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20 anos do Carandiru mobiliza população pelo fim da tortura e dos massacres Imprimir E-mail
Escrito por Raphael Sanz, da Redação   
Sexta, 05 de Outubro de 2012
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Na última terça-feira, na tarde do dia 2 de outubro de 2012, foi realizado na Praça da Sé, centro de São Paulo, um ato público em memória aos 20 anos do massacre do Carandiru, permeado por conversas, exposição de idéias e projetos nas escadarias da Catedral. Na sequência, o ato saiu em marcha até a secretaria de Segurança Pública de São Paulo, na rua Libero Badaró, onde terminou às 18 horas.

 

Exatas duas décadas antes da manifestação, policiais militares invadiam a então Casa de Detenção de São Paulo, hoje um parque, vizinho à estação de metrô Carandiru, e, sob o pretexto de controlar uma rebelião, dirigiram-se ao pavilhão 9 do antigo presídio e executaram pelo menos 111 presos. O episódio, ocorrido em 1992, ficou conhecido como o Massacre do Carandiru e figura entre um dos acontecimentos mais vergonhosos de desrespeito aos direitos humanos na história recente do Brasil.

 

“Este não foi o primeiro e nem o último massacre na nossa história. Queremos com esse ato estabelecer um diálogo entre todo o histórico de massacres e genocídio, utilizando como gancho o aniversário do Carandiru,” afirmou Talita, 26, da Rede 2 de Outubro, uma união de diferentes movimentos e organizações que se juntaram há um ano para organizar este evento. Talita ainda protesta contra a aceitação deste massacre, em especial pela sociedade paulistana. “Ao invés de responsabilizarem os executores dessa matança, o governo do estado acabou premiando estes assassinos. Veja o exemplo do coronel Madia,” disse.

 

O Coronel Salvador Modesto Madia foi um dos participantes do massacre do Carandiru e estava no grupo que subiu ao segundo andar do pavilhão, sendo responsável pela morte de 78 dos 111 assassinatos protocolados. Até hoje, Madia nunca foi julgado, pelo contrário, recebeu uma espécie de condecoração do governador Geraldo Alckmin em novembro de 2011, sendo nomeado o novo comandante da Rota (Rondas Ostensivas Tobias Aguiar), que hoje conta com 820 PMs.

 

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Além dele, o comandante da operação, o coronel Ubiratan Guimarães, até chegou a ser condenado em 2001, responsabilizado por 102 das mortes, mas, no ano seguinte, durante o período em que estava tramitando seu recurso, se elegeu deputado estadual por São Paulo sob a irônica legenda “14.111”. Em fevereiro de 2006, o policial seria absolvido para, em setembro, morrer baleado em seu próprio apartamento nos Jardins, região nobre da capital paulista.

 

Organizações que defendem os direitos humanos ainda criticaram a falta de apoio do governo estadual no combate à tortura. “Em São Paulo, o descaso com as vítimas de tortura é enorme”, afirmou Éder, 34, da ACAT (Ação dos Cristãos pela Abolição da Tortura). O órgão de raízes cristãs pretende estar dentro das prisões diariamente, mas se vê barrado pela burocracia, má fé e inoperância do Estado. “Temos que estar todos os dias dentro da prisão, para podermos dar flagrante em situações de tortura que são denunciadas para nós, já que os presídios são os maiores focos de tortura no Brasil atualmente. A má vontade é tão grande que baixaram uma portaria que barra a entrada da ACAT e de outras organizações sérias de direitos humanos. Agora, para entrar lá, é preciso pedir autorização à diretoria do presídio para cada visita, o que dá aos infratores tempo para ‘arrumar a casa’ antes de chegarmos”, contou.

 

Éder ainda atribui essa dificuldade à “militarização desenfreada” de São Paulo, onde 30 das 31 subprefeituras estão nas mãos de militares, além das “políticas de encarceramento em massa e extermínio dissimulado, que aumentaram visivelmente após outubro de 92”, completa Talita. Para ela, o ato não terminou às 18 horas, em frente à Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, com a chamada dos nomes dos 111 mortos. A Rede 2 de Outubro promete continuar atuando para responsabilizar o Estado brasileiro pelos seus crimes e dar atendimento à população carcerária e às vítimas do Estado em geral.

 

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Outra discussão levantada foi a situação das mulheres dentro do sistema penitenciário. Para Heidi Cerneka, da Pastoral Carcerária, a mulher sofre uma situação de abandono muito maior do que o homem. Para Camila, do coletivo Anastacia Livre, da Cidade Tiradentes, extremo leste da capital, a mulher encarcerada é duplamente penalizada. “No âmbito formal, da lei, do direito e, principalmente, porque ela transgride a formalidade social de feminilidade, ou seja, deixa de ser aquela mulher delicada, prestativa, dona-de-casa, e assume um papel tido como masculino”, explica. “Muitas vezes, quando são presas, os policiais mesmo dizem que elas deveriam estar dando um exemplo melhor para os filhos. Filhos estes que também acabam penalizados pelo Estado, uma vez que, sem mãe, têm negado seu direito à infância e são invariavelmente colocados numa lógica de violência”, lamenta. Heidi concorda: “quando você prende uma mulher, desestrutura toda uma família. Quem visita o homem na cadeia? A mãe e a esposa. E quem visita a mulher? Fica a pergunta”, completou.

 

Entre os grupos presentes, também estavam as Mães de Maio, uma organização das mães que perderam seus filhos em maio de 2006, quando a polícia militar paulista cometeu uma onda de execuções na Grande São Paulo e Baixada Santista em resposta a desentendimentos até hoje mal explicados com o PCC, que por sua vez executara cerca de 40 PMs. “Por trás de um policial tem uma mãe, por trás de um bandido tem uma mãe e por trás de um cidadão comum também tem uma mãe. E são essas mães as maiores vítimas desse Estado fascista e dessa guerra sem sentido”, protestou uma das Mães de Maio, não identificada pela reportagem, durante o ato.

 

Raphael Sanz é jornalista.

Fotos: Marina D’Aquino.

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Última atualização em Sábado, 13 de Outubro de 2012
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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