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Comissão da Verdade sem ódio Imprimir E-mail
Escrito por Paulo Metri   
Terça, 03 de Abril de 2012
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Após anos debaixo do tapete, o debate rompeu acirrado e emocional, até porque se trata de vidas humanas. O imbróglio não devia nunca ter surgido lá atrás, nos anos 1960 e 1970, mas, tendo surgido e estando a Comissão da Verdade engasgada, só resta enfrentar a questão com a maturidade requerida para um povo que almeja melhores condições de vida, com satisfação de valores e ideais, inclusive o de uma democracia plena.

 

Pisando em ovos, lembro que Eric Hobsbawm, na “Era dos extremos”, diz que a dicotomia capitalismo versus comunismo nem foi a coisa mais importante do século XX, estando fadada, com o passar do tempo, a cair na vala comum da História. Alguns anos mais e os jovens não saberão o significado desta dicotomia, menos os estudantes de História. Mas isto não apaga o fato de que, por causa desta dicotomia, muitos sofreram e morreram.

 

O professor José Luís Fiori, no artigo ‘Henry Kissinger e a América Latina’, diz o seguinte: “Neste sentido, pode-se dizer que Henry Kissinger seguiu rigorosamente as recomendações de Nicholas Spykman com relação ao controle desta região geopolítica (Argentina, Brasil, Chile, Uruguai e Paraguai). Sua única contribuição pessoal foi a substituição da ‘guerra externa’, proposta por Spykman, pela ‘guerra interna’ das Forças Armadas locais contra setores de suas próprias populações nacionais. Porém, mesmo neste ponto Kissinger não foi original: recorreu ao método que havia sido utilizado pelos ingleses na Índia durante 200 anos. E em todos os lugares em que a Grã-Bretanha dominou Estados fracos, utilizou elites divididas e subalternas para controlar as suas próprias populações locais”. Por esta afirmação, não fomos nem autênticos.

 

Os comunistas eram realmente favoráveis ao partido único, ao centralismo democrático e à aceitação da subordinação do Partido Comunista Brasileiro a organismo da estrutura de poder da União Soviética. Contudo, o grupo que tomou o poder em 1964 alijou da política não só os comunistas, que eram uma parcela pequena dos que foram retirados da vida pública e não representavam grande ameaça. A verdade é que foram alijados todos os opositores à ruptura do processo democrático ocorrida. Os que tomaram o poder em 1964 podem ter tido a preocupação de não deixar um grupo autoritário tomar o poder pela força, mas eles próprios tinham interesse em reter o poder para si, tanto que permaneceram por 21 anos.

 

Sem justificar a ruptura democrática, mas, com o intuito de facilitar a compreensão, deve ser dito que golpes militares eram uma tradição brasileira, desde o início do século passado, só terminada em 1985. Os militares de então precisavam saber que quem tem o monopólio das armas tem o dever de só usá-las quando o povo determinar. Na prática, só se pode contar com os representantes do povo para se saber o momento de usar as armas. Erram aqueles que acreditam que o fato de a Tradição, Família e Propriedade (TFP) ter colocado um número expressivo de pessoas em passeatas em 1964 significava que o povo queria a deposição do presidente João Goulart. É verdade que aqueles que estavam nas passeatas queriam, contudo, certamente não representavam a totalidade da população brasileira.

 

O que, hoje, pode-se fazer com relação àquela época, 1964 e os anos posteriores? Em primeiro lugar, lamentar muito a nossa incompetência política, a incapacidade de resolver pelo diálogo nossas diferenças e a estreiteza de objetivos de determinados grupos. Todos nós fracassamos e muito. Muitas vidas foram obstruídas, e não falo só dos que morreram, por causa desta irracionalidade coletiva. Fora isso, agora, existe um passivo do período, que precisa ser destravado para a vida poder continuar. Sugiro que se traga luz à escuridão do período, até porque todo ser humano tem o direito de enterrar seus mortos.

 

Não foi a maior esperteza do mundo a decisão de pessoas comuns quererem combater um Exército regular. Assim como não foram nada honrosos os métodos utilizados pelo mais forte. Nada pode explicar torturas e assassinatos, que não forem em defesa própria. A assimetria das forças dos dois grupos era gritante. Os civis que pegaram em armas foram incrivelmente ingênuos, porém muito corajosos. A maioria destes lutou somente por um ideal, eventualmente equivocado, mas um ideal. Se a forma escolhida para atingir o ideal foi sem diálogo e autoritária, é lamentável. Nesta época, existia infelizmente grande luta não democrática pelo poder. De qualquer forma, é preciso reconhecer o idealismo que os movia, algo que algum fenômeno da era atual fez desaparecer. Suponha-se que a tese de os comunistas irem tomar o poder cometendo agressões seja verdadeira. Então, para evitá-los, o grupo salvador cometeu assassinatos e torturas preventivos. Não faz sentido.

 

No entanto, o que muitos que reivindicam o início urgente da Comissão da Verdade ainda não captaram é que o militar da ativa, de hoje, não pensa muito diferente do militar que estava na ativa em 1964. Se isto não fosse verdade, qual seria a razão para explicar que uma turma recente da AMAN escolheu como patrono o General Emílio Garrastazu Médici? Os militares passam toda vida ativa profissional treinando e esperando por uma guerra, que todos nós queremos que nunca chegue. A tarefa deles é grandiosa, pois, para enfrentar um inimigo com a possibilidade de perda da própria vida, é preciso ter grande consideração pela sociedade defendida.

 

Os militares da ativa não externam seus pensamentos por imposição legal, porém, como qualquer ser humano, têm posições, guardadas internamente. Desta forma, têm opinião sobre várias questões, tendo que optar também quanto ao divisor de águas, ou seja, optar pelo capital ou o trabalho. Influenciará neles, como em qualquer cidadão, a carga hereditária, a formação intelectual e o meio. Sendo os condicionantes do mundo civil e do militar iguais, os conjuntos de civis e militares teriam parecidas distribuições de posicionamento político. Entretanto, salvo engano, pois tenho um número restrito de informações, vejo concentração de posições conservadoras no meio militar. Assim, chega-se a uma desconfiança, que necessita de mais pesquisa para tornar-se uma conclusão: “A formação militar atual e do passado recente, adquiridas nas escolas militares, tende a moldar pessoas conservadoras”.

 

Sabe-se que o treinamento militar tem certas características que o transformam em um treinamento especial, e tem que ser assim mesmo, pois queremos militares que saibam nos defender. A curva de distribuição de posições políticas entre os brasileiros, de uma forma geral, não se repete no subgrupo dos militares. Assim, o treinamento especial deve continuar sendo especial, mas não precisaria ser gerador de militares conservadores. Ou, dito de outra forma: “Forças Armadas compostas de militares conservadores e progressistas, mesclados, iriam agir diferentemente na defesa do Brasil de outras forças formadas só com conservadores?”. Ou, ainda: “Há necessidade de se ser conservador para se ser um bom militar?”. Friso que, quando digo “progressistas” e “conservadores”, pressuponho, como condição preliminar, que também são democratas.

 

Em outro viés de análise, não é possível ter militares que imaginem nossas Forças Armadas como auxiliares de forças estrangeiras. Pode ser que irão ter aliados conjunturais, mas sempre com a desconfiança de que estes podem vir a mudar de posição e não serem mais aliados. Assim, a formação e o treinamento devem expelir todo militar entreguista. É incompatível ser militar e ser entreguista, por uma razão simples: qualquer militar deve estar umbilicalmente ligado a seu povo. Os militares que estiveram no governo entre 1964 e 1985, com raras exceções, eram nacionalistas, o que é um mérito.

 

Os que querem punição pelos atos do passado, argumentando que ela inibiria novos candidatos a desferir golpes de Estado, acertam por quererem criar um exemplo, mas continuam a alimentar a cadeia de ódio. É preciso pensar em ações construtivas, afinal de contas, os militares brasileiros são nossos, e não de outro povo. Talvez se devam penalizar menos os efeitos, como os ocorridos em 1964, e buscar atuar mais na causa, representada pela formação e treinamento militar.

 

Sou favorável a que a Comissão da Verdade seja instituída, principalmente porque a verdade deve ser sempre mostrada. Inclusive, todas as verdades que possam existir. Entretanto, o processo de busca da verdade deve ser equilibrado, no sentido de, ao buscá-la, não esbanjar ódio. Nestas situações, o fácil é o ódio dominar os envolvidos, mas, se isto acontecer, a sociedade perderá muito. Sugiro que esta Comissão não se transforme em tribunal de recomendação de penas a culpados, o que é duro de ser atendido por quem sofreu com o período.

 

Mal comparando, neste exato momento, lembro-me do filme “Invictus” sobre um acontecimento na vida de Mandela, após ter chegado ao poder. Tendo passado uma boa parte da vida no cárcere, graças à opressão dos brancos, ele interferiu para que o time de rugby do seu país fosse formado por todos os atletas brancos, que já praticavam este esporte há tempo e eram muito bons, contrariando o desejo da maioria negra. Assim, ele buscou a integração entre brancos e negros, sem favorecimentos e com reconhecimento do mérito. Seguramente, Mandela não era um revanchista.

 

Tenho um sonho. Representantes destes dois grupos estão juntos, em uma audiência com a presidente Dilma. Lá, dizem, em conjunto, que a presidente não deve se dobrar aos interesses estadunidenses, nesta sua próxima visita a este país, por maiores que sejam as pressões. Lembram a ela que vão querer o petróleo do Pré-sal para mover a economia dos Estados Unidos e também para usufruir o gigantesco lucro que ele proporciona. Dizem a ela que a sociedade brasileira está toda unida e ela pode contar com a sociedade ao nos defender lá fora. Os membros do Departamento de Estado estadunidense irão ficar surpresos e apreensivos com esta unidade nunca antes vista. Trata-se de algo novo e prejudicial para os interesses externos daquele país. Faltam só compreensão e grandeza de cada grupo para o sonho se transformar em realidade.

 

Paulo Metri é conselheiro da Federação Brasileira de Associações de Engenheiros e do Clube de Engenharia.

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