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Qual universidade queremos? Que pesquisa faremos? A quem atenderemos? Imprimir E-mail
Escrito por Marcelo Pompêo   
Sexta, 22 de Junho de 2012
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Recentemente troquei e-mails com um primo que há muito não via, também pesquisador em universidade pública brasileira. Trabalha com drenagem urbana e me fez pensar sobre aspectos relacionados à universidade, à academia e ao meio ambiente. Particularmente sobre o papel dessa tão nobre e importante instituição e seus pesquisadores no auxílio à solução de pequenos a grandes problemas nacionais ou mesmo locais. Discutíamos acerca de restauração e revitalização.

 

Trabalho com aspectos ecológicos de represas empregadas no abastecimento público da Região Metropolitana de São Paulo e muitas delas apresentam sérios problemas no seu entorno, com reflexo na deterioração da qualidade de suas águas. Para reverter esse contínuo processo de deterioração é necessário empreender inúmeras ações nas bacias hidrográficas, como recuperar as condições sustentáveis de um rio e funções ou serviços ecossistêmicos ou mesmo dar novo sentido e vida às áreas abandonadas ou em desuso; restaurar e revitalizar são importantes conceitos empregados na direção dessas mudanças.

 

Como pesquisado, tenho interesse não só na formação de pessoas no nível técnico, mas também em formar cidadãos conscientes do papel que exercerão como pesquisadores, com uma perspectiva mais política. Na minha concepção, não basta ao pesquisador unicamente perseguir a elaboração de papers para publicá-los em revistas científicas internacionais e, cada vez mais, atender às exigências de produtividade das agências de fomento e de nossas próprias universidades. Lembremos que a universidade precisa ser primeiramente “fábrica” de conhecimento, para ter, como consequência, posteriormente, a “produção” de papers. Esse conhecimento depende de muito estudo e de condições para o livre exercício da criatividade, e o paper não pode ser considerado uma simples junção de peças, mas sim uma das etapas dessa criatividade. Deste modo, a produção científica não pode ser qualificada e quantificada como carros, motos ou bicicletas que saem constante e ininterruptamente de uma linha de montagem. Como cidadão consciente e participativo, além dos aspectos meramente acadêmicos, o pesquisador deve também estar engajado nas lutas sociais. Mas, para isso, algumas coisas devem mudar. E muitas dessas mudanças devem acontecer no interior da universidade e no mundo acadêmico.

 

Quero uma universidade pública, gratuita, de qualidade, democrática e com mecanismos que confiram fiscalização e transparência a seus atos. Quero uma universidade que tenha consciência de seu papel como suporte ao levantamento de problemas e às tomadas de decisões, mas que seja crítica. Quero que possamos criar nossos próprios caminhos e modelos, pesquisar o que é de nosso interesse – sempre imaginando que, mais cedo ou mais tarde, isso também se transforme em conhecimento de utilidade pública - e publicar o que nos dá prazer. Quero ficar longe da pesquisa de ocasião. Quero distância das fórmulas prontas que vêm de fora, pois muitas delas atendem aos interesses de quem não conhece a realidade de nosso país, nem sabem quais são as nossas necessidades e prioridades. Quero uma universidade preocupadíssima com a divulgação científica e com a transformação do vocabulário mais técnico para um mais próximo ao dia a dia do cidadão. Quero a universidade inserida na sociedade e não à margem dela, presa em suas próprias paredes e convicções, alheia ao que se passa ao lado. Quero que a universidade quebre seus “muros” e chame a população para dentro e que, juntos, desenvolvamos atividades estruturadas. Quero o fim das barreiras físicas e dos pontos de controle nos campi das universidades públicas, pois essas só afastam mais ainda a população da academia e a academia da população. Quero acreditar que quanto mais dentro da universidade estiverem, mais as necessidades e conceitos da população passam a ser também preocupações dos pesquisadores. Também quero acreditar que o conhecimento amplia o nível de consciência dos cidadãos e que, de quebra, é força mobilizadora para que estes promovam ações transformadoras.

 

Mas não sou somente favorável aos estudos com caráter mais aplicado, como é o meu caso, pois, sendo ela a base de qualquer conhecimento, o investimento em pesquisa básica é necessário, fundamental e justo, apesar de poder ser vultoso e, possivelmente, render resultados apenas no longo prazo.

 

Para conseguir toda essa transformação, um pesquisador isolado tem dificuldades e suas ações ficam muito enfraquecidas. O conveniente é uma política universitária que quebre o atual modus operandi e fortaleça preferencialmente grupos de pesquisas reais e não os constituídos a cada nova chamada de financiamento. Os editais com financiamento individual, como rotineiramente ocorrem, fortalecem núcleos de poder isolado, muitos deles constituídos por um único docente e seu laboratório com acesso por meio de chave biométrica. Além disso, um grupo otimiza esforços, soma competências, amplia a discussão e traz mais transparências às decisões tomadas.

 

Outro grande entrave a essas mudanças é a forma como se dá o financiamento à pesquisa no Brasil, em grande parte originada de financiamento externo à universidade. As agências de fomento como CAPES, FINEP e CNPq, no nível federal, e as agências estaduais, como a FAPESP, FAPERJ e FAPEMIG, por exemplo, são os principais financiadores da pesquisa no Brasil, seja com recursos destinados diretamente ao desenvolvimento das pesquisas ou para bolsas de estudos em diversas modalidades. Essa forma de financiamento externo leva para dentro das universidades os conceitos e políticas de mérito das agências de fomento, hoje pautados pelo produtivismo, mesmo que informalmente, quase sempre, se sobrepondo às políticas de avaliação das universidades públicas. Em muitos casos, a universidade incorpora no seu ordenamento os mesmos conceitos, políticas e critérios de avaliação das agências de fomento, passando a ser uma correia de transmissão das políticas governamentais. Melhor seria a universidade ter recursos próprios e suficientes para definir seus rumos na pesquisa. Isso garantiria maior independência em relação aos agentes externos e permitiria à universidade desenvolver seus próprios critérios de avaliação da qualidade. Não há necessidade da exclusão do financiamento externo, mas esse não deveria ser a principal força motriz do desenvolvimento da ciência e tecnologia numa universidade pública.

 

Portanto, para fazer um outro tipo de pesquisa necessitamos dessas reestruturações na forma do financiamento público da pesquisa no Brasil, não só fortalecendo grupos, mas também deixando de lado critérios meramente produtivistas, e a universidade pública tem papel central nessa transformação. É na universidade pública onde de fato ocorre o exercício da criatividade e se faz ciência e se cria tecnologia no Brasil. Essa nova maneira de fazer e financiar as pesquisas, em equipes reais, com proximidade do cidadão e por meio de financiamento próprio, auxiliaria para que, num futuro bem próximo, ampliássemos a construção de nossas teorias, conceitos, nossas formas próprias de fazer e de desenvolver pesquisas. Estas, sem dúvida, se tornariam referência internacional e, de quebra, muitos dos grupos de pesquisa e revistas científicas nacionais também se tornariam referências.

 

E a revitalização e restauração, onde entram nisso tudo? Acho que é bem simples e direto, pois, ao fazermos pesquisas que atendam preferencialmente nossos interesses locais, favoreceríamos a construção de soluções para as nossas necessidades e dentro da realidade local, sem fórmulas mágicas.

 

Mas tudo isso ainda é pouco, pois a passagem do conhecimento para a aplicação segue um caminho eminentemente político. O paper publicado em revista especializada por si só não consegue essa proeza, ao menos no curto prazo. Soma-se o fato de que para obter status na academia os pesquisadores brasileiros cada vez mais publicam em revistas científicas internacionais, que aceitam artigos somente em inglês, sendo que muitas delas só liberam seu conteúdo para consulta pela internet por meio de pagamento. Se para a academia essa forma de divulgar o conhecimento está adequada, o mesmo não se aplica ao cidadão quando busca informações qualificadas.

 

Daí a necessidade de meios mais democráticos para a divulgação da informação, seja fortalecendo revistas como a Ciência Hoje, vinculada à Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), ou mesmo publicando matéria em jornais da grande circulação. Uma alternativa sempre interessante, e não excludente, é enviar periodicamente press release para o setor de comunicação da universidade com informes sobre os trabalhos desenvolvidos e suas principais conclusões.

 

Há pouco visitei a cidade de Valência (Espanha) e nela há uma zona, que passa dentro da cidade, que foi totalmente revitalizada. Trata-se de um leito (canalizado) de rio e suas margens, hoje ocupado por um impressionante conjunto arquitetônico, com museus, teatros, oceanário, quadras de esportes, praças, incontáveis espelhos d’água, diversos espaços para crianças, jovens e aposentados e mais e mais espaços. Impressiona mesmo pelo gigantismo, beleza, criatividade e pela quantidade e diversidade de equipamentos públicos. São cerca de 8 km de comprimento por cerca de 200m de largura. Como conseguiram isso? No final da década de 50, uma inundação matou muitas pessoas que moravam nas margens desse rio. Posterior a isso, o Estado retirou as pessoas e não permitiu novas ocupações. Há mais ou menos 20 anos, iniciaram-se discussões para aproveitamento desse espaço, que está há uns 10 anos em operação. Segundo um programa da televisão espanhola, é um dos locais mais visitados da Espanha. Sem dúvida vale a pena conhecer.

 

Neste caso, a técnica apenas serviu para fazer acontecer, mas foi na esfera política que a maior batalha foi travada (há enormes críticas acerca do investimento financeiro para tudo isso, não contempladas nesta matéria). Sem as discussões ocorridas na comunidade valenciana e espanhola e a aprovação do uso do dinheiro público para essa finalidade, nada do que existe hoje sairia do papel. Sem dúvida ONGs, pesquisadores e cidadãos conscientes exerceram papel fundamental nas tomadas de decisão, inclusive na manutenção dessa área desocupada, daí minhas preocupações com a maneira de fazer pesquisa (em grupo), com o financiamento público (preferencialmente recursos da universidade), quais objetivos perseguimos (abandonem-se o produtivismo e fórmulas prontas) e com a divulgação científica; o que acaba por nos fazer voltar ao início deste documento, constituindo a história do ovo e da galinha: quem nasceu primeiro?

 

Mas, o melhor de tudo, em Valência eles ainda têm outro espaço (“cauce” de outro rio) também dentro dos limites da cidade, livre e desocupado, como foi o anterior, com quase 9 km de comprimento e aproximadamente 200 m de largura. Por enquanto deram prioridade ao rio. Isso é possível.

 

Marcelo Pompêo é professor do departamento de Ecologia, Instituto de Biociências da USP.

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Última atualização em Quarta, 27 de Junho de 2012
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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