Um estranho no ninho da Europa conservadora

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A mesma crise econômica que derrotou muitos governos social-democratas europeus acaba de derrotar um governo de direita e o socialista François Hollande passará a conviver com governos conservadores: a poderosa Alemanha, o Reino Unido, a Itália, a Espanha, Portugal, Suécia, Holanda e Polônia, entre outros.

 

Como presidente da França, ocupará papel de destaque na liderança da Europa, que vem sendo desempenhada por seu país e a Alemanha. Ele é mais um social-democrata do que um socialista, não vai estatizar empresas. No entanto, suas principais posições não deixam de ser revolucionárias no contexto europeu.

 

Defender a substituição da austeridade pelo crescimento como a grande prioridade implicará pelo menos num choque de opiniões com a Alemanha, de Angela Merkel, principalmente, pois é desse país que vem a maior parte dos recursos necessários à sobrevivência da Comunidade Européia, mas também de David Cameron, líder do Reino Unido, o terceiro “grande” do continente.

 

É certo que Merkel já concede certo espaço a medidas desenvolvimentistas e que Hollande não descarta a austeridade, apenas a põe num segundo plano.

 

Mas, enquanto Hollande quer a reforma do Tratado de Lisboa, no qual 25 países concordaram em adotar duras regras financeiras, Merkel não admite modificações.

 

Seria apressado dizer que a vitória penderá para “where’s the money ” porque boa parte da Europa dá sinais de mudar para o lado francês.

 

Nas eleições municipais italianas de junho, os candidatos pró-crescimento têm amplas chances de êxito, pois as duras medidas do governo tecnocrata de Monti vêm provocando grandes manifestações de protesto, com apoio da sociedade.

 

Nas eleições da Grécia, os partidos radicais de esquerda e de direita anti-austeridade tiveram grandes votações e torna-se difícil a continuidade do governo conservador-socialista, que aceitou os sacrifícios impostos pelo establishment europeu. A eventual impossibilidade de se formar um novo governo poderá forçar novas eleições, com resultados incertos.

 

Nas recentes eleições municipais no Reino Unido, o Partido Trabalhista combateu o arrocho decretado pelo governo conservador e venceu. Obteve 38% dos votos, contra apenas 31% dos adversários. O Partido Liberal, que apóia os conservadores, teve uma grande derrota: caiu de 23%, nas eleições anteriores (nacionais), para 16%.

 

Seus membros sentem-se desconfortáveis com a participação no governo, à qual atribuem a derrota, e exigem reformas que não são do agrado do Partido Conservador. Embora as próximas eleições sejam só em 2014, uma crise da aliança com os liberais pode forçar a queda do governo Cameron e eleições antecipadas, com a provável vitória dos trabalhistas, anti-austeridade.

 

Por fim, na própria Alemanha, segundo as pesquisas, a coalizão de centro-direita do governo deve sofrer uma derrota nas eleições regionais do estado do Schleswig-Holstein.

 

Todos esses fatos podem amaciar Merkel e levá-la a aceitar, senão a reforma do Tratado de Lisboa, pelo menos a adoção de algumas medidas de estímulo ao crescimento.

 

Em política externa, a maioria dos analistas não vê muita diferença das idéias de Hollande em relação à linha de Sarkozy.

 

É certo que o socialista declarou-se a favor dos dois estados na Palestina, mas, teoricamente, nem Netanyahu se diz contra. São preocupantes suas declarações de que a segurança de Israel é prioritária e a Europa e o mundo não podem aceitar um Irã com bombas  nucleares.

 

Embora seja justo que se queira Israel seguro, é estranho Hollande esquecer os interesses palestinos, aprovados pela ONU, de um Estado independente nas fronteiras de 1967.

 

Embora seja aceitável considerar-se indesejável um Irã militarmente nuclear, o mesmo deve ser dito a respeito de Israel, o que Hollande não fez.

 

No entanto, é prematura a idéia de que a França socialista continuará seguindo o diktat da Casa Branca. Hollande já afirmou que os 3.300 soldados franceses deixarão o Afeganistão até o fim deste ano e não em fins de 2013, como Obama deseja.

 

Além disso, o Partido Socialista Francês não deve ser confundido com, por exemplo, o Partido Trabalhista dos tempos de Tony Blair.

 

Embora tenha importantes figuras pró-Israel como Strauss-Kahn, a maioria dos seus parlamentares e, mais do que isso, dos seus quadros históricos é favorável a teses como a libertação da Palestina, o fim dos assentamentos, o desbloqueio de Gaza e um acordo justo com o Irã.

 

De qualquer maneira, Hollande nunca se igualará a Sarkozy, que se comportou na arena internacional como um feroz falcão. Foi ele o principal responsável pelo ataque desastrado à Líbia de Kadafi; votou contra o reconhecimento do Estado palestino na ONU; destacou-se nas ameaças de intervenção militar no Irã; seu ministro das Relações Exteriores, Juppé, é o mais ardente defensor da intervenção militar na Síria, entre outros atos e posições fiéis aos EUA.

 

Por fim, o próprio Richard Prasquier, presidente do CRIF, lobby israelense francês, reiterou grandes preocupações de que a presidência de François Hollande viesse a apoiar a esquerda anti-Israel.

 

A postura política internacional da França socialista começa a se delinear em 23 de maio, em Bagdá, quando será discutido o programa nuclear iraniano.

 

Luiz Eça é jornalista.

Website: Olhar o mundo.

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