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Doente ou diferente? O crack social Imprimir E-mail
Escrito por Paulo Silveira   
Sexta, 20 de Julho de 2012
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A porta da verdade estava aberta,

mas só deixava passar

meia pessoa de cada vez

Assim não era possível atingir toda a verdade,

porque a meia pessoa que entrava

só trazia o perfil de meia verdade.

E sua segunda metade

Voltava igualmente com meio perfil.

E os meios perfis não coincidiam.

Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.

Chegaram ao lugar luminoso

onde a verdade esplendia seus fogos.

Era dividida em metades

diferentes uma da outra.

Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.

Nenhuma das duas era totalmente bela.

E carecia optar. Cada um optou conforme

seu capricho, sua ilusão, sua miopia.

(Andrade, 1984)

 

Com certeza vivemos um momento especial de nossa história.

 

A conjugação de fatores como o avanço da web, com suas redes sociais, blogs, canais de comunicação, youtube etc.; a popularização da telefonia celular conjugada com equipamentos de registro de imagens e com a web nos dando mobilidade e ampliando a capacidade de comunicação para qualquer hora em qualquer lugar; a certeza cada vez mais presente em cada um de nós de que precisamos promover profundas mudanças em nossa dinâmica de vida, caminhando rapidamente para o desenvolvimento sustentável, tem provocado uma constante e ininterrupta quebra dos paradigmas que regem nosso comportamento.

 

A facilidade de comunicação tem permitido o reconhecimento da importância da diversidade cultural, evidenciando que “a linguagem produz entendimentos particulares do mundo, ou seja, significados particulares”, consolidando que as relações sociais são essencialmente políticas, não nos permitindo, portanto, estabelecer verdades que imponham padrões comportamentais a partir da determinação do certo e do errado ou o que é científico ou não, pura e simplesmente.

 

Ao levarmos em consideração que a partir do século XVII era a “ciência” quem definia a fronteira entre o certo e o errado e que através do domínio dos aparelhos ideológicos o “certo e o errado” são transformados em norma social comportamental, a importância da web conjugada com a popularização do aparelho celular dotando o cidadão da capacidade de gerar e consumir informação das mais diversas fontes fica ainda mais evidente.

 

“A educação, a filosofia, a arte, a ciência não são neutras. Elas estão sempre vinculadas a uma sociedade, às relações de produção, ao modo de produção econômica, a um sistema político.” (Moacir Gadotti)

 

É fundamental que o indivíduo ganhe o status de cidadão, condizente com o mundo onde vive/habita, instrumentalizado para interagir com o que está a sua volta, conquistando, assim, a possibilidade de exercer sua cidadania em toda sua plenitude.

 

“Você costuma sonhar?”, perguntou certa vez um repórter de TV a uma criança de uns dez anos, boia-fria, no interior de São Paulo.

“Não”, disse a criança, espantada com a pergunta.

“Eu só tenho pesadelo”.

(Paulo Freire)

 

Mas sonhar não basta. É imprescindível que nos sintamos parte ativa do processo transformador de nossa realidade, de nosso cotidiano. É a constatação de que nos é possível transformar nossos sonhos em realidade que alimentará todo o processo produtivo.

 

“É preciso sonhar, mas com a condição de crer em nosso sonho, de comparar escrupulosamente nossos sonhos com nossa realidade. Sonhos, acredite neles”.

(Lênin)

 

O surgimento do cidadão autônomo, sonhador que se sente capaz de transformar seus sonhos em realidade, é ameaçador para um sistema que sobrevive à custa da submissão, do estabelecimento de padrões comportamentais a partir de conceitos frágeis e mãos pesadas para castigarem os que ousem questioná-los.

 

Mas como fazer se a diversidade cultural evidencia que não existe uma verdade, mas verdades?

É urgente que surja um novo “deus” capaz de estabelecer verdades inquestionáveis, apresentando não mais castigos, pura e simplesmente, para os que delas discordarem, mas soluções que enquadrem os desajustados às novas ordens sociais.

 

O “deus” estabelecedor das verdades está pronto, a ciência, mas qual será sua face, se até ela mesma vem sendo cada vez mais questionada, onde cada vez mais temos a certeza que o mundo não é, parece ser, dependendo de quem o vê? (1)

 

É preciso que a face com que o “deus ciência” se apresente perante todos seja difusa, tal qual um caleidoscópio, onde a realidade se confunda com o imaginário, mas que em momento algum permita a existência da dúvida, pois é “deus”, é ciência.

 

Como resposta a tantas perguntas surge a psiquiatria, talvez de todas as ciências a mais subjetiva, pois ao mesmo tempo em que responde efetivamente a diversas perguntas que atormentam a muitos de nós com respostas rápidas, algumas quase que imediatas, tem a propriedade de atuar a partir de conceitos absolutamente subjetivos, classificados por normas sociais comportamentais/culturais.

 

O que a gente sofre mentalmente tem a ver com o que vivemos culturalmente. Sei muito bem que certos quadros psiquiátricos existem nas mais diversas culturas. Agora, a maneira como o sofrimento se organiza, como se dá a relação entre quem cuida e é cuidado, isso varia enormemente e é definitivo no curso do diagnóstico e do tratamento.”

(Jurandir Freire Costa)

 

O uso de medicamentos lhe confere sua materialidade, distinguindo-a de práticas características de outras culturas, introduzindo na relação o agente externo como interventor qualificado e autorizado pela cultura dominante, o médico psiquiatra.

 

Assim, a psiquiatria é colocada no mesmo patamar de outras ciências que exercem o controle do indivíduo, estabelecendo o certo ou errado a partir da transformação de dogmas em paradigmas científicos e introduzindo um agente moderador, o psiquiatra, entre a sociedade e o cidadão, como representante da cultura dominante, tal qual o juiz, o professor, o governante etc.

 

É nesse quadro que se coloca o Programa de Recolhimento Compulsório de Crianças e Adolescentes “SUPOSTAMENTE” usuárias de crack, que devido a diversos fatores vem sendo implantado na cidade do Rio de Janeiro por sua prefeitura e tem se multiplicado por outras cidades do Brasil, com grande repercussão na mídia, tanto no Brasil quanto no exterior.

 

Realço o “SUPOSTAMENTE” usuários de crack porque conforme pesquisa da própria prefeitura do Rio, com crianças recolhidas compulsoriamente nas ruas da cidade e internadas em espaços da mesma prefeitura (insisto, para “tratamento”), somente 19% (dezenove por cento) são usuárias de crack, sendo o restante, 81% (oitenta e um por cento), usuárias de outras drogas ou de droga psicoativa nenhuma, conforme demonstra o quadro a seguir.

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As evidências de que esse programa da prefeitura em momento algum teve a intenção de cuidar de crianças e adolescentes em situação de risco, atendendo a determinação da justiça brasileira, e conforme determina o protocolo SMAS 20 de 27.05.2012, fossem elas usuárias de drogas ou não, são muitas, diversas.

 

Tais denúncias foram insistentemente expostas por nós e por outras instituições em artigos e cartas abertas à população (ver em http://bit.ly/p6Qrtm), pela mídia em geral, através de inúmeras reportagens (ver em http://bit.ly/GVJvud), mas, infelizmente, toleradas pelos demais poderes constituintes da República, sejam o Executivo (federal, estadual ou municipal), Legislativo, Judiciário ou Ministério Público, que preferiram fechar os olhos a tudo e a todos e tornarem-se cúmplices dessa barbárie.

 

Por que será?

 

Será por que o alvo dessa barbárie são crianças NÃO brancas, miseráveis, abandonadas à própria sorte, que habitam as ruas e avenidas de nossas cidades, sujas, famintas, exploradas por setores produtivos de nossa sociedade, criando riquezas das quais não usufruem, denunciando a todos com suas simples existências a falência das políticas públicas que deveriam promover suas inclusões sociais?

 

Será que só essas crianças e adolescentes são tratadas assim, barbaramente, e nossos filhos e filhas não? Será?

 

“Quando os nazistas levaram os comunistas, eu calei-me, porque, afinal, eu não era comunista.

Quando eles prenderam os sociais-democratas, eu calei-me, porque, afinal, eu não era social-democrata.

Quando eles levaram os sindicalistas, eu não protestei, porque, afinal, eu não era sindicalista.

Quando levaram os judeus, eu não protestei, porque, afinal, eu não era judeu.

Quando eles me levaram, não havia mais quem protestasse” .

(Martin Niemöller)


Nota:

 

1) “Diante da ilusão, bastante aristocrática, do poder de percepção ilimitada do pensamento, existe outra ilusão bem plebeia, o realismo ingênuo, segundo o qual os objetos ‘são’ a pura verdade de nossos sentidos. Ilusão essa que ocupa a atividade diária dos homens e dos animais. Na origem, as ciências se interrogam deste modo, sobretudo as ciências físicas. As vitórias sobre as duas ilusões nunca se separam. Eliminar o realismo ingênuo é relativamente fácil. Russell define de forma muito característica este momento do pensamento na introdução a seu livro An inquiry into Meaning and Truth.

 

Começamos todos com o realismo ingênuo, quer dizer, com a doutrina de que os objetos são assim como parecem ser. Admitimos que a erva é verde, que a neve é fria e que as pedras são duras. Mas a física nos assegura que o verde das ervas, o frio da neve e a dureza das pedras não são o mesmo verde, o mesmo frio e a mesma dureza que conhecemos por experiência, mas algo totalmente diferente. O observador que pretende observar uma pedra, na realidade observa, se quisermos acreditar na física, as impressões das pedras sobre ele próprio. Por isso a ciência parece estar em contradição consigo mesma; quando se considera extremamente objetiva, mergulha contra a vontade na subjetividade. O realismo ingênuo conduz à física, e a física mostra, por seu lado, que este realismo ingênuo, na medida em que é consequente, é falso. Logicamente falso, portanto falso” (Einstein:1981).

 

Paulo Silveira é membro do movimento “respeito é BOM e eu gosto!”.

Website: www.reBOMeg.com.br

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Última atualização em Sexta, 20 de Julho de 2012
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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