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Cordão da Mentira escancara o passado e o presente do namoro da Folha com a ditadura Imprimir E-mail
Escrito por Lino Bocchini   
Terça, 03 de Abril de 2012
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No último domingo, cerca de 300 pessoas protestaram em frente à Folha de S. Paulo, na alameda Barão de Limeira, centro de São Paulo. O segundo maior jornal do país era um dos alvos do Cordão da Mentira, manifestação convocada por mais de 30 entidades – metade delas ligadas ao teatro, à música e à literatura. A idéia era condenar de forma bem-humorada os apoiadores do regime militar brasileiro e, nas palavras dos organizadores, denunciar as heranças da época que persistem, como a violência policial.

 

O ato emprestou o nome do primeiro de abril, dia seguinte à data do golpe militar, ocorrido em 31 de março de 1964 e começou em frente ao Cemitério da Consolação, onde o pessoal se concentrou às 11h30. Dali o Cordão passou pela rua Maria Antônia, a sede TFP, o elevado Costa e Silva (o “Minhocão”, que leva o nome do presidente que baixou o AI-5) e parou no Grupo Folha. A empresa foi escolhida porque o jornal apoiou a ditadura não apenas editorialmente, mas também materialmente, cedendo carros do jornal para agentes do regime e mantendo delatores em cargos de direção, principalmente da Folha da Tarde. Dali o ato seguiu para a Cracolândia e terminou na sede do antigo Dops, na rua General Osório. Praticamente ignorado pela auto-proclamada “grande imprensa”, o ato mereceu uma nota minúscula e omissa da Folha. O boicote motivou esse texto.

 

O Cordão da Mentira foi o terceiro protesto de inspiração parecida em menos de uma semana. Em 27 de março aconteceu o “escracho público” de torturadores, atos-surpresa com batucadas, gritos e pichações na porta de ex-torturadores em sete capitais. Em 29 de março manifestantes foram ao Círculo Militar do Rio e projetaram fotos e vídeos de mortos e desaparecidos na parede do prédio, onde oficiais aposentados promoviam uma comemoração dos 48 anos do golpe, que essa gente insiste em chamar de “revolução” – a polícia reagiu com bombas de gás e cassetetes.

 

Os atos pipocam no momento que a Comissão da Verdade, aprovada pelo Congresso e sancionada pela presidente Dilma em novembro passado, está prestes a ser instalada. A promessa é que seus integrantes sejam indicados pela presidência nas próximas semanas. Sem poder de julgar ou condenar (por impedimento da Lei de Anistia, promulgada em 1979 e confirmada pelo STF em 2010), a comissão se propõe a investigar violações de direitos humanos ocorridas entre 1946 e 1988 no Brasil – o período inicial era de 1964 a 1988, mas pressões militares levaram a ampliação do período, prejudicando o foco de ação.

 

Nada mais que a verdade?

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Estive no Cordão da Mentira apenas na parada da Folha, acompanhado de minha mulher e meu filho de um ano. Atendi ao chamado da organização e fui com uma fantasia – de diretor da Folha. Levei um cartaz feito a partir da sobrecapa do jornal do dia. A peça do departamento de marketing do jornal trazia apenas a manchete “1º de abril, dia da mentira” e, no pé da página, após um grande espaço em branco, a frase “Folha: nada além da verdade”.

 

Piada pronta é pouco. Fiz duas versões do cartaz (frente e verso da placa que carreguei). De um lado vinha escrito bem grande no espaço branco: “Nunca apoiamos a ditadura!”. Do outro, cinco frases: “Somos Imparciais! / Não censuramos blogs! / Não criamos a ‘Ditabranda’! / Não emprestamos carro para a Ditadura! / Merecemos meia hora grátis na TV Cultura!” – lembrem-se de que era Dia da Mentira…

 

A meu lado, mais de 300 manifestantes pararam bem na entrada principal do “Jornal do Futuro”, protegida por uma parede de seguranças. Tinha carro de som e faixas. Cartazes com os rostos de desaparecidos no período militar foram jogados em cima do enorme logo na calçada. Paredes e asfalto foram pichados com dizeres como “Folha Fascista”, “FAlha de S. Paulo” e “Ditadura é Ditadura”. Um ator puxou um coro repetido por todos, aos berros: “Extra! Extra! Extra! A Folha de São Paulo não informa!”. Atores de terno e gravata e máscaras de gorila encenaram de forma cômica um recente editorial do jornal que defendia a Lei de Anistia – criticada por militantes dos direitos humanos por impedir a criminalização de torturadores.

 

Foi impressionante ver isso tudo bem ali nas barbas do mais arrogante jornal do país, que faz propaganda com atores-leitores de gola rolê ouvindo jazz. Foi o que de mais importante aconteceu no Cordão da Mentira, e não digo isso porque fui censurado e estou sendo processado pelo jornal juntamente com meu irmão. Não mesmo, e explico.

 

História velha nada!

 

O Dops não existe mais, Costa e Silva já morreu e o Mackenzie e a TFP, apesar de influentes, não têm 1% do alcance da Folha. Mais: estamos falando de um jornal que tenta te convencer diariamente de que é imparcial, seja por meio de publicidade, editoriais, ombudsman ou entrevistas de seus jornalistas. É um jornal que apoiou a ditadura, como já dissemos. E isso não é uma suposição. É fato comprovado, documentado e admitido pela própria empresa. O Grupo Folha, principalmente por meio da Folha da Tarde, emprestava carros para torturadores, mantinha funcionários delatores dentro da redação para entregar colegas e possuía linha editorial de apoio irrestrito ao regime militar. No comando desse aparato midiático de apoio à ditadura estava Octávio Frias de Oliveira. Nos anos 1990, quando trabalhei na Folha da Tarde, o “Velho Frias”, como era conhecido, era famoso até entre os office-boys por seu extremo conservadorismo – só pra citar um exemplo, era amigo do peito de Paulo Maluf. Após a morte do patriarca, em 2007, assumiram formalmente o grupo seus filhos Luiz (que cuida da parte administrativa) e Otavio Frias Filho, o Otavinho, que comanda a redação da Folha.

 

Há quem ache que o jornalão dos Frias está perdendo poder e influência. Está nada. É verdade que nos anos 1990 edições dominicais turbinadas com promoções chegaram a um milhão de exemplares, e hoje a tiragem média não chega a 300 mil por dia. Há dois anos a Folha já não é mais nem sequer o maior jornal do país – perdeu o posto para o mineiro Super Notícia – e na capital paulista leva um baile do Estadão, que vende 55% a mais – tudo dado do IVC (Instituto Verificador de Circulação). Acontece que a Folha ainda é o jornal que mais pauta toda a mídia nacional, das rádios de Manaus às revistas gaúchas. É também uma entidade que amedronta, com a qual poucos topam brigar ou sequer se indispor. E é ainda dona do UOL, onde qualquer notícia destacada é mais lida do que em qualquer jornal da América Latina. Se não bastasse, acaba de ganhar um programa de meia hora no horário nobre de domingo na estatal TV Cultura. Ou seja, a Folha segue forte e influente sim. Muito mais do que deveria.

 

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Você também paga esse pato

 

Você pode se perguntar: “E eu com isso? Esse cara fala assim só porque tá brigando com o jornal”. Nada disso. Você também se dá mal. A ligação umbilical que a empresa e sua direção mantinham com a cúpula do regime ditatorial brasileiro não é algo simples, que ficou no passado e não traz reflexos na Folha de hoje. O jornal faz campanha atrás de campanha publicitária vendendo-se como moderno, bacana, inovador. Preocupa-se em apagar seu passado, mas não consegue, no presente, sequer manter uma atitude coerente com sua publicidade. E aí nem precisamos citar a censura a que estou submetido com meu irmão, a mando da Folha. O caso da “Ditabranda”, de 2009, é bem mais grave e merece ser rapidamente relembrado.

 

Para sustentar como o regime militar brasileiro tinha sido “light”, um editorial do jornal usou o termo “Ditabranda” ao referir-se à nossa ditadura. A reação dos leitores foi forte, teve até protesto na porta da Folha. Qual foi a reação do jornal? Primeiro publicou uma nota apócrifa chamando os respeitados professores universitários Maria Victoria Benevides e Fábio Konder Comparato de “cínicos e mentirosos” e, depois do protesto, publicou nota assinada por Otávio Frias Filho com o título “Folha avalia que errou, mas reitera críticas”, dizendo primeiro que “todas as ditaduras são igualmente abomináveis” para depois chamar Benevides e Comparato de “democratas de fachada” e “inquisidores”. Finesse, não? Toda vez que Otavinho assina um texto, sua máscara de teatrólogo intelectualizado cai por terra, e sua agressiva face de dono de jornal vem à tona – outro exemplo recente foi uma carta em que ele citou esse blog e a mim.

 

O ponto é: não dá pra um jornal do porte da Folha esconder que apoiou com afinco o que de mais podre tivemos na nossa história recente. E não estamos falando de uma discussão filosófica, de um embate de idéias. Estamos falando de gente que dedurava para torturadores seus próprios jornalistas, estamos falando de diretores que autorizavam agentes da repressão a usar os carros da empresa para levar “suspeitos” rumo a sessões de torturas que incluíam choques nos genitais, espancamentos, estupros, terror psicológico e, muitas vezes, acabavam em morte. Desculpem a crueza, mas é sempre bom lembrarmos claramente do que estamos falando. E não faltam testemunhos. Como hoje a empresa segue na mão das mesmas pessoas, é ingenuidade achar que esse pensamento não interfere no jornal que chega à sua casa todo dia e que também pauta parte do que você assiste na TV.

 

Estamos numa democracia, e eles podem falar o que quiserem, mas o “Jornal do Futuro” tornou-se o exemplo mais bem acabado de como precisamos de novos protagonistas em nossa imprensa, em nosso país. Falta mais jornal, mais revista, mudar o sistema de concessões de rádios e TVs, mais e melhores blogs e portais independentes de internet. O que temos ainda é muito pouco. Que venham novos e mais fortes Cordões da Mentira, e que a Folha só saia de seu percurso quando fizer sua comissão da verdade interna e assumir suas escolhas atuais, desistindo de nos empurrar esse discurso hipócrita de que é moderna e imparcial.

 

PS: A ligação histórica da Folha com a ditadura e seus reflexos no jornal ainda hoje são o tema do próximo programa Desculpe a Nossa Falha na PósTV, quinta-feira (05/04), 22h. Divulgaremos detalhes em breve.

 

Esse artigo é dedicado ao amigo e blogueiro Eduardo Guimarães, que passa por um difícil momento familiar e foi o mentor do protesto contra a “Ditabranda”, que levou centenas de pessoas à porta da Folha em março de 2009.

 

Lino Ito Bochinni é jornalista, trabalhou na Folha de S. Paulo e hoje é editor da Revista Trip. Ao lado do irmão Mario Bocchinni, criou o blog satírico ‘Falha de S. Paulo’, retirado do ar após ordem judicial obtida pelo jornal. Hoje, mantém novo blog sob o nome Desculpe a Nossa Falha, onde este artigo foi originalmente publicado.


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Última atualização em Quarta, 04 de Abril de 2012
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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