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Doutrina Obama e a guerra na Síria (1) Imprimir E-mail
Escrito por Pedro Otoni   
Qui, 11 de Outubro de 2012
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A política exterior norte-americana apresenta sinais de esgotamento. Não é mais possível aos EUA continuarem operando sob o mesmo registro da última década. O mundo não é mais tão dócil aos seus comandos, nem sua situação econômica é doce o suficiente para projetar-se como modelo a ser seguido pela humanidade.

 

Diante desta encruzilhada, o governo democrata atualizou sua estratégia militar para o mundo, reduziu as iniciativas de invasão norte-americana direta, que possui um custo político e econômico alto, e vem promovendo uma forma mais insidiosa de controle geopolítico. Em uma tática similar às empregadas pela administração Reagan (1981-89), que patrocinou oposições armadas contra o governo sandinista na Nicarágua, grupos conhecidos como Contras, o governo de Obama aposta na produção e fortalecimento de dissidências em países que rejeitam o comando de Washington. A onda de protestos em diversos países de maioria muçulmana, a chamada “Primavera Árabe”, foi percebida e explorada como uma janela de oportunidade para a política exterior norte-americana desestabilizar regimes não compatíveis com seu sistema de dominação. Foi assim na Líbia, tem sido assim na Síria.

 

A lógica de operação estadunidense na nova doutrina imperialista de Washington articula as seguintes linhas de ação: 1) criação de uma opinião pública internacional e regional anti-regime, utilizando como mote “a luta pela democracia”; 2) ressurreição de diferenças étnicas e religiosas no interior dos países, explorando em especial minorias alijadas do poder de Estado; 3) envolvimento e mobilização dos aliados regionais.

 

A CIA (Central Inteligence Agency) não apenas colabora com as dissidências armadas, mas as fomenta, treina, arma e abastece de suprimentos. No entanto, formalmente, tanto os EUA quanto seus aliados europeus negam a participação direta nos conflitos, mas declaram apoio aos rebeldes em seus objetivos anti-regime. Depois do desmantelamento da Líbia, a Casa Branca tem a Síria e o Irã como alvos imediatos.

 

A guerra na Síria: a aplicação das três linhas de ação da Doutrina Obama

A Síria, alvo preferencial dos EUA no momento, conhecida por ser o Estado mais estável da região e operador político importante do nacionalismo árabe, sempre foi base de apoio dos grupos anti-imperialistas do Oriente Médio. Durante o período de governo da Frente Progressista Nacional (FPN), iniciado em 1963, esse país sempre esteve sintonizado internacionalmente com o Bloco Socialista e posteriormente com a Rússia e China, procurando construir um estado republicano, laico, igualitarista e soberano. Por esta razão, sempre foi uma pedra no caminho dos estadunidenses e seus aliados.

 

No caso da Síria, os EUA procuram reproduzir a mesma estratégia utilizada na Líbia: articulação da opinião pública, dissidências internas e mercenários, assim como apoio dos aliados regionais. Conforme expomos anteriormente, a primeira linha de ação se dá no plano da mídia, para isso utiliza os meios mundiais de comunicação e em especial a Al Jazira, maior veículo de comunicação do mundo árabe. Tal empresa televisiva tem não apenas orientado, mas produzido fatos no que tange a guerra civil síria, anunciando manifestações artificiais, “informando” mortes e conflitos que tem como objetivo central desmoralizar o governo sírio e inflar (ou superestimar) as forças dos grupos de dissidentes. Esta forma orquestrada de manipulação midiática, tão comum em outras situações, não é casual. Basta lembrar que a Al Jazira é de propriedade da família Al Thani, que nada mais é do que a família real do Qatar (país sede da empresa). É no mínimo um engano acreditar que a Al Jazira dos Al Thani esteja preocupada com o bem estar do povo sírio, uma vez que a própria população catariana é excluída dos resultados da renda do petróleo, sendo este de propriedade do Emir Hamad bin Khalifa (o monarca). Nem o Qatar, tampouco a Arábia Saudita, outra monarquia absolutista, são modelos de referência em termos políticos ou econômicos para a população síria.

 

Este golpe midiático vem acompanhado do cerco aos meios de comunicação do Estado e das organizações populares sírias. Compõe seu expediente desde bombardeios ao sistema de comunicação estatal até a interferência e bloqueio de sinais de rádio e internet da população, por meio do corte das transmissões via satélite. O mundo e o próprio povo sírio recebem, quase que exclusivamente, sinais de comunicação provenientes das dissidências golpistas e de seus aliados na região.

 

A segunda linha de ação estadunidense na produção de conflitos refere-se à criação de dissidências internas. Na Síria, o Partido Baath, e seus aliados da FPN, lograram construir um equilíbrio entre as diferentes etnias e religiões por meio da edificação de um Estado laico. Os EUA incentivam o radicalismo fundamentalista sunita, para decompor o alicerce social da organização nacional síria. Takfiris estrangeiros, mercenários (líbios, tunisianos, jordanianos, paquistaneses, sauditas e egípcios) financiados, equipados e treinados pela CIA, e militares da Arábia Saudita, Qatar, Turquia e Israel, conjuntamente com salafitas sírios ligados à Irmandade Muçulmana, são a espinha dorsal dos rebeldes.

 

A fronteira da Turquia tem sido a principal base de apoio logístico e político. O Conselho Nacional Sírio, centro de comando dos rebeldes, está instalado neste país, agentes da CIA operam ali construindo redes de inteligência para a dissidência, fornecendo fotos áreas e de satélites, além de informações militares sobre a movimentação do Exército Sírio. É pela Turquia que grande parte dos equipamentos ditos “não letais” provenientes da França, Alemanha e Reino Unido são entregues aos rebeldes. A Alemanha, por sua vez, admitiu que envia informações obtidas por seus navios na costa síria. Israel e Turquia possuem um papel relevante enviando comandos de operações especiais (grupo de elite do exército) para atuarem dentro das fronteiras sírias, mais uma clara manifestação da ingerência estrangeira no conflito. Cabendo por fim ao Qatar e à Arábia Saudita o suprimento de armamento pesado aos dissidentes.

 

A terceira linha de ação de Washington no conflito se refere à mobilização de seus aliados no Oriente Médio. O cenário é extremamente desfavorável para a Síria neste campo, sendo que os EUA lograram articular diferentes níveis de colaboração regional com os golpistas do Conselho Nacional Sírio. A Turquia, Arábia Saudita e Qatar estão diretamente envolvidos no fornecimento de armas. Israel age em operações de “comandos” distribuídos dentro das fronteiras sírias, realizando ações de terror entre a população. O presidente egípcio Mohamed Morsi, membro da Irmandade Muçulmana, realizou declarações a favor da mudança do regime. Extraoficialmente, membros da Irmandade estão atuando entre os rebeldes, mesma postura assumida pela Jordânia. Complementando este repertório anti-sírio estão o Reino Unido, Alemanha e França, que fornecem os suprimentos para as organizações de oposição.

 

Os EUA possuem o propósito claro de criar uma situação de conflito permanente no Oriente Médio, abrindo caminho para a desestabilização da Síria e do Irã. Assim, arma países aliados que estão dentro do círculo de fogo do confronto contribuindo para o desequilíbrio da correlação de forças na região em favor do Ocidente. É evidente que os interesses econômicos que estão inseridos na dinâmica de operação do imperialismo, principalmente em relação ao petróleo, serão garantidos de maneira mais sólida com a derrota dos países de orientação soberana e pan-árabe. No entanto, a guerra é, por ela mesma, um negócio lucrativo. A venda de armas norte-americanas para o mundo, no ano de 2011, triplicou, chegando à cifra de 66,3 bilhões de dólares, um recorde. Mais da metade deste valor foi comprado pelos aliados do Golfo Pérsico (com destaque para a Arábia Saudita, Emirados Árabes e Omã). A combinação entre a produção de conflitos e o mercado bélico não é novidade, está contida na tentativa de indução da economia estadunidense em crise, via o fortalecimento do complexo militar-industrial, utilizado diversas vezes pela classe dirigente norte-americana.

 

À articulação destas três linhas de ação relançadas por Washington, classificamos como a Doutrina Obama. Nessa nova abordagem, a CIA assume relevância na política exterior dos EUA, diminuindo o papel do Pentágono (Departamento de Defesa), que foi na administração Bush o instrumento preferencial de ação estratégica. Tendencialmente, as operações militares estadunidenses terão como linha geral a desestabilização de governos e a exploração do mercado de armas proveniente dos conflitos armados por eles mesmos induzidos. O aparente distanciamento em relação às guerras na Líbia e na Síria, colaborando com os rebeldes sem, contudo, utilizar de invasão terrestre oficial, já é indício que a Casa Branca procura formas mais eficazes de manutenção de seu poder no cenário mundial, sem deformar ainda mais sua imagem perante a opinião pública.

 

A Doutrina Obama dissimula o caráter da guerra na Síria. Não se trata de um conflito doméstico, mas de uma reconfiguração da lógica de dominação imperialista no Oriente Médio e no Norte da África. A indução de oposições armadas internas, na Líbia e agora na Síria, possui vantagens importantes para o condomínio de poder norte-americano.

 

Primeiro por estabelecer um mote geral mais palatável para a opinião pública internacional, a suposta “luta pela democracia”, um marketing de guerra mais amplo do que a luta contra o “terrorismo” (sem, contudo, abandoná-lo). Dialoga, portanto, com o sistema ideológico europeu e norte-americano, que tem como pano de fundo a crença na missão democratizante do Ocidente, sendo esses “os povos eleitos”, destinados a irradiar a “liberdade” para o mundo, “incluir as nações selvagens à humanidade capitalista liberal”, livrá-los do “atraso oriental, muçulmano”, ou seja, libertá-los deles mesmos.

 

Esta visão pretensamente universalista guarda raízes feudais, no cristianismo fundamentalista cruzado, e tem larga aceitação no senso comum europeu e estadunidense, bem como nas elites ocidentalizadas da América Latina, África e Ásia. Até mesmo os setores de orientação crítica e de esquerda, em sua maioria, não estão imunes ao clichê “liberdade e democracia”, recusam-se a denunciar o golpismo e apoiar o governo sírio. Escolhem falsas saídas, puramente retóricas, do tipo “apoio à revolução síria, abaixo o governo”, como se houvesse algum elemento progressista entre as falanges de mercenários e fanáticos religiosos que se reúnem em torno da oposição armada, mistificando o apoio popular à dissidência e os êxitos do Conselho Nacional Sírio (CNS) e do Exército Livre da Síria (ELS).

 

Aquecer o mercado armamentista é outra vantagem objetiva com a nova abordagem estadunidense. É útil para este ramo o envolvimento amplo de nações no conflito, pois exploram o mercado consumidor gerado pela guerra. Uma guerra sem fim, na qual o peso de um aliado é calculado pela quantidade de equipamento militar que ele se dispõe a comprar. O prolongamento temporal e territorial do conflito ainda possui o benefício de estender a demanda por suprimentos pelas partes beligerantes, lógica que influencia a tomada de decisões da Casa Branca e do Congresso, pressionados pelo lobby do complexo militar-industrial, interessados diretos no confronto.

 

Afinal, a guerra é uma oportunidade de negócios que os EUA sabem aproveitar como nenhuma outra nação. Além dos dados já apresentados, existe um mercado milionário de mercenários, monopolizados por empresas norte-americanas de propriedade de ex-funcionários do governo, da CIA e do Departamento de Segurança. Estas corporações, que têm como representante mais destacada a antiga Blackwater Worldwide (atual Xe), recrutam ex-soldados de setores de elite do exército para executarem operações ilegais (aquelas que a CIA não pode fazer diretamente por restrições legais) como assassinatos, atentados, torturas etc. Elas atuam como força auxiliar no Afeganistão e Iraque e tiveram um papel pronunciado na queda de Kadafi na Líbia. Atualmente, realizam operações junto ao ELS na Síria e inauguraram a era moderna das guerras terceirizadas.

 

Os interesses econômicos, principalmente da indústria petrolífera, são os mais evidentes. No entanto, a indústria das armas, de segurança (mercenários) e construção civil (economia de reconstrução pós-guerra), apesar de terem interesses mais discretos, ganham destaque num ambiente de crise econômica internacional. Por fim, há o interesse dos bancos, que vislumbram atuar no mercado de empréstimos aos governos fantoches (como ocorre hoje no Afeganistão, Iraque e Líbia), lucrando com juros de dívidas impagáveis, contraídas geralmente de forma fraudulenta.

 

A Doutrina Obama logrou alcançar um nível de sofisticação na política exterior impossível para a estreita visão de George W. Bush e do atual candidato republicano Mitt Romney. É uma tentativa decidida, porém limitada, em conter a tendência decrescente do poder estadunidense nas relações internacionais. O tom pretensioso das declarações de Barack Obama e dos chefes de Estado europeus em relação à necessidade de “democracia” e fim do regime do Baath na Síria contrasta com o ambiente de incertezas e de instabilidade econômica e social que vivem suas próprias “democracias”. O poder de decisão das potências imperialistas é constrangido, cada vez mais, pelas contradições de seu próprio sistema de reprodução material. O imperialismo luta para sobreviver. A sobrevivência é sempre mais violenta do que a vida.

 

Pedro Otoni é cientista político, membro do Cedebras e do Conselho Editorial da Revista Bandung. É militante das Brigadas Populares.

Contato: pedrootoni(0)gmail.com

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Última atualização em Sábado, 13 de Outubro de 2012
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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