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Apoiar o desenvolvimento sustentável de Pernambuco não é investir em Suape Imprimir E-mail
Escrito por Heitor Scalambrini Costa   
Sexta, 22 de Junho de 2012
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A motivação em escrever este artigo foi a propaganda institucional da CHESF (Companhia Hidro-Elétrica do Rio São Francisco) publicada na mídia. É dito que a inauguração de novas subestações e linhas de transmissão que atenderão o complexo industrial e portuário de Suape, com investimentos de 200 milhões de reais, implica que ”apoiar o desenvolvimento de Pernambuco é investir em Suape”.

 

Aqui cabem alguns comentários sobre esta afirmativa inserida em um contexto onde se evidencia o crescimento econômico do estado, e não seu desenvolvimento. O que se verifica de fato é a desproporcional concentração e priorização de investimentos que estão sendo realizados no território de Suape em detrimento de outras regiões do estado que conta com 185 municípios.

 

Não é intenção do autor questionar a importância que esta empresa teve e tem para o Nordeste, mas sim criticá-la por apoiar hoje um modelo de crescimento concentrador, excludente e predatório com relação às pessoas e ao meio ambiente, fazendo renascer o velho jargão utilizado na época da ditadura militar, onde se dizia que é necessário fazer “o bolo crescer para depois dividi-lo”.

 

Um dos aspectos da crítica ao modelo adotado baseia-se na concentração de investimentos em Suape. Segundo dados oficiais, de 2007 a 2014 serão investidos no Complexo mais de 60 bilhões de reais, com recursos públicos e privados. Montante que poderia ser mais bem aplicado se distribuído em empreendimentos descentralizados, menores, sustentáveis, atingindo um número maior de municípios.

 

Outro erro desta proposta de crescimento econômico insustentável é o interesse de atrair e incentivar que indústrias “sujas”, do século passado, com grande capacidade de poluição (estaleiros, refinaria, petroquímicas, termoelétricas a combustíveis fósseis...) se instalem em Suape. A concentração industrial utilizando combustíveis fósseis e seus derivados, em um território de 13.500 hectares, é o maior dos erros, pois provocará graves agressões ambientais, poluindo a terra, a água e o ar, além de afetar a saúde das pessoas com doenças características deste ambiente, de muita liberação de gases tóxicos, e que também provocam o efeito estufa, contribuindo assim para o aquecimento global.

 

Do ponto de vista da empregabilidade o Complexo de Suape deixa muito a desejar. A qualidade dos empregos oferecidos pelas indústrias ali instaladas exige uma capacitação especializada que não foi planejada pelos gestores, implicando em uma importação de mão de obra. Hoje o perfil do emprego é majoritariamente para atender a construção civil, portanto de baixa qualidade e transitório.

 

Além das questões econômicas que utilizam conceitos e estratégias altamente discutíveis e polêmicas, outro agravante constatado é relativo à questão social. O tratamento dado aos moradores nativos agride os direitos humanos daqueles cidadãos e cidadãs, visto a truculência de como tem ocorrido a reintegração de posse. Famílias têm sido expulsas brutalmente sem que outro local seja disponibilizado para irem morar, contribuindo para isso as “indenizações” (quando pagas) irrisórias, o que não possibilita a aquisição de outra moradia. A brutalidade contra estas famílias tem ocorrido sistematicamente desde 2007 com a aquiescência das autoridades. O caso mais recente da “selvageria” contra estas populações ocorreu contra os moradores do Engenho Tiriri, em 22/05/2012.

 

Experiências vividas em outras partes do planeta mostraram que no entorno destes complexos industriais, além da devastação do meio ambiente, ocorre o aumento de doenças nas populações que habitam seu entorno. No Brasil um exemplo clássico foi o ocorrido na cidade de Cubatão (58 km de SP) que ficou conhecida como a cidade dos "bebês sem cérebro". De 1978 a 1984, foram registrados vários nascimentos de crianças anencéfalas, e a relação causal foi quase imediata devido às emissões de gases e resíduos industriais, como fator principal para o crescimento de casos de anencefalia, além de outras doenças respiratórias encontradas em maior escala na região. Também distritos industriais como o de Duque de Caxias (RJ), Betim (MG), Porto de Aratu (BA), Pecém (CE), entre outros, podem servir de exemplos sobre a qualidade de vida dos seus habitantes.

 

O progresso desejado não é fazer obras e privilegiar a parte econômica em detrimento de pessoas, comunidades, ecossistemas e meio ambiente. Crescimento econômico não se conjuga com desenvolvimento humano. Há que mudar o paradigma da voracidade do lucro para o progresso humano, que implica na melhoria da qualidade de vida das pessoas (educação, saúde, transporte, saneamento, moradia, segurança, lazer...). Enquanto isso não ocorrer, o crescimento atual com o consumo desenfreado torna as populações mais pobres, aumentando os custos mais rapidamente do que os benefícios, além de cada vez mais destruir a natureza e a própria humanidade. As crises que o mundo atravessa neste início do século 21, em particular a econômico-financeira e ambiental, mostram claramente o esgotamento de um modelo promovido pela civilização industrial, e daí urge promover outros valores para o bem estar.

 

Exemplos são muitos, e devemos tomar como exemplo o já acontecido no país e no exterior, para poder afirmar que os chamados ”benefícios” hoje trazidos pelo Complexo Industrial Portuário de Suape, serão a médio e longo prazo pagos com o sacrifício e a deterioração da qualidade de vida da população pernambucana, que está perdendo a oportunidade de um desenvolvimento sustentável e para todos.

 

Heitor Scalambrini Costa é professor da Universidade Federal de Pernambuco.

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Última atualização em Sexta, 22 de Junho de 2012
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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