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A Copa do Mundo e o Dólar Imprimir E-mail
Escrito por Venâncio Guerrero   
Quarta, 11 de Abril de 2012
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Depois de mais de 50 anos, o povo brasileiro receberá novamente a Copa do Mundo de futebol, esporte reconhecidamente paixão nacional. Agora, vamos poder ver nossa seleção canarinho, vencendo argentinos, espanhóis e alemães. Não? Este deve ter sido um sentimento comum de todo brasileiro, depois de saber que a Copa do Mundo aconteceria no Brasil. Porém, passado algum tempo, os brasileiros começam a temer o futuro e sentir as pressões de receber este presente da FIFA (de grego?). Além de não termos uma seleção competitiva, praticante de um futebol burocrático e ruim, há uma preocupação com os efeitos colaterais da festa, principalmente com seus custos.

 

Quando falamos em Copa do Mundo, pensamos logo em alegria, diversão e cultura. Pelo menos aqui, deveríamos descansar da chatice do mundo do dinheiro, isto é, dos assuntos de economia. Porém, desde que a Copa virou manchete no Brasil, cada vez mais vem tornando-se matéria de economia. O futebol e o mundo do dinheiro caminham juntos, não apenas pelos salários milionários dos jogadores, mas também pelas conseqüências sociais dos grandes projetos – impulsionados pela Copa do Mundo – sobre emprego e custo de vida.

 

Ela chega ao Brasil em um momento ímpar da economia mundial, de crise financeira global. Mas o que as duas coisas têm a ver? Resumirei, sem entrar em detalhes: os Estados Unidos tiveram problemas, aonde? Eles investiram em uma bolha que não tinha consistência e explodiu, extinguindo milhões de empregos.

 

Como assim? Bolha na economia? Os estadunidenses inventaram uma fábrica de fazer lucro, com o título de propriedade de suas casas emprestavam dinheiro, com este faziam mais casas, com estas novas casas faziam mais empréstimos. Os banqueiros vendiam estes empréstimos e faziam lucros. Uma hora a bolha estourou, pois alguém devia pagar os empréstimos, isto é, a máquina de fazer dinheiro era uma máquina de ilusões.

 

O leitor pode pensar: “Você ainda não explicou a relação entre Crise e Copa do Mundo”. Peço-lhe calma para acompanhar meu raciocínio. A crise dos Estados Unidos fez com que todo mundo quebrasse, pois a economia de lá requisitava a economia mundial. Em 2007-08, também houve desemprego no Brasil. Porém, era necessário criar novos sonhos, sonhos de emprego, produção e lucros. Qual é a nova árvore de dinheiro? Apareceu Paulo Coelho, Lula e Xuxa para trazerem estes novos sonhos: a Copa do Mundo.

 

Disseram: a Copa do Mundo vai trazer a felicidade geral da nação, bem como novos investimentos e dólares. Aqui, o progresso virá com o consumo e dinheiro estrangeiro, desde o turismo até os dólares para investimentos no país da Copa. Também vamos construir novos estádios, o que vai gerar empregos, investimentos e renda. Novos salários estimularão o comércio e os lucros. Ah (...) aqui todo mundo ganha, o operário que vai trabalhar, o garçom que vai trabalhar, e assim vai. Não apenas isto, o Brasil que já está criando emprego vai aumentar o consumo em geral e vamos importar mais. Aqui, o mundo inteiro ganha. Pois, se nossa economia é tão pujante, os banqueiros que perderam seus dólares com a crise dos Estados Unidos, agora, vão investir na máquina de fazer dinheiro com festa, futebol e estádio. A Copa do Mundo e o Brasil podem ajudar a superar a crise dos Estados Unidos.

 

Aqui, começam os nossos problemas. Da mesma forma que inventaram sonhos de dinheiro fácil com as hipotecas americanas, estão inventando dinheiro fácil com futebol e estádio. Para fazer estes estádios são necessários terrenos vazios, mas e se não os tivermos? Fazemos! Ora bolas! Somos criativos, se criamos jogadas fenomenais no futebol, inventamos aqui também. Como? Tiramos as famílias daquelas casas, assim, não apenas encontramos mais terrenos para os estádios, como criamos novas pessoas que vão necessitar de casas. Quem lucra com o mercado imobiliário só tem a ganhar, mas quem vive de aluguel ou quer financiar sua casa própria só tem a perder. Começamos a ver que alguns ganham e outros perdem com a Copa do Mundo. Os milhares de operários – que estão engajados na construção dos estádios – deixam de trabalhar para construir casas, o que eleva ainda mais o preço das moradias.

 

Além da habitação que vai ficando mais cara, as outras coisas vão tendo seus preços aumentados. Pois todos vão querer ganhar com este tempo de bonança. O dinheiro público – que poderia ir para educação e saúde – está sendo drenado para a construção destes estádios, além de desviado para corrupção.

 

Novas linhas de metrô estão sendo construídas. As casas localizadas nestes lugares com nova infra-estrutura vão ficando caras. As pessoas que vivem ali vão ter de morar mais longe, pois fica difícil pagar aluguel. O custo de vida aumenta, não apenas porque tudo está mais caro, e temos de pagar mais para viver, comer e morar, como, também, custa mais para deslocar-se na cidade, para ir trabalhar e se divertir.

 

Pelo menos nos divertiremos vendo os jogos, a seleção de Neymar vencer a Espanha. Mesmo aqui o brasileiro comum não vai ganhar nada. Não apenas a seleção de Mano Menezes e Andrés Sanchez vem mostrando que vai ser difícil ganhar dos espanhóis, pois não apresenta um futebol desejável e a Espanha vem encantando com Xavi, Iniesta e companhia, como os jogos vão ser muito caros. Não haverá meio ingresso para ninguém, e o brasileiro vai ter de começar a economizar agora, e mesmo assim, poderá ver apenas um jogo. Quem sabe possamos nos divertir com um Coréia do Norte x Canadá?

 

As ilusões vão se dissipando. A Copa do Mundo não vai gerar o desenvolvimento proposto. Ela já vem demonstrando seus efeitos maléficos: remoções, aumento do custo de vida, apenas com a expectativa de seu acontecimento. E depois? Depois que os estádios estiverem feitos, os jogos acabarem e os estrangeiros forem embora? Quem vai empregar os milhares de operários dos estádios? Que faremos com estes novos estádios?

 

Os dólares que entraram com os investimentos dos banqueiros estrangeiros vão embora, pois a festa acabou e agora é hora de contar os lucros. O brasileiro verá a Copa pela televisão e com medo de reviver um novo maracanazo, mas agora sem brasileiros nos estádios. Assim, a Copa não é para o brasileiro comum, para os 99% da população. Será feita para o “1%” ganhar o que sempre ganhou. O pobre trabalhador arcará com seu custo. A Bolha e a Ilusão começarão a dissipar-se. Não apenas a bolha da Copa, mas outras poderão estourar, porém, são outras histórias.

 

Venâncio Guerrero é economista, torcedor do Palmeiras e, infelizmente, da Seleção Brasileira.

Blog: Antes da Tempestade.

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Última atualização em Quarta, 11 de Abril de 2012
 

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