Produção camponesa e “agro-social” em direção ao socialismo

 

Em agosto de 2012, escrevi artigo aqui no Correio da Cidadania, no qual defendia que a reforma agrária tradicional não mais serviria para a construção de novas relações sociais no campo e nas cidades (Para além da Reforma Agrária).

 

Neste artigo dizia que no período pré-64 a defesa da reforma agrária era fundamental para o combate ao latifúndio improdutivo e, neste sentido, setores interessados em construir novas relações sociais se empenharam na luta por tal reforma. Foi o caso da Ligas Camponesas, dos comunistas e mesmo de setores das igrejas, além da parte de partidos políticos, como setores da esquerda do PTB.

 

No período militar, o Brasil conheceu a famigerada “modernização conservadora”, em que houve crescimento na economia sem a conseqüente melhoria social. Pelo contrário, tivemos arrocho salarial, incentivo à migração campo-cidade e ditadura. Tais políticas geraram o agronegócio, que vem sendo quase que a “política oficial para o campo” de todos os governos pós-ditadura.

 

Lula trazia uma esperança de mudança, mas transformou a luta camponesa em “política social” e continuou dando todo o apoio ao agronegócio. Neste sentido, a reforma agrária tradicional deveria ser repensada pela esquerda, até porque o capitalismo não está mais merecendo os créditos das reformas.

 

Como poderíamos analisar este novo momento? O Brasil tornou-se uma das maiores economias capitalistas do planeta. Assim, não mais precisamos ver nos objetivos para a reforma agrária o “aumento da produtividade no campo”. Não mais necessitamos “desenvolver forças produtivas” e nem precisamos de “mais capitalismo”. Pelo contrário, precisamos “de menos ou de nenhum capitalismo”. Assim, o momento seria de colocarmos a questão agrária objetivando o embate com a sociedade do capital, visando começar a construção de uma sociedade socialista.

 

Mas temos uma economia capitalista que se apóia no agronegócio. De acordo com dados do IBGE (2011), o agronegócio representa 22,74% do PIB nacional e, enquanto a economia nacional se expandiu em 2,7% como um todo, o agronegócio expandiu-se em 5,73% em 2011. E temos de considerar que o agronegócio mantém uma atividade agrícola direcionada para a exportação, o que agrada, e muito, os governos capitalistas brasileiros. Diante deste quadro, pontuo algumas lutas para a articulação da esquerda, visando o enfrentamento com o capitalismo agrário:

 

1)                No campo político, perder todas as ilusões com os governos petistas. Inclusive a ilusão de “governos em disputa” ou “governos de composição contemplando direita e esquerda”. Os governos petistas se mostraram, até o momento, totalmente enquadrados pelo agronegócio e, portanto, a esquerda deve se unir na oposição a estes governos. Também devem ser abandonadas as ilusões de que seria possível a organização popular sem desmistificar estes governos.

 

2)                Reconhecer a existência do trabalhador assalariado no agronegócio e buscar alianças políticas com estes trabalhadores e os camponeses. Lembremos que, nos anos 1980, os chamados “bóias-frias” da cana tiveram importante papel político levando adiante greves históricas, ajudando a pôr fim à ditadura moribunda. Estes trabalhadores estão hoje bastante “invisíveis”.

 

3)                Defender o trabalhador camponês, não apenas com políticas sociais e bolsas, mas como um importe segmento social e econômico para o país como um todo. Não devemos apenas mostrar dados quantitativos, mostrando o quanto este trabalhador seria produtivo para produzir alimentos que consumimos no dia-a-dia, pois estes dados não mostram as dificuldades que este trabalhador enfrenta para produzir. Estes trabalhadores devem ter direito às tecnologias apropriadas e eficientes para que seu trabalho se torne mais produtivo e menos penoso. Deve usufruir do desenvolvimento da ciência e da tecnologia e não temer a modernização. O camponês deve produzir em larga escala, mas sua produção não pode se basear na extração da mais-valia absoluta por parte da sociedade do trabalho camponês. Ou seja, mais-trabalho a preços menores. O cooperativismo deve ser a base do trabalho camponês.

 

4)                As universidades e os institutos de pesquisa devem ser incentivados a desenvolverem pesquisas visando a produção agropecuária mais saudável, inclusive ouvindo a experiência dos agricultores. Assim, com o desenvolvimento da agropecuária ecológica, gradativamente os agrotóxicos serão eliminados. Todo o monopólio por parte da produção das sementes deve ser eliminado e proibido. Os governos, os movimentos sociais e políticos devem garantir o enfrentamento aos monopólios e grandes empresas.

 

5)                As populações indígenas, quilombolas e outras populações tradicionais devem ter suas terras demarcadas e suas culturas preservadas, se assim desejarem. O Brasil tem muita terra e estas legítimas demandas devem ser contempladas.

 

6)                O agronegócio deve ser gradativamente eliminado na sua forma atual. Mas, ao mesmo tempo, deve ser reaproveitado de outra forma, talvez um “agro-social”. Ou seja, deve-se eliminar a monocultura, incentivar a produção em larga escala da agropecuária saudável e sementes para o consumo interno. Estas propriedades devem ter o seu tamanho limitado. O alimento deve ser considerado bem essencial (mais do que o petróleo, por exemplo) e gradativamente estas unidades produtivas devem ser estatizadas. Teríamos assim, a convivência social do camponês e das produções sociais em larga escala. As experiências revolucionárias do século XX das “fazendas coletivas”, em seus erros e acertos, devem ser estudadas.

 

7)                Educação, cultura e lazer devem ser ampliados na perspectiva do trabalhador do campo. Não em oposição às cidades, mas integrados e respeitados em suas especificidades. O referencial do agronegócio não deve ser contemplado nestas questões.

 

***

 

Estas são questões iniciais que coloco para o enfrentamento do capitalismo no campo em seu atual estágio de desenvolvimento. Poderia colocar interrogação em algumas questões, mas deixo para o debate.

 

Antonio Julio de Menezes Neto é sociólogo, doutor em Educação e professor na UFMG.

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Comentários   

0 #2 AdendoRaymundo Araujo Filh 08-04-2012 13:58
A tentativa de um programa para as Esquerdas é louvável mas a meu ver, infrutífero, pois "as esquerdas" em grande parte (calculo hoje no Brasil 95%) as eleições parlamentares + a presidencial , ano passado) fazem parte é de um extrato elitizado aparelhado e corrompido, além de adepto de falcatruas explícitas e sem vergonhas.

Acho que o emaranhado de teorias e embates intelectuais longe do Povo, pirou muita gente....

Assim, caro prof. Julio, creio que o seu artigo não deve ser dirigido para "as esquerdas em torno de um programa unificado". Eu pelo menos não vou nem na esquina com "esquerdistas" que atacam o governo venezuelano, iraniano e cubano, ecoando as vozes e armas do capital, mesmo tendo as minhas críticas a estes regimes. Eu não ando no mesmo elevador político com gente que apóia estes governos "populares" Lula-Dilma-PT, pois pode faltar luz e eu ser assaltado por esta gente, sem poder fugir.

Assim, creio que esta tua proposta de Programa Unificado deve ser direcionada diretamente para os Trabalhadores a quem é destinado e, de preferência com uma cláusula de afastamento destes piriguetes ideológicos da "esquerda brasileira".

Pra isso, se permite esta ousadia, professor, os que trabalham nas instituições vão ter que sair de lá, em amplo movimento de alcançarem o Povo em seus lugares de trabalho e moradia, levando seus conhecimentos e acessos, mas sem fazer o que muitos fazem hoje, que não passa de uma verdadeira lavagem cerebral, eivada de idiotices aprendidas em mestrados e doutorados, iludindo o cidadão comum que, e é comum isso, apenas se hum,ilham se achando ignorantes, "frente a tanta sapiência", como eu já ouvi tantas vezes, em referência aos "doutores" da EMBRAPA, EMATERES, e que tais.

Se ainda há bons valores nestes institutos (e há, poucos mas há, o resto se burcratiza "esperando a morte chegar", como cantou Raulzito em Ouro de Tolo, eles deverão ser instados a saírem dos murros internos deste sistema corrompido, para trabalharem a tomada dos aparelhos públicos, pelo Povo organizado, mas aqui fora. Se chamarem o Povo lá para dentro, para "aprenderem a ciência atual e com os cientistas", é tiro n'água, por melhores que sejam as intenções.

Primeiro a Organização Popular, em seguida o Empoderamento Popular, depois, só depois disso, será possível mudar os Institutos além de acabar com uns tantos que prá nada prestam mesmo.
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0 #1 Agronegóciovanderlei 07-04-2012 12:02
CORRUPÇÃO EM FAMÍLIA
FILHO DO PRESIDENTE DOS BRASILEIROS VIROU MILIONÁRIO
27 de abril de 2009

http://www.pampalivre.info/filho_do_presidente_brasileiro_virou_milionario.htm


Lulinha filho do presidente que há 5 anos ganhava R$ 1500 acaba de comprar a fazenda fortaleza por R$ 47 milhões, Veja só que competência, logo depois de comprar, levou esta fazenda a ser a primeira a receber o certificado de exportação de carne para Europa.

Isso mesmo, o brasileiro Lulinha (Fábio Luis Lula da Silva), filho do Presidente dos brasileiros, que há 05 anos era subempregado do Zoológico em São Paulo, agora acabou de comprar a fazenda Fortaleza (de porteira fechada) pela simples quantia de R$ 47.000.000,00 (quarenta e sete milhões de reais).

O impressionante nesta trajetória de sucesso e rara inteligência é que de um salário de R$ 1.500,00 passou a proprietário, de uma vez só, de um patrimônio de 47 Milhões

A rara inteligência só acontece quando o pai é presidente, Nas regiões do Para de Redenção, Marabá e Carajás, ele comprou de Benedito Mutran Filho, herdeiro do conhecido Bené Mutran (homem forte da Castanha) varias fazendas totalizando R$ 100 milhões. Sócios do negócio: Duda Mendonça e Daniel Dantas.
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