Limpeza étnica em Mianmar: o Ocidente finge que não vê

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Mianmar foi visitada por Hillary Clinton, que voltou entusiasmada com as reformas democráticas e liberais que o governo de lá estaria promovendo.

 

Também eufórico, Obama decretou o fim da proibição de as empresas americanas investirem naquele país, sanção que fora aplicada por se tratar de uma ditadura violenta.

 

E Hillary apressou-se em proclamar: “hoje podemos aconselhar os empresários americanos: invistam na Birmânia (antigo nome de Mianmar).

 

Na Europa, essa mesma reação de contentamento espalhou-se pelas principais potências. Afinal, era uma ovelha negra que estava voltando ao aprisco da democracia.

 

Antiga possessão inglesa, a Birmânia teve um governo constitucional depois de conseguir sua independência em 1948. Não demorou muito e, em 1962, os militares tomaram o poder, liderados pelo general Ne Win.

 

Entre 1962 e 1974, todos os setores da sociedade (negócios, imprensa, produção) foram nacionalizados, sendo o país governado ditatorialmente por uma junta militar chefiada por Ne Win.

 

Os militares continuaram detendo o poder absoluto até 1990, quando, já rebatizado com o nome de Mianmar, o país realizou as primeiras eleições livres em quase 30 anos. A oposição, a Liga Nacional Pela Democracia, ganhou 80% dos postos no parlamento. Mas não chegou a festejar. A Junta Militar declarou ilegal o partido vencedor e continuou dando as cartas em Mianmar.

 

Finalmente, em 1º de abril de 2010, novas eleições livres. Inesperadamente, a proscrita Liga Nacional Pela Democracia foi autorizada a competir e ganhou 43 dos 45 cargos parlamentares em disputa.

 

Em termos práticos não significava muito, pois os cargos disputados representavam uma pequena fração do total de deputados. Mas já era promissor.

 

Em seguida, vieram uma série de reformas, como a anistia de 200 prisioneiros políticos, novas leis trabalhistas que permitem greves e suavização da censura.

 

Ao mesmo tempo, iniciaram-se as privatizações e a abertura econômica do Estado. Foi quando o Ocidente notou Mianmar e saudou este país de 55 milhões de habitantes e grandes recursos naturais, que saía do isolamento. E abria sua sociedade para a democracia e, principalmente, seus mercados para os capitais estrangeiros.

 

No entanto, os benefícios das reformas não chegaram aos Rohingyas. Eles são uma etnia muçulmana minoritária numa população largamente budista. A sociedade de Mianmar, de um modo geral, os despreza; os preconceitos estão profundamente arraigados contra eles, que são chamados pejorativamente de “Kalar”.

 

No estado de Arakan, segundo a Anistia Internacional, vinham, desde 1978, sofrendo discriminações e violações dos seus direitos humanos, as quais resultaram na fuga de muitos para o vizinho Bangladesh.

Somente em 1978, foram 200 mil expulsos pela chamada “Operação Rei Dragão” do exército de Mianmar, que consistiu em assassinatos, estupros e destruição de mesquitas da etnia odiada.

 

Os Rohingyas que permaneceram tiveram sua liberdade de movimentação severamente restringida e a maioria deles não conseguiram cidadania. Com isso, viram-se sujeitos a vários tipos de extorsão e de taxas arbitrárias; confisco de terras e destruição de casas.

 

Entre 1991 e 1992, uma nova onda de 250 mil Rohingyas deslocou-se para Bangladesh, informa ainda a Anistia Internacional. Eles vinham sendo obrigados a trabalhar para o exército sem receber pagamento em projetos econômicos e de infra-estrutura, sob as mais ásperas condições.

 

As novas idéias democráticas e liberais não mudaram em nada a vida dos Rohingyas de Mianmar. Na verdade, sua situação se agravou. E muito.

 

No estado de Arakan, uma briga em que dois budistas foram mortos por muçulmanos enfureceu a população da religião das vítimas.

 

Bandos invadiram quarteirões habitados por muçulmanos Rohingyas, destruindo, saqueando e matando, açulados por uma mídia sensacionalista anti-islâmica.

 

Os muçulmanos, por sua vez, reagiram, atacando os budistas com a mesma violência. E assim conflitos selvagens incendiaram o estado. O governo interveio teoricamente para preservar a ordem. Mas não foi bem assim.

 

Diz Brad Adams, diretor da Human Rights Watch na Ásia: “O governo proclama que está empenhado em acabar com os conflitos e violências étnicas, mas recentes eventos no estado de Arakan mostram que as perseguições e discriminações patrocinadas pelo Estado continuam”.

 

As vítimas das violações do governo são os Rohingyas. No norte de Arakan, o exército, a polícia, guardas de fronteira e paramilitares cometeram assassinatos, prisões em massa e outras violências contra essa minoria muçulmana.

 

Eles atuaram em conjunto com residentes não-muçulmanos da região para saquear valores e estoques de alimentos de lares Rohingyas.

 

Os soldados atiraram contra uma multidão de camponeses dessa etnia quando tentavam escapar da violência, matando e ferindo muitos.

 

Além disso, forças de segurança prenderam centenas de homens e meninos da etnia perseguida, os quais permanecem incomunicáveis.

 

Quando as violências se intensificaram, a ONU retirou a maioria dos seus funcionários estrangeiros que prestavam serviços nos locais de conflito. No entanto, muitos permaneceram, embora correndo grandes riscos.

 

Como explicou um diplomata que participava de negociações com o governo: “A realidade é que a maioria das pessoas que necessitavam de ajuda eram Rohingyas, que constitui uma minoria odiada no estado. Qualquer ajuda da agência (da ONU) a elas provocaria hostilidades no local”.

 

Mesmo assim, uma agência da ONU, o “Programa Mundial de Alimentos”, atualmente fornece alimentação a mais de 90 mil pessoas que tiveram seus lares incendiados.

 

Depois de, num primeiro momento, garantir sua imparcialidade na contenção dos conflitos, o governo acabou por se desmascarar.

 

O presidente Thei Sein afirmou: “Nós nos responsabilizaremos por nossa população étnica, mas é impossível aceitar os Rohingyas que entraram ilegalmente, que não pertencem a nossa etnia”. Portanto, ele quer livrar o país da presença dessa gente.

 

Deixou isso bem claro quando afirmou que as opções seriam a expulsão dos Rohingyas de Mianmar ou que a ONU se encarregasse de cuidar deles. Embora sendo uma minoria, os Rohingyas habitam Mianmar desde os tempos da colônia.

 

É uma raça proveniente da fusão de muçulmanos que vivem na região desde o século 14 com bengalis, trazidos pela Inglaterra, no século 19, para cultivar a província de Arakan, pouco povoada. Portanto não podem ser tratados como estrangeiros indesejáveis num país que é também deles.

 

As propostas do presidente de Mianmar foram rejeitadas por John Packer, diretor do Centro de Direitos Humanos da Universidade de Essex: “Isso é simplesmente inaceitável, e exige uma reação inequívoca pois pressagia coisas negativas para as relações inter-étnicas, a paz e a estabilidade em Mianmar”.

 

Centenas de milhares de pessoas de uma minoria massacrada por multidões enfurecidas; polícia e exército torturando, matando e saqueando; governo apoiando e concluindo pela expulsão dessa minoria.

 

Está muito claro que existe um processo de limpeza étnica em Mianmar. Algo semelhante ao que aconteceu na Alemanha e, mais recentemente, na Bósnia.

 

Só que o Ocidente, e os EUA em particular, que foram implacáveis na condenação dos chefes nazistas e dos racistas sérvios, preferem olhar para as riquezas potenciais inexploradas de Mianmar. Para seu mercado de 55 milhões de consumidores. Para sua economia quase virgem, onde há espaços abertos para investimentos de toda a ordem.

 

É o que pensa Bread Adams, da Human Rights Watch, quando afirma: “Se as atrocidades em Arakan tivessem acontecido antes que as reformas do governo começassem, a reação internacional teria sido rápida e forte. Mas a comunidade internacional parece cega pela romântica narrativa da mudança profunda da Birmânia, acenando com novos negócios e anulando sanções mesmo onde as violências continuam”.

 

Luiz Eça é jornalista.

Website: Olhar o Mundo.

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