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ISSN 1983-697X

Editorial

Uma PEC contra o povo


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Ainda sobre Bo Xilai e o retorno da Revolução Cultural Imprimir E-mail
Escrito por Fernando Marcelino   
Sexta, 23 de Março de 2012

 

O que explica a imprensa oficial evitar qualquer comentário sobre o afastamento de Bo Xilai da liderança do Partido Comunista (PCC) em Chongqing?

 

Para aqueles que se arriscam a dizer algo na mídia ocidental, é comum encontrar primeiramente uma grande dificuldade de caracterizar o próprio Bo Xilai. Ele costuma ser chamado ao mesmo tempo de “conservador”, “radical”, “reformista”, “esquerdista”, “populista” e “neomaoísta”. A confusão é geral.

Claro que é muito difícil saber o que está realmente acontecendo, mas podemos especular um pouco mais.

 

Líder de um município com mais de 30 milhões de habitantes, com uma área maior que a Bélgica e a Holanda juntas, vivendo um amplo crescimento econômico, como os 16% em 2011, Bo Xilai era candidato a um dos noves lugares do Politburo do PCC, a cúpula do poder na China, cuja composição será decidida no XVIII Congresso do Partido. Uma nova geração, encabeçada pelo atual vice-presidente, Xi Jinping, assumirá a liderança do país para a próxima década. Tudo parecia correr bem, mas aconteceu um revés extremamente inesperado nessa transição que parecia “pacífica e harmônica”. Um dia depois de o primeiro-ministro chinês Wen Jiabao ter advertido que "uma tragédia histórica como a Revolução Cultural poderá voltar a acontecer", num alerta que parece visar a "cultura vermelha" sob a liderança de Bo Xilai, foi anunciado seu afastamento do comando do PCC em Chongqing. Ficou claro que os ecos da Revolução Cultural ainda soam na China.

 

Uma primeira lição sobre a queda de Bo Xilai é que na China ainda existem conflitos em torno do legado de Mao Zedong. O melhor exemplo desta linha política foram os chamados à mobilização popular com canções maoístas (“chang hong”), o envio de milhões de  mensagens por celular com citações do livro vermelho de Mao, fazendo retornar o fantasma revolucionário da Revolução Cultural dos anos 60. Até as propagandas foram substituídas por “programas vermelhos” com novelas narrando histórias revolucionárias. Como disse Bo, o sistema de valores socialistas centrais é o rejuvenescimento da alma, a essência da cultura socialista avançada e determina a direção, para frente, do socialismo com características chinesas.

 

Dessa forma, progressivamente começou a se expandir o medo de parte de certos setores do partido de que o “modelo Chongqing” pudesse despontar como uma alternativa de desenvolvimento chinês futuro. Com sua ênfase no retorno dos valores revolucionários de Mao, Bo se tornou o alvo daqueles que estavam descontentes com a campanha anticorrupção e seus excessos relacionados ao legado da Revolução Cultural. Assim, ele fez muitos inimigos dentro e fora do partido, dentre a oposição de Hu Jintao. Talvez uma das razões dessa oposição de Hu Jintao a Bo tenha aumentado quando, em junho de 2011, Bo enviou a Pequim centenas de cantores das “músicas vermelhas”, o que foi considerado uma afronta ao Comitê Central. Afinal, o dirigente de Chongqing abandonaria o tom de reforma e abertura de Deng Xiaoping para abarcar uma política calcada na revolução cultural maoísta?

 

Agora a coisa se torna mais complexa. O estilo "neomaoísta" do ex-líder de Chongqing possui muitos admiradores. Alguns dos sites dessa corrente neomaoísta foram bloqueados na internet, como Utopia e a Bandeira de Mao. Moradores de Chongqing que costumavam se reunir em praças para cantar canções revolucionárias foram instruídos pela polícia a abandonar o hábito para não “incomodar” os vizinhos. O calendário das canções vermelhas foi cancelado. Um dos principais intelectuais neomaoístas, Sima Nan, teve bloqueada sua conta no weibo, a versão local do twitter. A ironia é que a censura agora atinge músicas consagradas pelo próprio Partido Comunista e seu líder máximo, Mao Zedong.

 

Será o fim do “modelo de Chongqing” ou o retorno da Revolução Cultural?

 

Leia também:

 

Sobre a queda de Bo Xilai e a tempestade política na China

 

Fernando Marcelino é economista.

 
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