Estados Unidos e a desatenção com a Ásia emergente

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A semana passada foi particularmente turbulenta ao serviço diplomático norte-americano. Um obscuro filme estadunidense, de controvertido propósito artístico, contribuiu para desencadear violentas manifestações populares em países norte-africanos e médio-orientais e, ao mesmo tempo, insuflar a campanha presidencial dos dois principais partidos.

 

Um dos protestos materializou-se na invasão de um consulado dos Estados Unidos na Líbia. Com a ocupação, quatro servidores faleceram, incluso o embaixador John Christopher Stevens. As imagens do diplomata morto evocam sem dúvida o espectro de outra tomada desgastante: o Irã em novembro de 1979, quando estudantes mantiveram 52 diplomatas norte-americanos reféns por 444 dias.

 

O evento concorreu para desgastar a campanha do presidente Jimmy Carter nas últimas semanas do pleito de 1980, de forma que segmentos do eleitorado consideraram-no fraco para permanecer à frente da Casa Branca.

 

Embora o mundo muçulmano chame de forma constante a atenção estadunidense, Obama, desde o início do mandato, tenta dedicar mais tempo a outros aliados – ou parceiros econômicos – na Ásia, especialmente Japão, Coreia do Sul, China e Índia. Não se pode esquecer de que é a região de maior crescimento econômico do globo, malgrado a crise persistente.

 

A intenção era ajustar a definição das prioridades da política externa: em vez de concentrá-las diuturnamente no terrorismo, como havia sido feito pelo antecessor, ajustá-las para descortinar oportunidades comerciais também, tendo em vista que o baque econômico acabava de começar.

 

Em poucos dias, ele circulou por vários países daquele continente no final do primeiro ano de mandato. Com o Japão, o presidente buscou eliminar as reservas do novo governo, liderado por Yukio Hatoyama, do Partido Democrático.

 

Ao assumir, o primeiro-ministro nipônico destacou a vontade de fortalecer a atuação política do país na própria Ásia. Assim, isso significaria alterar o relacionamento de Tóquio com Washington. Se, por um lado, o Japão poderia ampliar o auxílio financeiro ao Afeganistão e Paquistão, por outro, clamaria a retirada de tropas dos Estados Unidos do arquipélago de Oquinaua, algo que não seria obtido, e a contenção do programa nuclear da Coreia do Norte. Os dois dirigentes não conseguiram chegar a um bom termo concernente às reivindicações japonesas.

 

Naquela viagem, Obama apresentou a si mesmo como um homem de estirpe ‘pacífica’, esclareça-se, por ser havaiano de nascimento e ter residido por vários anos em solo indonésio, por causa da nacionalidade do padrasto. Destarte, ele mesmo simbolizaria a vontade de convivência cultural – e por que não de união econômica – entre os dois continentes separados pelo oceano Pacífico.

 

No mesmo deslocamento, encontrou-se com o presidente da Coreia do Sul, com o objetivo de reforçar o contato econômico, via acordo de livre comércio negociado pelo predecessor republicano. No lado americano, caberia ao Executivo convencer sua própria base senatorial de que a proposta não desencadearia perdas de emprego internamente.

 

No coreano, não se desejava incluir o setor automotivo. À medida que o tempo passasse, menor seria o interesse da Coreia na implementação do acordo, vez que entendimentos similares eram costurados com a União Européia e Índia. Apesar disso, o projeto seria aprovado nos Estados Unidos em outubro de 2011 e na Coreia no mês seguinte. Sua validade seria a partir de março do presente ano.

 

Contudo, o principal ponto na pauta entre ambos era, naquela altura, a situação conturbada da Coreia do Norte, em vista do programa nuclear bélico. O presidente Obama buscou tratar do tema de maneira genérica, sem singularizar aquele país, dado que medidas punitivas aplicadas a Pionguiangue poderiam estender-se a Teerã. O objetivo era interromper o progresso naquele campo militar de todos os países avaliados como renegados.

 

Com a China – a par da proximidade comercial intensa, ainda que problemática, em face do câmbio artificialmente desvalorizado – interessava a Obama enfatizar o papel estratégico dela na estabilidade da região. Portou-se ele de modo atencioso, ao afirmar que os dois grandes países balizariam a política internacional lá.

 

No retorno a casa, Obama avistou-se com o primeiro-ministro da Índia, Manmohan Singh, cioso em renovar os vínculos especiais de Nova Déli com Washington. Em 2005, a Casa Branca havia legitimado a política nuclear indiana. Isso geraria um precedente temerário, haja vista a possibilidade de posterior aceitação norte-americana de programas inicialmente desautorizados pela comunidade internacional.

 

Enquanto candidato, Obama havia criticado a Segunda Guerra do Golfo, desnecessária no tocante à obtenção de fontes energéticas renováveis ou ao combate ao terrorismo. Em sua visão, a atenção deveria voltar-se para o Afeganistão, centro de grupos fundamentalistas de feitio antiamericano.

 

Com isso, o Paquistão, em função da fronteira porosa, atrairia os Estados Unidos e tornaria a Índia secundária na Ásia, por causa exatamente de sua maior estabilidade política – a maior democracia formal do planeta. Três anos mais tarde, a meta de Barack Obama relativamente àqueles países não logrou êxito.

 

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Virgílio Arraes é doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da mesma instituição.

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