Cartada tucana

 

 

A campanha para o segundo turno mal começou e o PSDB, principalmente através de Serra, essa personalidade que não teme seu telhado de vidro, decidiu ligar o julgamento do chamado mensalão ao candidato do PT, na disputa pela prefeitura de São Paulo. Aliás, essa era e ainda é a grande esperança da direita política e judiciária: que o julgamento do STF se transforme no julgamento do PT, tanto nas eleições municipais, quanto nas próximas eleições gerais, daqui a dois anos. Até agora não tiveram sucesso, mas há indícios de que o tentarão com mais empenho neste segundo turno, num teste de tudo ou nada com vistas ao futuro.

 

O STF vai continuar se empenhando em cumprir sua tarefa de arranhar a lei, condenando indivíduos por crimes que não cometeram, e sequer julgando-os por um crime que confessaram, como é o caso do caixa-dois. E os tucanos parecem estar assumindo a tarefa de tentar a cartada de fazer com que o PT se sinta atingido e se defenda por malfeitos que não dizem respeito ao partido.

 

É evidente que se trata de uma cartada de alto risco, que pode atingir ao próprio PSDB, trazendo para a disputa algo que não tem nada a ver com os problemas que preocupam as populações das cidades em que se trava o segundo turno. Mas ela também contém uma armadilha que pode ser fatal ao PT, principalmente tendo em conta que algumas parcelas parecem ansiosas em fazer com que o partido saia publicamente em defesa dos condenados, por julgarem que estão sendo injustiçados.

 

A cartada tucana pode funcionar contra seu próprio candidato, que corre o risco de ficar falando sozinho, se o PT não aceitar a provocação e concentrar todos os seus esforços em discutir os grandes e pequenos problemas que afligem parcelas crescentes das populações das cidades em disputa. Como se sabe, tais problemas vão do caótico sistema de transporte urbano ao aumento indescritível da violência, passando pelo emprego, saúde, educação, reformas urbanas que melhorem o saneamento, reduzam a poluição, arborizem as vias urbanas, criem mais espaços públicos de lazer e esportes, e vai por aí afora. Em geral, o primeiro turno mostrou que grandes contingentes da população das cidades querem é ouvir e decidir sobre propostas que ataquem tais problemas.

 

Mas a cartada tucana pode funcionar contra o PT se este aceitar o embate como se o próprio partido estivesse sendo julgado e se sentisse atingido, da mesma forma que os que estão sendo julgados pelo STF. Em outras palavras, se o PT reconhecer, implicitamente, que está sendo julgado, como sugerem alguns ministros do STF e os partidos de direita. Isso seria a glória para eles, atingindo o objetivo almejado de assistir ao PT colocar a corda no próprio pescoço. Dai em diante, tudo se tornaria possível para a direita.

 

Em vista disso, os petistas que estão sendo julgados, mesmo que não tenham cometido os crimes que lhe são imputados, deveriam, em seu íntimo, reconhecer que permitiram, por erros diversos, serem envolvidos numa trama que a burguesia e seus agentes estão sempre maquinando para destruir o partido. Dirigentes partidários de um partido de trabalhadores não têm o direito de dar asas ao azar, caírem em armadilhas em que a direita é mestre, e colocarem em risco o partido, e o governo que este dirige.

 

Por tudo isso, neste momento, basta que reiterem sua inocência e evitem, a todo custo, envolver a militância numa disputa que só pode trazer novos prejuízos ao PT. Devem entender que a reconstrução da verdade sobre sua queda naquela armadilha e trama vai requerer paciência, tempo, sabedoria e desprendimento pessoal. Agora, o mais importante é evitar que a cartada do PSDB encontre ressonância. Mais adiante, a reconstrução da verdade dependerá da reestruturação  ideológica e política, não só do PT, mas da esquerda em geral, para delimitar com mais clareza as diferenças de estilo e de método em relação aos aliados políticos nos governos e nos parlamentos, numa situação inusitada em que a esquerda ganha paulatinamente a hegemonia política, mas não tem poder econômico, não controla o aparato estatal, nem tem hegemonia ideológica. O que não é pouco.

 

Wladimir Pomar é analista político e escritor.

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