Estados Unidos e Brasil: da desconfiança inicial de Lula à parceria convicta


No transcorrer da gestão Lula, a relação entre Brasil e Estados Unidos ocorreu sem desgastes significativos. A despeito da retórica progressista, o novo governo se prestou a manter o norte do rumo firmado no mandato predecessor de Fernando Henrique Cardoso.

 

De início, isso confundiu boa parte do eleitorado, ainda esperançoso de assistir a uma transformação gradativa da estrutura da sociedade, mas, uma década depois, a desorientação encerrou-se, de maneira que não há mais dúvida do perfil conservador da ampla coligação trabalhista.

 

Assim, não resta mais opção viável à população no curto prazo, há muito tempo mera observadora da convergência política conservadora entre elites partidárias. O significado das siglas partidárias não se vincula mais à prática cotidiana.

 

O modelo ratificado, não obstante o alto custo sócio-econômico, consolidou-se de modo inegável. Em termos de inserção internacional, o Brasil subscreve sem reservas a agroexportação maciça, amparada em produtos como café, tabaco, carnes, suco de laranja, derivados de soja e biocombustível.

 

Nos últimos anos, a produção agrícola ampliou-se vez e meia, sem que a área cultivada tivesse de expandir-se na mesma medida. Em mais algum tempo, o país poderá assumir a condição de maior exportador do mundo. Em decorrência disso, disputas comerciais com grandes centros consumidores, como Estados Unidos ou China, irromperão, sem redundar em rompimentos ou desgostos duradouros.

 

Em 2010, por exemplo, a Agência de Drogas e Alimentos (FDA) dos Estados Unidos passou a testar o suco de laranja provindo de vários países, com o objetivo de identificar a presença, mesmo residual, de carbendazim, fungicida proscrito pela Agência de Proteção Ambiental (EPA), porém utilizado na eliminação de pragas de árvores cítricas em alguns países.

 

Com a medida, o Brasil, grande exportador do produto, foi temporariamente afetado, visto que se suspendeu a venda do suco concentrado por algumas semanas no início de 2012. Com o fito de preparar-se para a adequação ao novo padrão, o segmento solicitou ano e meio de prazo, pedido prontamente negado pelo governo estadunidense.

 

Portanto, divergências existirão, mas não a ponto de resultar em desafio ou conflito profundo entre os dois gigantes americanos. Ao longo dos últimos tempos, tanto George Bush, republicano, como Barack Obama, democrata, elogiaram, a sua maneira, os governantes brasileiros, especialmente Lula.

 

Desde os primeiros dias à frente da Presidência da República, o dirigente brasileiro buscou ser o mediador da América do Sul com a do Norte, o que lhe proporcionou vínculos especiais com Washington. Com o propósito de credenciar-se politicamente perante o eixo norte-atlântico, Lula, de maneira prudente, se afastou do bolivarismo e estabeleceu outra via, intermédia entre a Venezuela, nacionalista e estatizante, e os Estados Unidos, universal e neoliberal.

 

A postura assumida pelo Brasil auxiliou a Casa Branca em mais de uma vez na última década. De quando em quando, o governo estadunidense manifesta desacordo com determinados países ou mesmo com a própria Organização dos Estados Americanos (OEA), apesar de ser responsável por cerca de sessenta por cento do orçamento. Aos olhos desconfiados de Washington, ela contemporizaria demais com governos populistas ou comunistas.

 

Destarte, o Brasil ajudou na medida do possível a moderar os ânimos da Argentina e do bloco bolivarista – Venezuela, Bolívia e Equador – em questões de livre comércio, integração regional e dívida externa, até nas cúpulas regionais.

 

Outrossim, contribuiu para reduzir o desgaste de Paris, Ottawa e notadamente Washington na crise institucional do Haiti em fevereiro de 2004, ao aceitar semanas depois da expulsão do presidente Jean Bertrand Aristide o comando militar da missão de estabilização das Nações Unidas.

 

Nem com isso, contudo, logrou receber da Casa Branca o apoio explícito para um futuro assento permanente no Conselho de Segurança quando houver a reforma administrativa onusiana, tal como manifestado à Índia em novembro de 2010 por Obama.

 

Nesse entretempo, houve discordâncias variadas, como no caso da colaboração militar entre norte-americanos e colombianos. O motivo da preocupação devia-se à fronteira comum de pouco mais de mil e seiscentos quilômetros na região amazônica, que poderia ser afetada pela movimentação maciça de tropas em confronto com paramilitares, guerrilheiros, biopiratas e narcotraficantes.

 

Outro ponto de discórdia foi relativo à instabilidade política de Honduras, por ter o presidente Manuel Zelaya sofrido defenestração do poder em junho de 2009. Embora, de acordo com o Brasil, logo após a queda dele, os Estados Unidos terminariam por apoiar os golpistas, por causa da afinidade ideológica. Todavia, ressalte-se que nenhuma das questões abalou a relação no longo prazo.

 

Por último, a origem sindical de Lula jamais o impediu de levar a cabo tratativas de alto nível com governantes do 1º Mundo. Na análise de curto alcance de muitos opositores, fosse por comodidade intelectual ou por desinformação histórica, o sindicalismo obrigatoriamente se ligaria ao progressismo. Se, na Europa, poder-se-ia até crer nisso, nos Estados Unidos, não. Mencione-se que o único sindicalista a chegar à Presidência lá foi um dos mais conservadores dirigentes da história contemporânea, Ronald Reagan (1981-1988).

 

Virgílio Arraes é doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da mesma instituição.

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