Estados Unidos: o marasmo social em tempos de eleição presidencial

 

A despeito do ritmo pouco acelerado, a candidatura de Mitt Romney consolidou-se no Partido Republicano. Todavia, seu único contendor de fato nas prévias, Rick Santorum, havia obrigado-o a incursionar por vias bem conservadoras, a fim de legitimar-se perante uma parcela minoritária, mas chamativa, do eleitorado interno: os chazeiros.

 

O vigor dos adeptos do ‘Partido do Chá’ decorre de pregação concernente à necessidade de recuperar os valores supostamente originais da pátria, assinalados no último quartel do século XVIII através de vários documentos, entre os quais o da Declaração de Independência.

 

Nesse sentido, à medida que o país hoje em dia se distancia mais e mais do marco político dos pais fundadores, ele incursiona em uma via inexorável de decadência, visível interna e externamente – duas malfadadas guerras seriam a prova cabal do declínio.

 

No plano interno, apesar de ser o povo com o maior produto interno bruto do mundo, o governo não consegue mais assegurar a sua própria população serviços sociais adequados. A infra-estrutura física ainda é inexcedível, porém há um hiato significativo em termos de qualidade de vida, representado, por exemplo, no acesso à educação e saúde, mesmo básicas, para boa parcela da população, especialmente a dos mais desvalidos.

 

No final do século XX, o governo Ronald Reagan decidiu resgatar a política tributária aplicada ao tempo de Warren Harding (1921-1923): corte de impostos para a classe média alta e para a alta. A justificativa era a mesma invocada naquela distante década: menos taxação, mais investimentos, portanto mais empregos. Com o tempo, mais consumo e consequentemente maior arrecadação.

 

Desta maneira, tal medida estabeleceria um longo ciclo virtuoso na economia. No mundo real, isso não aconteceu. Nos anos 20, uma portentosa onda de especulação espraiou-se e o resultado seria a crise de 1929. A consequência dela seria a Grande Depressão, o que possibilitaria a ascensão dos democratas à Casa Branca, a partir de 1933.

 

A datar de então, houve a necessidade emergencial de formulação de políticas econômicas anticíclicas – componentes do New Deal - voltadas para a contenção do déficit social e posteriormente para sua reversão. Década e meia depois, o país deteria a maior classe média do globo, em torno da qual se encontrava cerca de 80% da população.

 

A desmobilização do Estado do bem-estar social se iniciou na virada da década de 60 para a de 70, em decorrência dos progressivos déficits orçamentários, ocasionados principalmente pelos gastos com a Guerra do Vietnã.

 

Naquela altura, os europeus ocidentais, recuperados da devastação da II Guerra Mundial, haviam ultrapassado a qualidade média de vida dos norte-americanos – logo depois, o I Choque do Petróleo provocaria o começo da desarticulação de suas próprias redes sociais.

 

Nos anos 80, a redução de impostos por republicanos não ocasionou novo desajuste econômico, malgrado o baque das bolsas em outubro de 1987, mas também a população americana não assistiu a uma nova fase de inclusão social, após a subida ao poder dos democratas em duplo mandato ao longo da década de 90, com Bill Clinton.

 

No último decênio do novo século, os republicanos jogaram a última cartada com o propósito de vitalizar a economia: novamente, diminuir tributos. A ineficiência republicana manifestar-se-ia no derradeiro ano do governo George Bush com a crise de 2008, sem que governo algum de país desenvolvido tenha até o momento superado as adversidades econômicas por ela provocadas.

 

Em 2012, ano de eleição presidencial na Rússia, Alemanha (indireta), França e Estados Unidos, nenhum grande partido político nominalmente progressista logrou oferecer programa socialmente consistente para anular a desestruturação sócio-econômica – na retórica, os socialistas franceses têm sido bastante arrojados.

 

No caso estadunidense, os democratas acomodaram-se. Pouco têm a oferecer ao eleitorado, a não ser uma modesta reforma no setor da saúde, inspirada de certa maneira na gestão republicana de Massachusetts na primeira metade da década passada. Curiosamente, o idealizador dela é o atual candidato republicano à Casa Branca: Mitt Romney.

 

Portanto, a eleição presidencial de novembro não oferece boas perspectivas para os norte-americanos. Ao mesmo tempo, os movimentos sociais tentam recuperar sua capacidade de articulação, como visto com o Ocupar Wall Street, mas ainda são insuficientes para se oporem à crise de maneira duradoura e consistente.

 

Virgílio Arraes é doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da mesma instituição.

Comentários   

0 #1 RE: Estados Unidos: o marasmo social em tempos de eleição presidencialMaurício 03-05-2012 13:32
Ron Paul ainda está no páreo e nada é dito sobre o mesmo na mídia convencional, e ao que parece aqui também...
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