Ouviram o quê? Quem ouviu?

 

 

Genésio é amigo de longa data. Com ele converso quando estou precisando de novos assuntos. Genésio vive no mundo das hipóteses impossíveis. Das heresias, das irreverências e dos palpites.

 

A última do Genésio é sua implicância com a letra do Hino Nacional. O Hino vai completar um século de vida, em 2009. E Genésio argumenta que já não vivemos num mesmo Brasil nem somos o mesmo povo. — Vou propor ao Lula que se lance um concurso nacional, agora, em 2008! Vamos escolher uma nova letra!

 

A que decoramos tornou-se pura decoreba, reclama Genésio. Pouquíssimos estão cientes do que realmente diz o texto de Joaquim Osório Duque Estrada, poeta romântico de limitados recursos, que ainda teve a cara-de-pau de usar dois versos da Canção do exílio de Gonçalves Dias: “Nossos bosques têm mais vida, / Nossa vida mais amores”...

 

No início, um verbo enigmático: Ouviram. Mas quem ouviu o quê, e de quem ouviu? Ouviram do Ipiranga. O Ipiranga falou alguma coisa? E o que se ouviu? O brado retumbante de um povo heróico... O povo todo gritou?

 

Esse grito tem a ver com o brado guerreiro. A pátria há de ser adorada, idolatrada. Será? E o filho da pátria deve estar disposto a morrer nos campos de batalha... Mas essa atitude não tem mais nada a ver com os dias de hoje. Sangrar pela pátria? Não seria mais inteligente aprender a viver na pátria, e a conviver com as outras pátrias? Por que o Hino se presta a elogiar a guerra? Terra mais garrida? Por que tem garras afiadas, talvez? E o que fazer com esse bendito lábaro que ostentas...?

 

Genésio não aceita que esse impávido colosso fique deitado em berço esplêndido. Aliás, gigante dentro de um berço é cena estranhíssima. Trata-se de um bebê gigante? E de um bebê que está deitado eternamente?

 

“Florão da América” é demais da conta, queixa-se Genésio. Um florzão, é isso? A imagem de um país-ornamento não diz nada aos ouvidos contemporâneos. Seríamos ainda um enfeite a ser contemplado, paisagens, céus azuis? Não estaria na hora de atualizar um pouco esse quadro, industrializá-lo, informatizá-lo? Nossos blogs têm mais links...

 

Genésio sugere que o novo Hino incorpore também um tom de denúncia. Por que não lembrar aos brasileiros que hoje nossos bosques têm menos vida?

 

Esse Genésio tem cada uma...

 

 

Gabriel Perissé é doutor em Educação pela USP e escritor.

Web Site: www.perisse.com.br

 

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