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Tim Lopes, dez anos depois: dos mortos notáveis aos inomináveis Imprimir E-mail
Escrito por Marcio de Souza Castilho   
Quarta, 13 de Junho de 2012
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O assassinato do jornalista Tim Lopes na noite de 2 de junho de 2002, quando investigava denúncias de tráfico de drogas e exploração sexual de jovens num baile funk no subúrbio carioca, desencadeou uma cobertura intensa da imprensa brasileira. Tim fazia uma “reportagem investigativa” na Vila Cruzeiro, uma das favelas do Complexo da Penha, na zona norte do Rio de Janeiro, para ser exibida no programa Fantástico, da Rede Globo.

 

O forte impacto provocado pela morte do repórter capturou inicialmente a atenção do público, em grande medida pela brutalidade do episódio. Afirmar, no entanto, que a intensa repercussão midiática estava associada unicamente a uma reação da comunidade jornalística em defesa da democracia e da liberdade de imprensa seria desconsiderar variantes simbólicas e outros pormenores que estão presentes nas relações de poder entre imprensa, campo político e sociedade. Por que, afinal, a mídia resolveu colocar uma lente de aumento na cobertura da violência urbana, com a morte de um de seus pares, escapando das representações habituais e ampliando o noticiário em uma área onde o jornalismo normalmente transita com superficialidade?

 

Para responder a essa inquietação, cabe fazermos um breve resgate, inicialmente, sobre o lugar ocupado pela morte na mídia. Diferentes locais são atribuídos aos mortos em um jornal: há o lugar do morto banal e inominável, vítima da violência cotidiana, e o do morto notável. Enquanto aquele se mantém anônimo nos hospitais e velórios, este é reconduzido ao mundo dos vivos, via meios de comunicação.

 

Analisando as narrativas post mortem, Maurice Mouillaud (2002) nos ajuda a identificar algumas características que demarcam esses dois lugares no noticiário. Os mortos banais ou de serviço são “aqueles que compõem a necrologia; aparecem dia após dia, no mesmo local, pelo menos nos jornais regionais, e como uma informação local, que interessa, e só interessa, a uma comunidade: faz parte do balanço de suas perdas e ganhos (como os casamentos e nascimentos). É banal e repetitiva como a própria morte” (2002: 349). Já os mortos notáveis, segundo o autor, têm o privilégio de se sobrepor aos demais assuntos do conteúdo noticioso. Mouillaud reconhece o “grande morto” na medida em que na primeira página ele apaga todas as demais informações. Outra marca de exclusividade é a capacidade de fragmentar-se no interior do jornal. Ele “multiplica-se em gêneros de discurso e em variantes no interior de cada um dos gêneros; (...) porque, se o grande morto é um assunto único, o jornal o fragmenta em múltiplos assuntos” (2002: 351).

 

Rondelli e Herschmann (2000) entendem a morte como momento fundador da (re)construção do sujeito. Ao se tornar objeto de práticas discursivas, este indivíduo imortalizado ganha novas significações, passando a habitar o imaginário social. “O morto é despido e autopsiado para que, sobre seu corpo, comecem a se enunciar interpretações, atribuições de sentido sobre ele e seus comportamentos, idéias e atitudes” (2000: 63). Se a execução de Tim Lopes decretou o fim do corpo biológico, o assassinato deflagrou o renascimento do corpo do repórter como representação. É a partir da sua morte que ele passa a ter sua vida reinterpretada pela imprensa. Seu desaparecimento parece ter dado sentido definitivo a sua biografia.

 

O “caso Tim Lopes” em O Globo pode ser dividido em três fases: as notícias sobre a confirmação da execução do jornalista, em 10 de junho de 2002, o desenvolvimento da trama policial, com as cobranças do jornal pela captura dos executores, e a prisão do traficante Elias Maluco, veiculada em 20 de setembro daquele ano, representando o desfecho da trama noticiosa. Apontado como principal responsável pela morte do repórter, ele era o último bandido acusado do crime que permanecia foragido. As matérias reportando o acontecimento ganharam a primeira página do periódico 31 vezes nesse período de 100 dias. Como dado particular, não encontramos, depois da morte de Tim Lopes, registro de matérias mais aprofundadas em O Globo buscando dar continuidade às investigações sobre exploração sexual e comércio de drogas na Vila Cruzeiro.

 

O “caso Tim Lopes” não serve de modelo para caracterizar a rotina da cobertura policial. A execução do repórter recebeu tratamento diferenciado se compararmos a outros registros de desaparecimento e assassinato, evidenciando a divisão entre os mortos notáveis e os mortos banais no discurso do jornal. No mesmo local onde o jornalista foi torturado, no alto da Favela da Grota, a polícia calculou outros 200 homicídios, como informara a reportagem de O Globo, em 15 de junho de 2002. São mortos inomináveis que traduzem a superficialidade da cobertura jornalística. Tais vítimas não são notícia de primeira página e ocupam espaços pequenos e de pouca visibilidade no interior do jornal.

 

A cobertura jornalística das vítimas comuns é tão rotineira como a própria violência. Uma pesquisa do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC) constata que a rotina do jornalismo policial baseia-se na reprodução de boletins de ocorrência e na fala oficial do delegado. O estudo revela que 77,7% das matérias em jornais do Rio de Janeiro e 63,8% das reportagens na imprensa nacional descrevem os crimes sem contextualização. A abordagem sobre causas e soluções para o problema da segurança pública está à margem do noticiário. O conteúdo noticioso descreve o fato pela “razão da delegacia” ou, resumindo, esgota-se como caso de polícia. Segundo o levantamento nacional do CESeC, a polícia era a principal fonte ouvida em 32,5% dos casos, seguida pela vítima, com 9,7%, especialistas, com 4,6%, e fontes ligadas a movimentos da sociedade civil, com menos de 1%. A análise dos jornais do Rio mostra pouca variação: 26,9% (polícia), 10,4% (vítimas), 1,4% (especialistas) e 1,7% (representantes do Ministério Público).

 

É nesse ponto que voltamos àquela inquietação inicial: por que um assunto cotidiano no Rio de Janeiro ganhou repercussão nacional enquanto outras notícias de crime permanecem silenciadas no discurso da mídia, sem contextualização ou cobrança de soluções? A questão se relaciona, portanto, aos motivos que levaram os jornais a produzir amplo noticiário sobre o assunto, não sendo propriamente objeto de análise aqui a conduta profissional de Tim Lopes em sua última apuração no Complexo da Penha.

 

Nossa hipótese se assenta na idéia de que as notícias publicadas depois da morte do repórter se guiaram também em torno do objetivo de legitimação do grupo. O campo jornalístico, nesse sentido, parece buscar no episódio a preservação da autoridade jornalística. Autoridade aqui deve ser entendida menos como prestígio individual daqueles que se destacam nas empresas de comunicação e mais como o poder que é garantido à instituição e que reforça o papel social do profissional que tudo pode em busca da “verdade” dos fatos.

 

A atuação de Tim Lopes se identificava com a prática do “verdadeiro jornalismo”, responsável por investigar desde a corrupção nas esferas públicas até o crime organizado nas favelas. Vivenciava a vida de outros de modo a desvendar para o leitor um mundo desconhecido. Para isso, transmutou-se em outros personagens, ocultando sua própria identidade. Esse aspecto é extremamente valorizado no jornalismo, pois assim a profissão se transforma em algo simbolicamente maior: não é apenas relato dos fatos, mas vivência cotidiana das transgressões, descobertas, desvelamento.

 

A categoria repórter investigativo, quando relacionada à editoria de polícia, sugere, sobretudo, uma aproximação aos ditames profissionais da própria polícia. Investigativo confunde-se assim com investigador policial. Sem exercer uma função explícita junto ao Estado – não é político nem ocupa posição oficial –, o repórter acredita estar imune às forças da sociedade para produzir suas reportagens. Torna-se uma espécie de agente não delegado do Estado. Tim Lopes esteve na fronteira entre esses dois territórios, o do jornalismo e o policial.

 

A execução no alto da Favela da Grota expôs a vulnerabilidade de repórteres policiais no exercício profissional nas chamadas áreas de conflito. A partir desse episódio, equipes de reportagem passaram a trabalhar com coletes à prova de bala na cobertura jornalística em favelas do Rio de Janeiro, evidenciando uma narrativa de “guerra” contra um “território inimigo” estigmatizado. As novas vestimentas dos jornalistas foram apresentadas ao vivo e a cores durante a invasão de forças policiais e militares nos complexos da Penha e do Alemão, em novembro de 2010. Permaneceu, contudo, a importância do significado simbólico do jornalista como “herói solitário” a serviço da coletividade e do bem comum. A morte do repórter cinematográfico da TV Bandeirantes Gelson Domingos da Silva, enquanto acompanhava uma operação policial na comunidade Antares, na zona oeste do Rio, em novembro de 2011, também foi considerada pelos meios de comunicação um ato contra a liberdade de imprensa e a democracia. Gelson, de 46 anos, levou um tiro de fuzil.

 

Importa considerar que o discurso midiático tem sempre caráter seletivo, operando um jogo de lembrança e esquecimento. No “caso Tim Lopes”, enquanto se reforçava o papel social dos repórteres investigativos como promotores da justiça social, outra operação narrativa se processava intensamente na construção da memória do assassinato: o ato de silenciar a discussão sobre os limites éticos na apuração das matérias, o recurso da câmera escondida, a relação do jornalista policial com as fontes e a responsabilidade da empresa no desfecho brutal no alto da Favela da Grota.

 

Não há como dissociar a cobertura sobre o assassinato de Tim Lopes do discurso idealizado da profissão. Não podemos deixar de visualizar que o jornalismo também adota estratégias que funcionam como discursos de validação social, a exemplo dos demais campos profissionais. A defesa em torno da reportagem investigativa tem papel fundamental na constituição da identidade profissional do jornalista.

 

Referências bibliográficas:

MOUILLAUD, Maurice. “As grandes mortes na mídia”. In PORTO, Sérgio Dayrell (org.). O jornal. Da forma ao sentido. Brasília: Ed. Universidade de Brasília, 2002.

 

RAMOS, Silvia e PAIVA, Anabela. Mídia e violência: tendências na cobertura de criminalidade e segurança no Brasil. Rio de Janeiro: Iuperj, 2007.

 

RONDELLI, Elizabeth e HERSCHMANN, Micael. “Os media e a construção do biográfico – A morte em cena”. In: HERSCHMANN, Micael e PEREIRA, Carlos Alberto Messeder (org.). Mídia, memória e celebridades – Estratégias narrativas em contextos de alta visibilidade. Rio de Janeiro: E-papers, 2003.

 

 

Marcio de Souza Castilho é jornalista e professor adjunto do departamento de Comunicação Social da Universidade Federal Fluminense (UFF)

Contato: castilhorio(0)terra.com.br

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Última atualização em Sexta, 15 de Junho de 2012
 

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