O nó da questão agrária

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Enquanto a briga intestina para derrubar o presidente do Senado toma o centro do debate político, após quase esgotar-se o pretexto do caos aéreo, só nos resta retomar algum problema que valha a pena discutir, como é o caso da questão agrária. Num passado não muito distante, pensava-se que o monopólio da terra, o latifúndio, era um empecilho para o desenvolvimento do capitalismo no Brasil. Sua solução, através da reforma agrária, tinha um conteúdo ao mesmo tempo democrático e capitalista.

 

Democrático, porque pretendia democratizar a propriedade da terra. Capitalista, porque abriria as condições para o pleno desenvolvimento das forças produtivas e das relações de produção capitalistas. Porém, entre os anos 1950 e 1980, o capital desenvolveu-se sem liquidar o latifúndio nem democratizar a propriedade territorial. Modernizou as propriedades latifundiárias e a agricultura, criou o agronegócio e quase liquidou totalmente com os antigos tipos de camponeses sem-terra, expulsando-os e proletarizando-os.

 

Há, porém, setores que não se deram conta disso. Chamam o agronegócio de "modelo da grande monocultura", sob a hegemonia do "velho latifúndio". Desconsideram as mudanças que o capitalismo introduziu na agricultura brasileira. Ignoram que o agronegócio, ao degradar o ambiente, não ter perspectiva de gerar empregos, ou impor um trabalho "de total exploração", como no corte da cana, relaciona-se muito mais com o atual estágio e modelo do capitalismo, do que com o "velho latifúndio".

 

Não foi o "velho latifúndio", apesar de todas as suas mazelas, que destruiu 100 milhões de hectares de Cerrado para o plantio intensivo da soja. Também não foi o "velho latifúndio" quem iniciou a destruição da franja sul da floresta amazônica, implantando grandes pastagens para a criação extensiva de gado. Como não foi o "velho latifúndio" que usou e abusou dos agrotóxicos, poluindo os homens, os solos e as águas. Quem fez tudo isso foi o "novo latifúndio capitalista", juntamente com novos produtores agrícolas capitalistas, não latifundiários, que formam o chamado agronegócio.

 

O agronegócio é constituído de capitalistas, tanto latifundiários, quanto médios. E nem todo agronegócio é formado por monoculturas. Ele é responsável pela produção das commodities agrícolas, como soja, açúcar, milho e café, que podem conformar monoculturas em algumas regiões, mas não em todo o país. E também produz as commodities tanto para exportação, quanto para o mercado interno. Além disso, ainda produz boa parte dos demais alimentos consumidos no mercado interno.

 

Portanto, pode-se até colocar num mesmo saco o "agronegócio", o "velho latifúndio", as "monoculturas", a "pouca geração de empregos", a "total exploração do trabalho", a "produção do etanol", a "degradação do ambiente" e a "concentração da terra". Mas isso não vai desatar o nó em que se transformou a questão agrária no Brasil.

 

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

 

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