A culpa é do torcedor

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Sem a mesma repercussão que teve a morte de dois torcedores do Palmeiras nos dias 25 e 26 de março deste ano, antes de um clássico contra o Corinthians, em São Paulo, dois torcedores no Recife e um em Goiânia morreram no último fim de semana nos arredores dos estádios, vítimas de confrontos entre torcidas. Em momentos como esse, aumenta o alarme sobre um suposto crescimento da violência no futebol. Mas, se ir aos estádios está realmente mais perigoso, a pergunta que fica é: por que as ações dos governos e gestores do futebol costumam sempre ser tiros n’água, quando não contribuem para o aumento da violência?

 

Não sou especialista em segurança pública. Falo como torcedor que vai a estádios de futebol desde 1999, num tempo que ainda era possível tomar bebida alcoólica no campo, comprar ingresso a R$ 3,00 e, nos grenais, Beira-Rio e Olímpico ficavam metade azul, metade vermelho. Havia brigas entre torcidas organizadas, assaltos na saída do estádio e, eventualmente, mortes. Tudo como hoje. E, se essa situação aparentemente não mudou, se não piorou, é de se perguntar por que nos últimos anos a culpa toda foi colocada no torcedor e qual foi o resultado dessa política.

 

Várias medidas foram implementadas na última década, tendo como pano de fundo a necessidade de levar as famílias aos estádios e, assim, diminuir a violência. Os ingressos ficaram caríssimos, proibiu-se a bebida alcoólica e diminuiu-se a presença da torcida adversária nos clássicos – em alguns estados, já existe clássico de torcida única. Dentro do estádio, é possível admitir que a violência tenha diminuído, ainda que sejam freqüentes os episódios de pancadaria nas arquibancadas, inclusive com participação ativa das polícias militares. Mas as mortes seguem acontecendo e espantando a todos nós.

 

Um levantamento recente do jornal Lance mostrou que a imensa maioria das mortes relacionadas ao futebol foi provocada não por uma lata de cerveja, mas por armas de fogo. Nos casos recentes noticiados, invariavelmente houve a presença de torcidas organizadas, às vezes marcando brigas com antecipação, via internet. Não é preciso ser especialista em segurança pública, portanto, para saber que eu e você, que não pertencemos a torcidas organizadas nem nos deslocamos para o estádio portando armas de fogo, não somos os responsáveis pela violência.

 

Em situações limite, as direções dos clubes anunciam a suspensão das organizadas, uma medida inócua e hipócrita, porque os integrantes continuam freqüentando os estádios, as organizadas voltam a funcionar mais dia menos dia e os dirigentes seguem se beneficiando do apoio franqueado por elas. Enquanto isso, a Polícia Militar tem dado mostras de despreparo em grandes eventos, onde acaba agindo no sentido não de evitar, mas de muitas vezes provocar a violência – escoltas que são criatórios de violência, uso de cavalos para “organizar” filas na entrada do estádio e a própria redução das torcidas adversárias nos clássicos estão aí para comprovar.

 

O torcedor comum é tratado como bandido, enquanto os potencialmente criminosos estão se esfaqueando por aí sem maiores objeções das autoridades. Para não fazer terra arrasada, pode-se destacar a experiência dos Juizados Especiais Criminais (Jecrim), embora a maioria das ocorrências registradas seja por uso de maconha. Mas a falta de foco é tanta que, há alguns anos, um promotor quis proibir as faixas provocativas carregadas por aviões em Porto Alegre, porque incitariam a violência.

 

Para mostrar como a segurança nos estádios é equivocada e, no caso da Polícia Militar, ela não está onde deveria realmente estar, costumo contar um episódio pessoal – e cada um tem uma história semelhante para contar. Na saída de um Gre-Nal no Beira-Rio há alguns anos, os colorados foram sendo ‘escoltados’ pela Brigada Militar até a esquina da José de Alencar com a Padre Cacique. Houve um momento em que os policiais formaram uma espécie de corredor polonês, obrigando, sem nenhum motivo aparente, a multidão a passar por espaço estreito, ladeado por homens de armas na mão. Havia mulheres, mães com seus filhos, famílias inteiras. Quem questionasse a situação, ouvia dos brigadianos as gentilezas costumeiras.

 

Eu, assim como dezenas de colorados, imprudentemente tomei o ônibus T5, que sai das proximidades do Beira-Rio e passa em frente ao Estádio Olímpico, que na saída daquele Gre-Nal estava cheio de gremistas que haviam voltado do jogo ou que estavam ali pelos bares da avenida Azenha. Quando o ônibus passou por ali, choveram pedra e pedaços de pau. Não havia nenhum policial fazendo a segurança necessária por ali – talvez porque boa parte do contingente estava ameaçando crianças na saída do Beira-Rio.

 

A violência nos estádios não tem causas diferentes da violência urbana – até porque os estádios estão dentro das grandes cidades –, os responsáveis são mais ou menos fáceis de identificar, mas a maioria das ações de prevenção e repressão tem tido como único foco o torcedor, considerado o único culpado pela violência nos estádios. Se houve sucesso nesta política, pode ter sido a elitização dos estádios, mas certamente não a diminuição da violência no futebol.

 

Daniel Cassol é jornalista e editor do site sobre futebol sul-americano Impedimento

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