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Dirigentes atuais da USP querem apenas respirar o ar do mercado Imprimir E-mail
Escrito por Lincoln Secco   
Sexta, 06 de Julho de 2012
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Lembro-me que quando entrou no Instituto de Estudos Avançados (IEA-USP) pela primeira vez, ele indagou: “Em quê este instituto é avançado?”. Para refletir sobre a atualidade, eu começaria parafraseando Florestan Fernandes: “em quê a USP é uma Universidade?”. Afinal, ela foi, inicialmente, um conglomerado de faculdades isoladas e pré-existentes. Cada uma delas trouxe seu prestígio e sua tradição que se traduziram em poder. Nunca houve uma união orgânica e funcional.

 

Pensada para ser formadora de uma nova elite dirigente, a USP produziu em São Paulo algo que estava previsto no seu projeto original: um salto cultural de sua elite, criando um padrão científico universitário que se espraiou pelo Brasil.

 

Todavia, ela teve efeitos contraproducentes: gerou conhecimentos e ações que transbordaram o estreito mundo de referências daquela elite política paulista (derrotada militarmente em 1932, vitoriosa cultural e politicamente no longo prazo). Não por acaso, a nossa universidade foi a mais agredida pela ditadura militar de 1º de abril de 1964. Sem olvidar, é evidente, as perseguições catastróficas em outras instituições de pesquisa e ensino.

 

Depois da ditadura, a semi-democratização promovida pelo reitor José Goldenberg causou uma reação das “grandes” faculdades que existiam antes da USP. Alguns de seus dirigentes ameaçavam retirá-las da universidade. Goldenberg não conseguiu instilar na USP a seiva republicana que provinha da sociedade civil dos anos 1980.

 

Hoje reina uma total desconexão entre as áreas da universidade devido ao seu gigantismo, massificação e especialização.

 

Os atuais dirigentes universitários, com algumas boas exceções, estão muito aquém dos seus antecessores dos anos 1980 e em certos quesitos ficam atrás até mesmo dos serviçais da ditadura.

 

O desígnio de muitos dos atuais dirigentes não é mais uma ideologia como em 1964, ainda que muitas atitudes (como expulsões de alunos) pareçam uma retomada dos velhos tempos. Eles querem apenas respirar o ar do mercado. Atrelar-se a ele, render-lhe as homenagens do dinheiro público e cultuar o Deus Mamon. Ignoram desvios éticos, malversação de recursos, depreciação do patrimônio, falta de condições materiais e humanas de estudo e pesquisa.

 

O discurso “sem ideologia” do senso comum de dirigentes tem como contrapartida o rebaixamento dos opositores. Neste caso, não se trata de rebaixamento intelectual. Ao contrário: para fugir de suas tarefas concretas alguns intelectuais críticos buscam refúgio em posições políticas incabíveis no atual ordenamento político. As exceções existem, mas sem projeto e sem amparo. Por outro lado, a justa indignação dos alunos resvala na dificuldade de operar uma transição de um antigo movimento estudantil para novas formas de organização.

 

O resultado é que a posição da USP no ranking das melhores universidades do mundo é boa, mesmo segundo os duvidosos critérios deste tipo de classificação. Poderíamos, agora, estabelecer um índice de falta de transparência. A USP ficaria em primeiro lugar. Logo em seguida viriam as universidades de Teerã e Riad.

 

 

Licoln Secco é professor do Departamento de História da USP e publicou em 2011 o livro “História do PT”, pela Ateliê Editorial.

 

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