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Escrito por Gilvan Rocha   
Segunda, 27 de Agosto de 2012
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A cada dia que se passa nessa nossa longa caminhada socialista, ficamos mais e mais convencidos de que Leon Trotsky era dotado de uma estatura intelectual bem maior do que a atribuída a Vladimir Lênin. Como temos colocado, em outras ocasiões, existiram dois Trotsky. O primeiro vai do início de sua militância até 1917, quando se mostrou um grande militante marxista e nessa condição teceu, em seu livro “A Nossa Tarefa Política”, de 1904, ferrenhas críticas à concepção de partido formulada por Vladimir Lênin em sua obra “O que fazer?”, móvel de um “racha” no Partido Operário Social-Democrata Russo – isso em 1903, entre duas vertentes, os mencheviques e os bolcheviques.

 

Os primeiros, os mencheviques, refutavam com veemência o argumento leninista de que se haveria de organizar um partido ultra-centralizado, de caráter paramilitar, formado por militantes especialistas na arte de conspirar. Esse modelo partidário tinha uma forte feição blanquista, ou seja, a concepção de que um bando de heróis, especializado e bem treinado, haveria de promover a libertação das massas trabalhadoras.

 

Essa concepção leninista mereceu duras e veementes críticas de marxistas do quilate de Rosa Luxemburgo, Pavel Axerold, Julio Martov, Plekhànov e, sobretudo, Leon Trotsky, que acusava tal modelo do pecado do substituísmo, ou seja, a concepção de que um bando de abnegados haveria de substituir as massas trabalhadoras no assalto ao poder e, portanto, haveria de produzir, na melhor das hipóteses, uma massa tutelada e nunca livre, uma vez que a obra de libertação dos trabalhadores só poderá ser obra dos próprios trabalhadores, como tão bem nos ensinaram Karl Marx e Friedrich Engels.

 

Vladimir Lênin chegou a declarar que as críticas que se faziam à sua proposta de partido eram procedentes, porém, no caso específico da Rússia czarista, autocrática, seria o único meio de levar avante, com êxito, o processo político a caminho do socialismo. Nessa condição, e em sendo verdade, o modelo leninista de partido jamais poderia ter caráter universal, jamais poderia transformar-se em princípio, como veio a ocorrer, para desgraça nossa.

 

Aconteceu que, com a Revolução de Fevereiro de 1917, Lênin aderiu à tese trotskista da Revolução Permanente em suas Teses de Abril e, por sua vez, lastimavelmente, Leon Trotsky deu as costas ao passado e aderiu de malas e bagagens ao bolchevismo, assumindo suas poucas virtudes e seus inúmeros defeitos, cujo ponto central consistia justamente em levar à prática o substituísmo tão criticado pela velha guarda autenticamente marxista, quando diziam que o modelo bolchevique levaria o partido a substituir as massas trabalhadoras, o Comitê Central a substituir o partido e, por fim, uma figura “infalível e ungida” a substituir o Comitê Central. A história comprovou o quão de verdade existia nessa profecia formulada por muitos, destacando-se entre eles a figura de Leon Trotsky, que, convertido ao partido bolchevique, tornou-se mais bolchevique do que o próprio Lênin, renegando o seu passado, rico no domínio dos princípios do socialismo científico.

 

Ora, a vitória da Revolução Russa, de outubro, desacompanhada do avanço da Revolução Mundial, transformou-se na maior tragédia da história, como bem observou Pavel Axelrod, na medida em que o processo russo, atropelando as condições objetivas, redundou na implantação do stalinismo, e esse stalinismo, sob o carimbo do marxismo-leninismo, tornou-se universal. O que era específico e transitório transformou-se em “princípio” ordeiramente seguido pelos inúmeros partidos comunistas espalhados pelo mundo sempre atentos ao que disseram Lênin e Trotsky quando afirmaram que a Terceira Internacional seria o bolchevismo em escala mundial.

 

Daí resultou que o velho socialismo científico foi colocado de lado e em seu lugar prosperou o dogmatismo, cuja premissa mais nefasta foi a substituição do princípio da luta de classes pela postulação de uma presumida contradição central entre nações opressoras versus nações oprimidas.

 

Os descaminhos da Revolução Russa, a nosso ver, precisavam ser denunciados e expostos como uma tragédia que se abateu sobre a humanidade. Pretendemos que dois militantes marxistas tinham prestígio e estatura moral e intelectual para promover esse trabalho de vital importância, que seria uma análise abalizada da Revolução Russa. Esse dois marxistas seriam Rosa Luxemburgo e Leon Trotsky. Rosa Luxemburgo chegou a escrever, em dezembro de 1918, poucos meses antes de seu assassinato, um ensaio sobre o processo russo, onde não poupou veementes críticas aos bolcheviques, assinalando os perigosos desvios políticos que vinham acontecendo.

 

Mas ela, como já dissemos, foi assassinada e, portanto, impedida de ver os passos criminosos que esse processo passou a seguir, sob a batuta, num primeiro momento, de Lênin e Trotsky e, posteriormente, assumindo maior nível de degradação em decorrência do jogo de conspirações praticado pelos velhos quadros bolcheviques, após a morte de Lênin, para culminar com a degradação total, através da consolidação do stalinismo, sob a liderança da sinistra figura de Joseph Stalin.

 

A segunda figura que poderia proceder a uma análise e consequente denúncia daquele processo era Leon Trotsky, caso ele tivesse tomado a iniciativa de promover uma profunda autocrítica, resgatar o seu passado anterior a 1917, declarando, peremptoriamente, que o substituísmo que ele tanto denunciara consolidou-se na URSS e ali nunca houve um Estado Operário, caso se entenda por Estado o poder político, pois o exercício do poder político deu-se, tão somente, pelo Partido Bolchevique. Deixou, portanto, de caminhar pela trilha da verdade histórica e aplicou todas as suas forças e todo o seu talento para tentar provar que havia sido leninista desde seus primórdios, e essa era uma colocação completamente falsa, e sob essa e outras falsidades históricas foi erigida uma facção política que entrou para a história como corrente trotskista. Durante os seus tantos anos de existência, essa corrente esteve ausente, enquanto força, dos processos históricos mais significativos, como foram a Guerra Civil na Espanha, a Guerra Civil na Grécia, a Revolução na China, a Revolução Cubana e em tantos e quantos lugares onde a leva revolucionária se fez presente.

 

É evidente que reconhecemos na figura de Leon Trotsky um personagem devotado e obstinado cujo brilho foi ofuscado pela sua adesão ao bolchevismo. É evidente também que o temos na conta de um dos mais perseguidos militantes, perseguição que não poupou sua família e culminou por cometer o seu assassinato. O seu martírio, entretanto, não pode servir de blindagem para impedir que teçamos a nossa avaliação crítica. Isso é bom que se diga.

 

Na ausência de Rosa e Leon Trotsky, não floresceu nenhuma figura à altura da tarefa histórica de promover uma análise bem fundamentada do processo soviético e da Terceira Internacional. As obras que surgiram tiveram caráter de apologia e se prestaram à falsificação da verdade para converter a URSS na “pátria mãe” do socialismo, a quem devíamos servir com todo empenho, mesmo que isso implicasse, como implicou, no sacrifício da revolução mundial, cujo resultado final e desastroso está colocado nesse quadro atual de quase absoluta derrota do movimento socialista e da mais ampla hegemonia política do imperialismo.

 

Quando não eram obras que teciam apologias e cultos, a direita se ocupava em distorcer a verdade, procurando apresentar uma dicotomia política: comunismo versus democracia, como forma de afastar as pessoas do caminho do socialismo. Alguns historiadores, assumindo uma pretensa isenção, como é o caso do historiador inglês E. H. Carr, não trazem nenhum contributo que se preste a nos desfazermos do cipoal de mentiras que tanto o imperialismo quanto os burocratas ditos marxistas-leninistas nos impuseram.

 

A tarefa fundamental que pode ter hoje um verdadeiro socialista é tentar desvencilhar-se da dura herança do stalinismo que gozou e goza de hegemonia nesses últimos noventa anos de história. A tarefa maior não é cultuar o martírio de tantos revolucionários que se opuseram à marcha assassina do stalinismo. A grande tarefa é restabelecer os princípios do socialismo científico, é nos dotar de uma teoria realmente revolucionária, depurada dos vícios e descaminhos que nos foram colocados.

 

O expurgo anti-stalinista é urgente e necessário, porém, é incorreto restringirmos o stalinismo à figura de Josef Stalin, sem compreender que, já em 1921, por ocasião do X Congresso do Partido Comunista Russo, foram postas as bases necessárias para que sobre elas se construíssem os elementos da contrarrevolução que, para desgraça da humanidade, envergou a fantasia de um pretenso marxismo-leninismo ou mesmo do marxismo-leninismo-trotskismo.

 

Uma determinada companheira socialista, diante das posições que temos assumido em relação à Revolução Russa e, por conseguinte, sobre as figuras de Leon Trotsky e Vladimir Lênin, nos fez uma observação. Disse ela, não obstante o acerto de grande parte do discurso feito sobre o tema, que não é correto elegermos o trotskismo como inimigo principal. A essa colocação, empenhamo-nos em lembrar que o inimigo principal do projeto socialista é a ausência ou a distorção de sua teoria, distorção essa promovida pelo stalinismo em suas mais diversas versões, dentre elas a versão trotskista que tanto contribuiu, e contribui, para uma visão errônea do quadro histórico. Sobretudo quando Trotsky esquivou-se de denunciar o substituísmo e passou a considerar os países onde houvera revoluções sociais como Estados Operários – quando, na verdade, não passavam de Estados policiais sob o poder de partidos comunistas, que exerciam sobre as massas populares a sua tutela, a ferro e fogo, como bem ilustra o episódio do massacre de Kronstadt, que teve como verdugo o próprio Leon Trotsky.

 

É claro que não devemos eleger os trotskistas, os “comunistas” devotos de um credo, como inimigos, assim como não devemos excluir os devotos cristãos por não comungar inteiramente com nossas postulações teóricas. Aos que, de boa fé, persistem no equívoco, merecem de nós toda atenção e todo empenho no sentido de despi-los de suas ilusões e fantasias e fazê-los perceber a verdade histórica, e ela se disporá a derrubar mitos e mentiras, embora isso possa ter para muitos um gosto amargo.

 

Gilvan Rocha é militante socialista e membro do Centro de Atividades e Estudos Políticos.

Blog: www.gilvanrocha.blogspot.com

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Última atualização em Quarta, 29 de Agosto de 2012
 

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