Palestina, que você chama de colaboracionista, como foi eliminado o governo de Vichy, e eliminar também o estado de israel, que como versão moderna do nazismo patricinou isso tudo.
Saudações
Bernardo Kucinski
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