Brasil e Paraguai

 

Fernando Lugo foi deposto, em um vapt-vupt, menos de 24 horas!, pelo parlamento conservador paraguaio, sem que o governo de Dilma Rousseff interpusesse qualquer oposição, como a realizada pela administração Lula da Silva, quando do golpe hondurenho, em 2009, contra Manuel Zelaya. E, se a oposição ao golpe em Honduras era dificultada pela distância daquele país do Brasil, as proximidades geográfica, política, econômica e social do Paraguai permitiam ao governo brasileiro garantir sobrevida ao governo constitucional ameaçado, até que a mobilização popular em curso revertesse a aventura golpista. Entretanto, nada foi feito.

 

O golpe no Paraguai deu-se sob os auspícios do governo Obama, que segue cumprindo a promessa de superar o abandono da América Latina pelas administrações de Bush, empantanadas no Iraque e no Afeganistão. A deposição de Fernando Lugo foi uma rasteira certa na proposta de integração latinoamericana, da qual o Brasil é o principal promotor e favorecido. Os USA antipatizam com o Mercosul, com a União Europeia etc., preferindo as discussões bilaterais, olho no olho, nas quais os grandalhões convencem facilmente os pequeninos.

 

Com Fernando Lugo, perdeu um governo progressista que falava muito e concedia nada, à imagem e semelhança do petismo brasileiro, em seus melhores momentos. A desculpa do luguismo para tamanha inatividade social era o parlamento de direita que, alinhado aos USA, não reconhecia a China, mantinha relações estreitas com Israel, cedia base militar aos estadunidenses e, sobretudo, vetava o ingresso da Venezuela ao Mercosul, união comercial em clara perda de dinamismo.

 

Ao contrário de Lula da Silva, em Honduras, Dilma Rousseff apoiou a deserção do ex-bispo mulherengo, que saiu de modo ainda mais apressado e inglório do que o de João Goulart, em abril de 1964. Afirma-se que se tratou de mais um passo da indiscutível aproximação de seu governo ao dos USA, já expressa no distanciamento do Irã, da Líbia, da Síria; na nomeação de Antônio Patriota, para ministro das relações exteriores, conhecido filo-estadunidense.

 

Por além das aparências, subsiste a alma profunda dos negócios. Lula da Silva resistiu à deposição de Manuel Zelaya também porque aquele país era destino privilegiado, ainda que pequeno, das exportações manufaturadas do Brasil. Tentou inutilmente impedir a entrada do raposão em galinheiro que pensava seu. Por sua vez, Dilma Rousseff apoiou a entrega imediata do poder por Fernando Lugo e promoveu, com ainda maior rapidez, a suspensão provisória do Paraguai no Mercosul e a introdução da Venezuela como quinto membro daquele organismo, em ação igualmente prenhe de consequências econômicas.

 

Com as informações de que dispomos, é ainda difícil saber a sequência exata das decisões. Teria, desde o primeiro momento, prevalecido o princípio de que valia menos um Fernando Lugo, em fim de mandato, do que uma Venezuela no Mercosul, para sempre? Teria se tratado de um apoio preventivo dilmista aos brasiguaios, parte do agronegócio nacional, locomotiva atual das exportações brasileiras, associado a empurrão nos segmentos industrialistas, em processo de desindustrialização tendencial? A Venezuela, país produtor de energia, é forte importador de manufaturados. Maná dos céus, portanto, para a indústria brasileira e argentina. Seu ingresso no Mercosul torna a aliança regional mais atrativa para os países que se encontram fora dela. Ou apenas se fez da “necessidade, virtude”, respondendo a rasteira com poderoso rabo-de-arraia.

 

Trata-se, em todo caso, de uma aposta perigosa. Os USA avançam a Aliança do Pacífico, entre o Chile, Peru, Colômbia, México, claramente em oposição ao Brasil, que aproxima a Venezuela e fortalece o Mercosul, enquanto vê afastar-se o Paraguai, nação estratégica de sua fronteira mais candente, da qual depende parte do fornecimento de sua energia elétrica.

 

Sobretudo, permite que o Império golpeie com sucesso o governo progressista latinoamericano mais frágil, precisamente quando vivia verdadeiro sufoco social, devido ao massacre de trabalhadores sem terra, sua principal base de apoio. Fortalece, portanto, a ameaça aos governos boliviano, equatoriano, venezuelano e, até mesmo, argentino. E o boi, como se diz aqui no Rio Grande do Sul, se come aos pedaços!

 

Mário Maestri é historiador e professor do Curso e do Programa de Pós-Graduação em História da UPF, RS.

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