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Como ganhar mais medalhas? Imprimir E-mail
Escrito por Paulo Metri   
Quarta, 15 de Agosto de 2012
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Estamos em época de discussão acalorada sobre o desempenho do Brasil nas Olimpíadas e o que fazer, nas próximas, para ganhar mais medalhas. Sugere-se que as empresas financiem mais o esporte, melhoria da política governamental, maior incentivo à prática de esportes em escolas e até renúncia fiscal para entidades promotoras de esportes. Todas estas opiniões fazem nexo, mas fica a pergunta: o que é o principal? Ou seja, quais são os fatores que mais acarretam a conquista de medalhas?

 

Para responder à pergunta-título, é necessário fazer uma investigação completa. Por isso, lanço a seguir uma proposta de conjunto de fatores geradores de medalhas. Não sou especialista em esportes, mas, com todo respeito, não preciso ser um para poder opinar. Os especialistas não emitem, necessariamente, as melhores opiniões para explicar o porquê de um país não ganhar tantas medalhas. Também não tenho a pretensão de que o conjunto de fatores gerados por mim forme um todo acabado e definitivo.

 

O nascimento de um ser humano em determinado país com as características ideais para ser um esportista, como a constituição biológica, a resistência ao treinamento e o seu crescimento saudável até transformar-se em um atleta, é um evento aleatório. No entanto, a frequência de ocorrência deste evento pode ser explicada por alguns fatores. Certamente, dependerá do tamanho do universo de onde brotarão os eventos aleatórios, donde se conclui que a população existente no país é um fator relevante. É claro que influencia, também para a conquista de medalhas, o PIB do país, uma vez que quanto maior o PIB maior será o orçamento governamental para educação, saúde e esporte. Maior serão também as receitas das empresas, o que significa maior capacidade de financiamento esportivo.

 

Desde antes do nascimento até completar sua fase de crescimento, o potencial medalhista olímpico precisa receber todos os cuidados médicos e alimentares, que o permitam ter uma saúde perfeita. Um desperdício para o país é a aleatoriedade de colocar o nascimento de um potencial atleta em seu chão e, logo depois, o recém-nascido constar das estatísticas de mortalidade infantil ou subnutrição. Neste momento, não estou me atendo ao choque que é a morte ou a subnutrição de qualquer ser da nossa espécie só a potenciais atletas. Assim, o índice de desenvolvimento humano (IDH) e o índice de Gini do país também são relevantes para explicar o número de possíveis atletas e medalhistas olímpicos.

 

Usarei o índice de Gini para ajudar a explicar o fenômeno caracterizado pelo aparecimento de um atleta olímpico, porque este índice mede a distribuição de renda e mostra a eventual desigualdade existente no país, que pode existir graças à participação de miseráveis na população. Quanto menor o índice de Gini, melhor a alimentação do povo, maior o acesso à educação e cultura, melhor a prática de esportes e, como conseqüência, maior a chance de aparecerem atletas. Do conjunto dos miseráveis, nunca surge um atleta olímpico. O IDH é composto de alguns subíndices com relação direta com o número de medalhas conquistadas, mas outros sem nenhuma relação direta.

 

Continuando, incentivos governamentais ao esporte, investimentos estatais e privados, a valorização do esporte na sociedade, pesquisas e desenvolvimentos tecnológicos voltados para o esporte, o desenvolvimento de treinadores com fundamentos científicos, dedicação dos atletas, o orgulho pátrio do atleta a aumentar sua motivação podem também ser considerados como influências para decisões olímpicas. Por outro lado, não existem dados de todos os países para as novas variáveis independentes e, por isso, não foram utilizadas, significando que o modelo desenvolvido é o possível e não o ideal.

 

A estatística possui a ferramenta chamada “análise de regressão”, que serve para avaliar a importância de cada causa na ocorrência de um acontecimento. Assim, ela serve para identificar os fatores explicativos de “como ganhar medalhas em Olimpíadas”. Para a aplicação da análise de regressão, neste caso, foi tomada a Olimpíada de 2008 em Pequim e foram utilizados dados de 139 países. Alguns países com menos de 700.000 habitantes, sobre os quais houve enorme dificuldade para obtenção de informações, foram abandonados. Eles possuíam quatro medalhas do total das 958 entregues aos vencedores em Pequim. Não é usado o resultado da atual Olimpíada, de Londres, porque não existem os valores dos demais dados necessários, visto que o ano de 2012 ainda não acabou.

 

Foram utilizados como variáveis explicativas ou independentes a população, o PIB, levantado com o uso da paridade do poder de compra, e o índice de Gini. Obviamente, a variável dependente foi o número de medalhas conseguidas. Não foi dado valor aos diferentes tipos de medalhas e, desta forma, as de ouro, de prata e de bronze foram somadas indistintamente. Mas se quiserem refazer este estudo dando valor diferenciado para elas, é possível. Várias dificuldades encontradas no levantamento dos dados não vão ser aqui descritas para não cansar o leitor, restando somente informar que os índices de Gini, que deveriam ser do ano de 2008, como são os demais dados, foram obtidos de diversas épocas, porque os países não o calculam anualmente.

 

O coeficiente de correlação obtido foi de 0,854, significando que as variáveis escolhidas bem explicaram o número de medalhas ganhas. Reluto em colocar aqui a equação de regressão, pois muitos leitores se sentirão agredidos com tamanha rigidez algébrica. Mas, para satisfazer os amantes de estatística, obtive:

 

Medalhas = 0,00901 x PIB (em US$ bilhão) – 0,00042 x População (em milhão de habitantes) – 0,25993 x Índice Gini (entre 0 e 100) + 12,75445

 

Salvo melhor interpretação desta aplicação de regressão estatística, o alto índice de Gini do Brasil (51,9), que reflete a má distribuição de renda do país, influi para que seja tão baixo o número de medalhas do país. Medidas para melhorar a política de esportes e muitas outras, que se ouvem nos dias atuais, certamente devem ser tomadas. Mas não desprezem a melhoria do índice de Gini, que traz não só o benefício de mais medalhas, como também uma sociedade menos injusta e, com isso, mais apaziguada.

 

Para concluir, lembro que a melhoria do índice de Gini de um país só repercute em aumento do número de medalhas depois que os recém-nascidos já submetidos ao melhor tratamento (pois seus pais e eles próprios saíram da condição de miseráveis) estejam crescidos. As crianças nascidas no passado sob carências extremas estão mortas para o esporte. Assim, os novos, de maior sorte, só vão aparecer eventualmente como grandes esportistas, no mínimo, após completarem 16 anos de idade.

 

Assim, nas Olimpíadas de 2024, os esforços dos presidentes Lula e Dilma, que em seus mandatos tiraram contingentes de brasileiros da miséria e, com isso, melhoraram o índice de Gini, vão ser notados. Certamente, o Brasil ganhará mais medalhas no referido ano por diversos fatores, inclusive este.

 

Paulo Metri é conselheiro da Federação Brasileira de Associações de Engenheiros e do Clube de Engenharia.

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Última atualização em Sexta, 17 de Agosto de 2012
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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