Xingu +23: pare Belo Monte


Paralelamente aos primeiros dias da Rio+20, a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, realizada de 13 a 22 de junho, na cidade do Rio de Janeiro, com a meta vaga de “contribuir para definir a agenda do desenvolvimento sustentável para as próximas décadas”, foi organizado em Altamira, no Pará, o encontro Xingu+23, com o objetivo explícito de lutar contra a construção da hidrelétrica de Belo Monte no rio Xingu. O +23 faz referência ao número de anos desde o primeiro encontro dos povos indígenas de Altamira, ocorrido em 1989, já voltado à oposição à construção desta hidrelétrica no rio Xingu, quando os índios aqui reunidos, aliados a movimentos sociais, conseguiram cancelar o financiamento do Banco Mundial para o desenvolvimento das obras. Hoje, Belo Monte não é mais um projeto, mas uma obra em andamento, e neste encontro foram debatidos seus terríveis impactos, que já assolam a população desta região da Amazônia.

 

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A abertura do evento aconteceu no dia 13 de junho, dia de Santo Antônio, na comunidade batizada com o nome do santo, ou pelo menos no que sobrou dela, pois a vila foi destruída para a construção da hidrelétrica. A data era, por um lado, especial, pois era o dia do padroeiro da vila, celebrado há muitos anos naquela comunidade; e, por outro, muito triste, pois seria a última celebração feita na comunidade.

 

Emoção sintetizada no depoimento do Sr. Élio Alves da Silva, antigo morador da comunidade, e que deu início ao encontro. Élio lembrou os antigos moradores da vila que não estavam mais lá, suas alegrias em uma vida simples de luta de muitas décadas, testemunhada pelas mangueiras antigas, que cobriam os bancos, o altar e o estandarte montados ali para a celebração. “Criei meus filhos à custa do Xingu. Foi o rio mais rico que conheci. Mas hoje pescadores não conseguem mais pescar. Cada dinamite que explode parece que tem uma coisa explodindo aqui dentro do meu peito”, disse ele. Que completou contando que, se quisesse visitar algum dos seus antigos vizinhos, não teria como, pois todos se mudaram não se sabe para onde, com uma indenização em dinheiro que nem de longe paga o trabalho que tiveram por lá.

 

Vidas destruídas, uma comunidade dilacerada. E não pôde completar seu discurso, pois a emoção lhe encharcou os olhos e travou a garganta. Além dos pequenos agricultores que lá estavam, acompanharam o evento estudantes, jornalistas, índios da região do Xingu e Munduruku, da região do Alto Tapajós, também ameaçados pela construção de barragens naquele outro rio, para nos lembrar de que este não é um problema só do Xingu, mas de toda a região amazônica, ameaçada pelo modelo de desenvolvimento econômico imposto para a nossa região. Além de um casal de ativistas turcos, que enfrentam problemas similares causados pela construção da hidrelétrica de Ilisu, no rio Tigre, para nos lembrar de que este também não um problema só da Amazônia, mas mundial.

 

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O ponto alto do encontro foi um protesto iniciado na madrugada do dia 15 - cerca de 300 manifestantes, às 5 horas da manhã, dirigiram-se ao canteiro de obras de uma ensecadeira de Belo Monte, barragem provisória de barro de pedras, que cortou o rio e que havia sido construída recentemente próxima à comunidade de Santo Antônio. Munidos de pás, enxadas e picaretas, abriram um caminho estreito de 15 metros de comprimento e 1,5 m de profundidade no barramento para que o Xingu pudesse correr uma vez mais, ainda que simbolicamente, ao longo de seu curso natural (ver o vídeo: Indígenas ocupam Belo Monte). Também fincaram 200 cruzes representando as mortes causadas pelo empreendimento e plantaram 500 mudas de açaí, simbolizando o sonho de recuperação daquela área degradada. Depois, sentados sobre a ensecadeira, escreveram com seus próprios corpos dispostos em forma de letras “Pare Belo Monte”, para que fossem fotografados do céu.

 

Enquanto na Rio+20 discute-se o conceito vago de “Economia Verde”, o novo termo da moda, tão vazio de significado quanto o antigo e já desacreditado “Desenvolvimento Sustentável” dos anos 90 (vazio porque mal nascido, já apropriado pelo agronegócio brasileiro, fortemente representado na Conferência das Nações Unidas, cinicamente se auto-intitulando “verde”), a Xingu +23 tinha um recado bem claro para passar para o mundo: essa sandice de barrar todos os rios do planeta a todo custo tem que parar, começando por Belo Monte no rio Xingu!

 

Leia também:

Rio+20 e a matriz energética brasileira - Parte II

 

Vídeo:

Mensagens do Xingu ao presidente do BNDES Luciano Coutinho”.

 

Rodolfo Salm, PhD em Ciências Ambientais pela Universidade de East Anglia, é professor da UFPA (Universidade Federal do Pará) em Altamira, e faz parte do Painel de Especialistas para a Avaliação Independente dos Estudos de Impacto Ambiental de Belo Monte.

Comentários   

0 #4 Vamos combater a MATRIX-energética promovendo a WEB-energética ?Claudio E. Próspero 10-09-2012 17:13
Car@s, olá.

Convido-os para a conversação que iniciei em:

WEB da Energia = criando uma contrapartida, COLABORATIVA e DISTRIBUÍDA ao modelo atual - AUTORITÁRIO e CENTRALIZADO (Ex.: Eletrobrás e Petrobrás)

http://escoladeredes.net/group/novaeconomia/forum/topics/web-da-energia-criando-uma-contrapartida-colaborativa-e-distribu?xg_source=activity

Abraços colaborativos...

Claudio
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0 #3 filhos de goebbelsLuiz Ramires 05-07-2012 17:20
Nota-se que é crescente o número de fanáticos virtuais q nao milita por nada na vida defedendo esse projeto de ditadura, chamando todas as denúncias mais q comprovadas de mentiras. resta entender pq os povos locais foram contrariados, porque as audiencias foram a farsa q foram e porque o licenciamento foi tao fraudulento, com pressoes, afastamentos e mudanças de regra no meio do jogo. fora o finaciamento imoral e a evidencia q os "ignorantes" fingem ter, ao nao mencionar o fato de q a energia nao é pra gente, e sim pros megacosumidores, q estao loucos pra barrar a amazonia inteira - imagino q vcs leiam jornal e estejam acompanhando. vao vcs se informar um pouquinho sobre matrizes energéticas e deixar de ser papagaios do projeto da ditadura militar levado adiante com os metodos mais descaradamente ilegais. fora isso, o Rodolfo Salm é membro do painel independente de cientistas, que reune uns 40 membros de projeçao internacional em suas áreas. esse painel q nao tava comprado pela máquina do governo deixou claro 1 milhao de vezes pro mundo inteiro o quase interminável rosário de absurdos q a obra trará. nada foi seriamente respondido à altura. aplica-se o método goebbels de se repetir a mentira mil vezes. o mais repugnante é essa horda internetica completamente carente de informaçoes relevantes pra justificar suas posiçoes querer taxar os outros de ignorantes, burros, desinformados, debochando e ironizando do alto de uma mentezinha medíocre e corrompida pelo pensamento único que o capital tanto se esmera em propagar. e ainda tem a cara de pau de dizer q ha interesses estrangeiros contra a obra... pode ser, mas com certeza nao é das multis q vao usar essa energia a custo subsidiado e exportar riquezas pras matrizes.
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0 #2 Ahá!Luiz Ramires 03-07-2012 16:51
Se havia dúvida a respeito do caráter escuso das intervençoes desse Alexandre sobre belo monte ela se dissipa agora. o sujeito tem a pachorra de vir defender a farsa montada por uma polícia que sabe-se lá porque trabalha com enorme afinco em nome da obra e cola adesivo da construtora em suas viaturas. uma polícia privatizada descaradamente pelo poder econômico, cujos métodos ainda sao de ditadura e sua legitimidade e idoneidade sociais sao sabidamente nulas, visto que sempre se tratou de força auxilar do poder econômico, além de praticar a estonteante média de 8 a 10 mil assassinatos por ano contra os pobres do país. essa á instituição militar em que se arvora mais esse fanático disseminador de mentiras petistas. tal papel da polícia também se notou nas "democráticas" audiências com os povos q negaram a obra mas tiveram de engoli-la, cercados de policiais. agora alexandre mostra que está com os gorilas, os donos da grana, do poder político. quer nos dizer q o consorcio é tudo coitadinho, já os indigenas e movimento social sao os viloes, os bandidos, os violentos da história. algo parecido qdo da greve dos funcionários da usina. bem q eu desconfiava q essa militância virtual dava retorno a seus fantizado$ seguidores, sempre ignorantes no debate e truculentos de discurso, ainda por cima recheado de deboche e mentiras deslavadas, de qm "esquece" o tammnho das maracutaias em torno dos orgaos de licenciamento do país. esse é o tipo de gente que tenta intimidar os inimigos dessa obra da ditadura a ser realizada com métodos de ditadura. aliás, os argumentos tb sao de ditadura, pois todos os contrários sao "comunistas frustrados, de sarcófago, militontos, ecochatos, esquerda que a direita gosta" e outras falácias repugnantes de vendilhoes que vendem a alma pro diabo todo santo dia.
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0 #1 RE: Xingu +23: pare Belo MonteAlexandre 03-07-2012 08:33
Uai Rodolfo, e o quebra-quebra na Norte Energia, que você omite, não foi também um recado bem claro do que sempre pretendeu esse movmento? A polícia civil do Pará concluiu o inquérito sobre a destruição de 35 salas nos canteiros de obra da hidrelétrica de Belo Monte. A previsão é que o documento seja protocolado na 3ª Vara Criminal de Altamira. Segundo a polícia, 11 ativistas não-índios tiveram pedido de prisão preventiva solicitado por envolvimento na depredação e se recusaram a falar no depoimento. De acordo com o Consórcio Construtor Belo Monte (CCBM), pelo menos 50 computadores foram quebrados durante a ocupação; notebooks, celulares e radiocomunicadores também teriam sido furtados, dezenas de aparelhos de ar-condicionado teriam sido danificados e móveis, documentos e projetos queimados. A estimativa é de que o prejuízo ultrapasse R$500 mil. O episódio ocorreu no dia 16 de junho, em meio ao encontro Xingu+23, ocorrido em Altamira (PA) e organizado pelas entidades Movimento Xingu Vivo para Sempre e Conselho Indigenista Missionário (Cimi). Segundo a polícia, a depredação contou com a ação de índios da etnia Munduruku, de Mato Grosso, que não serão afetados diretamente pela obra. Para justificar o pedido de prisão dos ativistas que, segundo a polícia, são ligados ao Cimi e ao Movimento Xingu Vivo para Sempre, foram apresentadas imagens, relatos testemunhais e laudos periciais que comprovariam o envolvimento dessas entidades na incitação à depredação. O material conta, também, com gravações feitas por policiais infiltrados no acampamento do Xingu+23. “Não há dúvidas de que integrantes e assessores do Movimento Xingu Vivo encabeçaram esses atos criminosos. Entre os indícios, há filmagens e fotos de um assessor deles entregando, aos índios, as picaretas, pás e enxadas usadas na depredação. Essas ferramentas estavam em uma caminhonete Mitsubishi L-200 preta, alugada por uma missionária do Cimi. Temos inclusive o recibo da transferência bancária que registrou o pagamento da caminhonete, feito pelo próprio Cimi”, disse o superintendente regional da polícia civil em Altamira, delegado Cristiano Nascimento.
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