Estados Unidos: a relativa insegurança nuclear

 

 

Há duas semanas, o primeiro debate presidencial não beneficiou Barack Obama, considerado favorito em vista da oratória e da experiência administrativa. Todavia, seu opositor, Mitt Romney, demonstrou maior desembaraço, após intensa preparação, de acordo com alguns meios de comunicação, para o evento em si.

 

Por outro lado, o realizado entre os vices na semana passada teria equilibrado a disputa: Joe Biden, mais seguro, conseguiu anular a maioria das críticas de Paul Ryan. A diferença de desempenho levou parte dos meios de comunicação a acusar o democrata de arrogância.

 

No próximo, a simetria entre os dois aspirantes à Casa Branca deverá ser maior, porque Romney não desfrutará mais da surpresa. A expectativa de uma boa laboração no futuro encontro o acompanhará, de maneira que eventual deslize seu será mais marcante, como ocorrido com Obama no primeiro. Assim, as posições inverteram-se.

 

Diferentemente dos pleitos anteriores, a atenção do eleitorado volta-se mais para o interno, por causa da recuperação lenta da economia, sem dividi-la com as hipotéticas ameaças terroristas e com as duas guerras sem fim. Nos últimos meses, o cotidiano local absorve a preocupação da sociedade, desesperançada de superar as adversidades sociais no curto prazo.

 

Nesse sentido, os esforços governamentais de contenção do terrorismo, embora importantes, reduziram-se, aos olhos da população. No segundo ano de mandato, Obama determinou a modificação da forma de identificação de transeuntes suspeitos, ao acrescer a questão de tempo de permanência no país e em outras localidades consideradas turbulentas, como Iraque, Afeganistão, Paquistão, Irã etc., e a de identificação das destinações, através dos passaportes, à idade, renda, grau de estudo e gênero.

 

Na época, passageiros provindos de 14 países, ao pisar em solo americano, tinham sobre si uma verificação apurada pelas autoridades fronteiriças. Desde o primeiro semestre de 2010, nenhum caso de gravidade maior foi sequer relatado ao público.

 

Desta forma, o acordo neohobbesiano entre o governo norte-americano e a população tem sido eficiente, na visão da maioria dos cidadãos. Espera-se, pois, que a população em breve solicite a seus representantes políticos o retorno da antiga liberdade em detrimento do alto grau de medidas de segurança.

 

Paralelamente à contenção ao terrorismo, o governo empenhou-se em reformular sua política de segurança nuclear, ao reforçar seu caráter de dissuasão junto aos países denominados renegados como Coréia do Norte ou mesmo Irã. Com isso, esperava intimidar outros governantes em vias de desenvolver seus próprios artefatos, em face da perspectiva da melhora de status regional ou até mundial.

 

Com a Rússia, os Estados Unidos assinaram um novo tratado, voltado para diminuir o número de ogivas nucleares estratégicas de ambos, responsável por cerca de 90% do total do mundo. De importância simbólica, o acordo não abrangeria o restante do arsenal, porém seria o primeiro assinado em quase duas décadas. Os dois teriam de reduzir seus estoques em 30% em até sete anos.

 

No primeiro acerto, assinado em 1991 e expirado em 2009, ambos se comprometeram a manter seis mil ogivas e mil e seiscentos mísseis balísticos intercontinentais. No segundo, assinado em 1993, buscou-se banir um tipo de míssil: os balísticos com múltiplas ogivas. No terceiro, em 1997, a proposta original abarcava a limitação para duas mil e quinhentas ogivas, mas não prosperou. No de 2010, o limite será de 1550 ogivas.

 

Os russos, depois do fim da Guerra Fria, passaram a dedicar mais atenção à preservação de estoques nucleares como opção principal de defesa, uma vez que não puderam mais manter suas forças convencionais nos mesmos níveis dos anos 80.

 

De toda forma, o entendimento diplomático entre as duas superpotências significava arquivar o imbróglio originado em torno da disputa militar entre Rússia e Geórgia em agosto de 2008, por causa da Abecásia e da Ossétia do Sul, desejosas de orbitar politicamente em torno de Moscou, não de Tiblíssi.

 

Desde o atentado terrorista de setembro de 2001, a preocupação maior do Conselho de Segurança Nacional dos Estados Unidos não é com governos nuclearizados, mas com grupos fundamentalistas ávidos por armas de destruição em massa.

 

De acordo com a Coordenação de Armas Nucleares, Segurança e Controle de Armas daquela instituição, estima-se que o urânio enriquecido disponível em todo o planeta poderia produzir mais de cem mil bombas nucleares de pequeno porte. Por isso, a necessidade de conciliação não somente com países europeus, mas com Índia, China e Paquistão, a fim de coibir a possível circulação desse material químico.

 

Leia outras colunas de Virgilio Arraes sobre a conjuntura dos EUA

 

Virgílio Arraes é doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da mesma instituição.

Para ajudar o Correio da Cidadania e a construção da mídia independente, você pode contribuir clicando abaixo.

Relacionados