Educação: disciplina ou liberdade

 

Um dos maiores problemas da educação apontado na obra Emílio ou da educação, de Jean-Jacques Rousseau, é a formação para uma função social sem a devida atenção à educação moral. Analogamente, o filósofo Immanuel Kant explica no livro Sobre a pedagogia que vivemos em uma época de disciplina, mas não da verdadeira moralidade.

 

Esta crítica à sociedade nos alerta sobre a importância de uma educação moral que, no contexto do iluminista alemão, significa o acesso da humanidade à maioridade. Para ele, o mau caráter surge quando se sobrepõe à educação a disciplina, em detrimento à moralidade. Por isso, seria necessário ensinar as crianças desde cedo o valor da dignidade humana e o valor dos direitos humanos.

 

Todavia, como ensinar conceitos abstratos de dever às crianças? Ora, as crianças não podem fazer a representação do dever, mas podem entender a existência de uma “lei do dever”. Em outras palavras, elas não podem agir livremente pela compreensão dos deveres universais, mas podem ser educadas moralmente segundo a formação do caráter que, para Kant, consiste em aprender a privar-se. Isso significa que as crianças podem aprender as regras morais, e observá-las inicialmente pela disciplina.

 

Não obstante, a finalidade da educação não consiste apenas em ensinar a obediência às normas, mas também em ensinar a lei que reside dentro de si. Só assim é possível a liberdade, pois somente através do fato do dever o homem tem poder para agir.

 

Contudo, não se trata de qualquer dever, mas daquele que expressa a liberdade da vontade, isto é, a não determinação da vontade pela contingência do querer. A autonomia exige a libertação da vontade das leis pragmáticas voltadas unicamente à ação desejada. Só assim podemos afirmar que, pela moralidade, somos educados para a autonomia; e, pela disciplina, para a heteronímia.

 

A educação, porém, deve ser pautada pela necessidade de educar o homem à liberdade, haja vista que sendo este um ser essencialmente racional pode coerentemente agir segundo suas inclinações pessoais sem perder o caráter universal da moral. A disciplina, portanto, é apenas um instrumento inicial; não a finalidade da educação. Caberia aqui, por fim, perguntarmos: o que está se sobrepondo à educação contemporânea, a disciplina ou a liberdade?

 

Guilherme Diniz é filósofo e frade dominicano.

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