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Ponto de fuga Imprimir E-mail
Escrito por Jim Kunstler   
Qui, 16 de Agosto de 2007
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O colapso do mercado de ações sugere que um setor financeiro enganado pela falsificação da realidade finalmente entre numa zona de perigo onde esta realidade implacavelmente reafirma-se a si própria, dissolvendo expectativas, e tudo o que resta é o odor azedo da fraude.

 

Este longo episódio da mania do mercado, que perdurou por sete anos, foi baseado na idéia de que empréstimos não cumpridos poderiam ser transformados em dinheiro e vestidos com roupas respeitáveis — como apanhar todos os bêbados na periferia de Los Angeles, colocá-los em ternos de luxo e fazê-los passar por professores da Harvard Business School. Foi uma vigarice claramente ridícula e o admirável é que a América tenha-se demonstrado tão absolutamente privada de autoridade reguladora — para não mencionar de simples decência e auto-contenção — em todas as etapas.

 

É realmente difícil relatar este impressionante fracasso de responsabilidades. O que aconteceu foi toda uma indústria que capitulou quanto aos seus padrões e normas que tinham no seu interior e lhe permitia funcionar no primeiro plano. Prestamistas hipotecários cessaram de exigir aos compradores de casa que se qualificassem para empréstimos; banqueiros cessaram de se importar com o que mantinha de pé os papéis que emitiam; empréstimos dúbios foram empacotados e revendidos como barris de anchovas podres – em tais números que nenhuma fedorenta sardinha individual ficaria de fora – e os barris foram comerciados para toda a linha de frente, alavancados (leveraged), hedged, falsificados (fudged), burlados (fobbed) e trapaceados (fiddled) até que, abracadabra, foram transformados em muitos apartamentos de luxo (Tribeca lofts), casas de campo, relógios Piaget, festas de aniversário de um milhão de dólares e jatinhos Gulfstream.

 

Isto funcionou para os filhos dos bônus da Goldman Sachs, para os trapaceiros dos private equity (1), e para os presidentes executivos das corporações e os membros das suas administrações, e mesmo para os miseráveis analistas quantitativos (quants) que rastejam como termitas no amontoado de estatísticas do governo federal. Isto funcionou até mesmo durante uns dezoito meses para milhões de irresponsáveis cidadãos americanos seduzidos por contratos para casas que nunca poderiam pagar, em termos vergonhosamente falsos e ruinosos.

 

Os meus críticos nunca se cansaram de destacar quão sistematicamente errado tenho estado acerca da fraqueza da economia americana, mas penso realmente que atingimos o ponto de fuga (vanishing point) e que a perspectiva no horizonte está parecendo cada vez mais com um buraco negro – com horrendos poderes gravitacionais de sucção. Ele surgiu umas poucas semanas atrás, quando dois hedge funds do edifício Bear Stearns caíram em perturbações quanto aos barris de anchovas podres que haviam comprado para os seus investidores. Os rapazes do Bear Stearns tentaram desesperadamente vender os barris, mas ninguém compareceu ao leilão. Começou a circular a palavra de que todas as outras companhias que se sentavam sobre barris de anchovas podres podiam não ser capazes de vender os seus. De repente, havia um bocado menos "dinheiro" nocional no sistema. As "posições" mantidas pelos hedge funds (apostas feitas sobre todas as espécies de outras coisas alavancadas por anchovas podres colaterais) ainda não se haviam desfeito o suficiente. Mas, no final de julho, tamanho nervosismo corria através do sistema que os mercados de ações vieram abaixo com dor de barriga. O sangue e a matéria fecal girando em torno do cano de saída é o que resta do "dinheiro".

 

A propósito: acredito que se possa atribuir responsabilidades a este espantoso fracasso, embora a minha teoria possa não ser do gosto de todos (especialmente dos jumentos teimosos). Numa palavra: deve-se à entropia. Os EUA desfrutaram de inputs energéticos sem precedentes e o resultado são outputs de entropia também sem precedentes. A força multiforme da entropia manifesta-se então como degradação em todas as coisas em torno de nós, desde a feiúra em que estamos mergulhados com uma paisagem super-construída com Wal Marts, Pizza Huts e casas de vinil até à perversão sexual disponível na Internet e à capitulação dos padrões e normas por parte dos executivos do setor financeiro. É tão simples como isso. Regras da entropia.

 

O que reforça o meu sentimento de que estamos no ponto de fuga é o simples fato adicional de que na sexta-feira, dia 27/07, o petróleo bruto tipo West Texas fechou um por cento a menos do que o seu recorde anterior de US$ 77,03, atingido em 14 de Julho do ano passado (obrigado a Shadowstats.com, de John William, pelo dado). Além das perturbações nos mercados financeiros, neste momento não há nada especialmente traumático em curso — nem furacões, nem bombardeios terroristas na Europa ou na América, nem ações de guerrilha contra plataformas de petróleo e oleodutos nigerianos. É claro que qualquer destes problemas poderia desencadear-se amanhã, mas o certo é que as coisas agora estão tranqüilas, pelos padrões atuais. E ainda assim o petróleo fechou a US$77,02 na sexta-feira.

 

A razão para aquele preço elevado, acredito, é que entramos realmente na zona da crise permanente da exportação de petróleo, o que significa que os países exportadores (Arábia Saudita, México, Rússia, Irã, Venezuela, etc.) estão usando ainda mais do seu próprio produto em esgotamento e são capazes de enviar cada vez menos para os lugares que importam o seu petróleo (EUA, Europa, China, Índia e Japão). Há agora um estrangulamento das exportações suficiente para impor uma pressão ascendente de alguns dólares nos mercados futuros do petróleo. Isto certamente ficará pior. Um bocado pior.

 

O lançamento desta nova crise na exportação de petróleo está coincidindo com a crise de confiança no setor financeiro. De fato, a crise da exportação de petróleo é o teste de realidade não reconhecido que está desafiando a habitual falsificação da realidade no mundo financeiro. Esta crise na exportação do óleo também terá um efeito palpável sobre a realidade da vida quotidiana na América. Ela conduzirá, dia a dia, o nosso sistema de dependência extrema do automóvel cada vez mais próximo do fracasso. Se o público chegar a reconhecer o que isto significa, milhões de decisões individuais serão afetadas. Dentre estas decisões estará a recusa em considerar a compra de uma nova casa a 44 km de Minneapolis (ou Dallas, ou Atlanta...).

 

Enquanto isto ocorre, e os barris de anchovas acumulados em torno de Wall Street começam a explodir com os gases em putrefação neles contidos, não haverá mais hipotecas disponíveis para novas casas para ninguém. E assim a única atividade real que ainda impulsiona a economia americana – a construção de cada vez mais amontoados suburbanos – se aproximará de uma completa paralisação. Não penso que os mercados financeiros sobrevivam a isso.

 

 

(1) Private equity: Investimento em valores mobiliários de empresas com um potencial de crescimento capaz de gerar retornos superiores à média de mercado.

 

 

Jim Kunstler é autor de “A longa emergência”.

 

Publicado em http://resistir.info.

 

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