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O extermínio de MCs na Baixada Santista Imprimir E-mail
Escrito por Danilo Cymrot   
Sexta, 27 de Abril de 2012
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Na madrugada da última quinta-feira foi assassinado em São Vicente, litoral de São Paulo, MC Primo, de 28 anos, um dos cantores de funk da Baixada Santista de maior sucesso. Foi o quarto assassinato de um artista de funk na Baixada Santista em três anos. Na realidade, o quarto assassinato em 48 meses. Em abril do ano passado, o MC Duda do Marapé, de 27 anos, foi assassinado com nove tiros. Em abril de 2010, foram assassinados na Praia Grande o MC Felipe Boladão e o DJ Felipe da Praia Grande, ambos de 20 anos, quando se dirigiam a um baile funk de Guarulhos.

 


Estes trágicos episódios se somam a inúmeros casos de violência praticados contra artistas do funk. Entre os mais emblemáticos, pode-se citar o de Kátia, a compositora do “Rap da felicidade”, talvez o maior sucesso da história do funk, que ganhou todas as classes sociais com versos como “eu só quero é ser feliz, andar tranquilamente na favela onde eu nasci”. Acabou assassinada, esquartejada e queimada na favela. Por sua vez, Betinho da Força do Rap, compositor de “Cachorro”, música gravada por Mr. Catra que retrata a corrupção policial e que foi censurada por supostamente fazer apologia ao crime, foi executado pela polícia, segundo o DJ Marlboro e Mr. Catra, em uma operação na favela do Acari.


As mortes desses ídolos do funk evidenciam o descaso ou até a cumplicidade do Estado. Permanecem invisíveis, em virtude da origem social dos MCs e do fato de o funk ser constantemente associado à criminalidade, apesar de mobilizar milhões de jovens, por todo o país, em busca de lazer. Responsabiliza-se a vítima por seu destino, sugerindo-se apressadamente que sua morte é resultado esperado (merecido?) de seu envolvimento com traficantes. 

Associando as vítimas a traficantes, no entanto, o Estado simplesmente “lava suas mãos” e dá o caso como encerrado, sem fazer as devidas investigações sobre a autoria dos crimes ou se comprometer a investir em políticas preventivas. Não se pode esquecer que, apesar de serem os principais destinatários dos estereótipos de delinqüentes, os jovens negros das periferias e favelas são, de acordo com o Mapa da Violência 2011, o setor que apresenta a maior vulnerabilidade à vitimização violenta.


MC Primo, candidato a vereador em São Vicente em 2008, alcançou projeção nacional com a música “Diretoria” e foi acusado de cantar “proibidão”, um gênero de funk que supostamente faz apologia ao crime. Muitos MCs já foram presos sob a acusação de cantar “proibidões”. Alegam que simplesmente retratam a realidade das periferias e favelas, documentando seus valores e abordando de forma crua e direta assuntos como conflitos entre facções criminosas pelo domínio do tráfico de drogas, corrupção e violência policial, racismo, miséria, prisão, desemprego etc. Cantam em primeira pessoa porque, se não vivem aquela realidade, pelo menos conhecem de perto alguém que a viva. 

Neste ponto, o “proibidão” seria uma música de protesto, uma “arma” de denúncia, de visibilidade social. É a favela cantando sua própria história para a favela. Quem não vive aquele cotidiano, portanto, pode se assustar com a violência das letras. MCs acusados de fazer apologia ao crime sustentam que o sistema penal é seletivo. O problema não é a música, mas quem a canta. Por outro lado, não é a descrição da realidade incômoda que deve ser silenciada, mas a realidade em si que deve ser mudada. As medidas repressivas costumam ser contraproducentes. Ao adotar em relação ao funk apenas uma política criminal, em detrimento de uma política cultural, o Estado aproxima ainda mais MCs da área de influência de traficantes. 

De qualquer forma, neste momento não é o “proibidão” que deve ser julgado, mas as autoridades que reprimem essa manifestação cultural e os assassinos de mais um jovem MC. Na letra de “Diretoria”, MC Primo profeticamente canta a revolta do “moleque sofredor” que “se jogou nas ondas da maldade” e teve seu castelo desabado. Considera-se um “guerreiro”, pede para que Deus “olhe por nós”, e deixa o seu recado final: “venderam os meus pensamentos, mas não calaram a minha voz”.

 

Danilo Cymrot é mestre e doutorando em Criminologia pela Universidade de São Paulo.

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Última atualização em Qui, 03 de Maio de 2012
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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