‘Movimentos sociais, partidos de esquerda, todos, estamos a reboque do grande capital e do Estado brasileiro’

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Como em poucos momentos da história, o Brasil vive um agitado período de lutas políticas em torno do acesso e domínio de suas terras, com intensas pressões sobre as legislações ambientais e fundiárias. Enquanto o Senado aprova a proposta ruralista de um novo código florestal, a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara aprova a PEC 15, que transfere do Poder Executivo ao Congresso o poder de decisão sobre a homologação de terras indígenas e quilombolas.


Em uma análise do atual contexto político, Gilmar Mauro, dirigente do MST, afirma ao Correio que o momento é parte das tradicionais ofensivas capitalistas, que visam avançar sobre novas fronteiras econômicas e suas férteis terras - ao mesmo tempo em que a esquerda se encontra em grande refluxo, de modo “que apenas age reativamente, corre atrás do prejuízo após a direita tomar iniciativas políticas, em geral, perdendo”.


A condução da política econômica focada nos interesses do ‘agrobusiness’ exportador, altamente desestimulante para os investimentos produtivos e industriais (estão aí os dados de nossa ‘desindustrialização para comprovar), corre ao lado de uma reforma agrária a cada dia mais excluída da pauta política. Gilmar Mauro refuta, no entanto, as críticas que sugerem passividade do movimento em relação ao governo petista, lembrando que o MST está “no mesmo patamar de mobilização da época de FHC, com 80, 90 mil famílias acampadas pelo país”.


Realista, ele ressalta a importância da atual jornada de luta camponesa, incluindo as de outros movimentos, mas prefere não alimentar ilusões de grandes mudanças e conquistas populares para o ano. De todo modo, afirma que há muito tempo o movimento camponês não convergia em torno de pautas e cobranças políticas similares.


Como exemplo do atual momento crítico que vivemos, cita a determinação de Dilma Rousseff de não permitir desapropriações que custem mais de 100 mil reais por família. “Ou derrotamos e destruímos essa proposta da Dilma, ou não tem mais assentamento no centro-sul do país”. Com esse novo e desconhecido golpe que se pretende aplicar à reforma agrária – em um país que gasta 48% de seu orçamento com juros da dívida e 0,22% com reforma agrária -, fica notório que a troca de ministro do Desenvolvimento Agrário tende a ter valor prático nulo, como lembra Gilmar Mauro.

 

Correio da Cidadania: As grandes questões ambientais, agrárias e sociais parecem tratadas de modo cada dia mais raso pelos governantes e pela mídia. Ao mesmo tempo, é notória a efervescência com que o país aparece aos olhos do público, com os números de um agronegócio galopante e com o interesse das multinacionais e grandes corporações em entrar no país, comprando terras e investindo pesado, basicamente, na especulação financeira. Como este cenário vai se associar, daqui em diante, com uma das demandas sociais mais básicas em nosso país, a reforma agrária?

 

Gilmar Mauro: Toda a lógica apresentada não é nova, mas antiga, e evidentemente aprofunda uma característica histórica de nosso país, a de ser exportador de produtos primários. Faz parte de uma lógica econômica de tentar saldos positivos na balança comercial para se equilibrar no balanço de pagamentos, coisa que por sinal tampouco tem se conseguido. Embora eventualmente o Brasil tenha saldos positivos no balanço comercial, o déficit em conta corrente é altíssimo, fruto de um processo de endividamento externo especulativo, sugando anualmente bilhões e bilhões dos cofres públicos e, conseqüentemente, da população.

 

Com isso, a reforma agrária está fora de pauta, fora da agenda. A lógica do modelo econômico é o desenvolvimento do agronegócio. Mesmo em relação à pequena produção, vimos a proposta do governo, no sentido de propor o empreendedorismo rural, uma espécie de “agronegocinho”, integrado aos grandes grupos econômicos, às grandes agroindústrias, ou produzindo para o mercado interno.

 

Dessa forma, dentro de tal política do governo, podem ser integrados mais uns 2 milhões de pequenos agricultores, da chamada agricultura familiar, para dentro deste modelo. E o restante, a grande maioria, mais uns 2, 3 milhões de famílias, mais os assentamentos, fica com o Bolsa família, compensações sociais etc., mas nenhuma perspectiva dentro de tal modelo.

 

Concluindo, a reforma agrária agora depende de um debate político da sociedade. Se a sociedade quiser dar esse uso que o Brasil vem dando à terra, à água, aos recursos naturais, não cabe mais a reforma agrária. Se a sociedade brasileira quiser consumir esse tipo de alimento, não precisa mais de reforma agrária.

 

Se quisermos dar outro uso à água, ao solo, aos recursos naturais e comer outro tipo de comida, a reforma agrária é um dos projetos modernos a serem implantados no país, o que evidentemente exige um novo modelo agrícola. É o debate que a sociedade precisa abrir.

 

Correio da Cidadania: Os números apresentados em relação à reforma agrária em 2011 denotam, portanto, realmente, que o governo Dilma pouco se empenhará no sentido de promovê-la?

 

Gilmar Mauro: São números pífios! Como sempre foram os resultados da reforma agrária no Brasil, que praticamente inexiste. Aliás, nunca existiu reforma agrária. Nós temos é política de assentamento. E cada vez menor. Os números de 2011 refletem esse cenário, de uma política de assentamento de menor intensidade, com menos recursos, nenhuma prioridade do governo aos resultados. É o reflexo da política que vem sendo aplicada no último período político.

 

Não acredito que a presidente Dilma se empenhe na questão. Ao menos é o que tem mostrado, ficando muito mais preocupada com a macroeconomia e sua atual lógica de condução, calcada na exportação de commodities agrícolas.

 

Aliás, todo o desenvolvimento econômico brasileiro está alavancado em três eixos: a demanda externa dos últimos 10 anos por commodities agrícolas e minerais, que as valorizou e valorizou também as próprias terras; em segundo lugar, grandes injeções de recursos públicos, principalmente via BNDES, patrocinando fusões de grandes empresas que se transformam em transnacionais - injeções realmente grandes financiadas pelo povo brasileiro; e em terceiro lugar, os investimentos que o Estado tem feito em grandes obras de infra-estrutura, dos megaeventos, do PAC.

 

Outro ingrediente que sustentou o crescimento dos últimos anos foi o endividamento das famílias brasileiras, com a abertura do crédito para consumo, a antecipação do consumo, tanto de automóveis como da linha branca. Mas esse modelo econômico tem limites, todo mundo sabe disso. Não dá pra prever a data e a hora da crise, mas ela virá, certamente.

 

Portanto, dentro do atual cenário macroeconômico (a real preocupação do governo Dilma), a reforma agrária, claro, está fora das prioridades.

 

Correio da Cidadania: A propósito, em face do atual troca-troca de ministros em um governo de ‘composição’, cada dia mais refém do fisiologismo parlamentar e das imposições midiáticas, qual o significado da troca do ministro do Desenvolvimento Agrário realizada nesses dias, em que Pepe Vargas ocupou o lugar de Afonso Florence?

 

Gilmar Mauro: Do ponto de vista pessoal, não conheço muito o Pepe Vargas, porém, ele deve entender mais de reforma agrária que o anterior, que não entendia nada.

 

Mas, de toda forma, sendo objetivo na avaliação, não vai se alterar muito o cenário da reforma agrária. Não é a pessoa, um só ministro, que vai mudar isso. É a política de governo, e quem a determina é a Dilma.

 

Prova disso é a determinação da Dilma de não fazer assentamento onde a terra custe mais de 100 mil reais por família. Ora, com o preço das terras em São Paulo, no Sul, no Centro-Oeste, não haverá mais desapropriação. Com isso, a presidente altera a Constituição, a qual estabelece que a terra que não cumpre sua função social deve ser desapropriada para fins de reforma agrária, dando lugar a uma medida administrativa, econômica, estabelecendo que o custo por família assentada não pode passar de 100 mil reais. Portanto, não tem mais desapropriação no centro-sul do nosso país.

 

Correio da Cidadania: Houve informações de que o principal fator a convencer Dilma de trocar o ministro foram informes da ABIN (Agência Brasileira de Inteligência) acerca da grande insatisfação do movimento, e o medo de sua radicalização. Elas são verídicas?

 

Gilmar Mauro: Que há uma grande insatisfação do MST, e também de outros movimentos, é evidente. Claro, com um ministro da reforma agrária que não entendia do assunto, nada se encaminhava.

 

Mas a insatisfação não era só com essa pessoa, e sim com o fato de que o Brasil usa 48% de seu orçamento para juros e amortizações da dívida e somente 0,22% para reforma agrária. Esse é o motivo de insatisfação.

 

Em termos de radicalização, o movimento apenas continua fazendo lutas, estamos no mesmo nível em que estávamos no governo FHC, com 80, 90 mil famílias acampadas em todo o Brasil. Houve um período, logo que o Lula entrou, quando o povo achava que ele avançaria na reforma agrária, que as famílias acamparam em maior número. Mas hoje temos em torno de 80 ou 90 mil famílias.

 

Continuamos fazendo ocupação, luta, sem ilusão de que vão resolver o problema da reforma agrária. Porém, não deixaremos de fazê-lo, pois é preciso colocar o debate para a sociedade, para outros setores, categorias.

 

Fora isso, também vivemos um momento de poucas lutas sociais. Aquelas que ocorrem são bastante corporativas, calcadas em reivindicações econômicas, seja do movimento sindical, seja do movimento social. Um cenário difícil para todo o movimento social, a esquerda, os setores progressistas. Mas o nosso movimento vai continuar fazendo o que sempre fez. O ingrediente principal é ampliar o debate no conjunto da sociedade.

Correio da Cidadania: Mas o que pensa desse expediente de infiltração de agentes do Estado nos movimentos sociais?

 

Gilmar Mauro: Quanto à participação da ABIN, deve ser falta do que fazer, deve faltar serviço lá. Mas, historicamente, sempre fizeram isso conosco. Não só os serviços internos, como também a CIA. Portanto, estamos vacinados com relação a eles, além de ser de fato uma falta do que fazer.

 

Porém, não acredito que a mudança do ministro seja resultado de tal diagnóstico da ABIN. Essa insatisfação já foi mostrada por vários setores em diversas reuniões. Inclusive, estamos conseguindo reunir uma pauta comum entre vários movimentos sociais, algo inédita no último período, com a participação de Contag, Fetraf e outros movimentos, na perspectiva de realizarmos um encontro nacional de movimentos camponeses, uma espécie de congresso camponês no Brasil. E é a primeira vez, pelo menos nos últimos dez anos, que conseguimos juntar todo esse povo numa pauta em comum.

 

Sendo assim, acredito muito mais nesses fatores do que nas informações vindas de agências como a ABIN.

 

Correio da Cidadania: De toda forma, a Abin e outros órgãos do Estado também dedicam seus serviços a investigar as milícias do campo contratadas pelo latifúndio, promotoras de permanente violência, chegando muitas vezes a assassinatos, ou sua atuação reitera o caráter de classe e de discriminação social do Estado?

 

Gilmar Mauro: Aí tem uma questão importante a ressaltar. Historicamente, sempre houve violência, ora com o viés mais coercitivo, ora desenvolvendo processos de geração de consensos na sociedade. E acredito que o atual momento seja de intensificação de ambos. Um momento de ampliação dos instrumentos de produção de consenso social, e aumento também do uso de instrumentos coercitivos, basta observar os últimos despejos ocorridos em São Paulo.

 

Mas a tentativa deles, do Estado e da sociedade de classes, é produzir consensos na sociedade que justifiquem processos de coerção; o episódio Cutrale foi isso, a entrada nos morros do Rio de Janeiro também, e assim por diante.

 

Este é o momento que vivemos, e não é uma particularidade brasileira, e sim uma realidade mundial. À medida que o capitalismo enfrenta dificuldades econômicas e entra em crise, é evidente que o aparelho repressivo dos Estados entra em ação, não sendo diferente o caso brasileiro.

 

Correio da Cidadania: Como você avalia a recente jornada de lutas das mulheres camponesas e a importância deste tipo de mobilização encabeçada por elas? A marcha das mulheres prenuncia algo para a jornada de lutas do Abril Vermelho?

 

Gilmar Mauro: Nós iniciamos no começo do ano um processo de luta com várias ocupações. Na jornada em solidariedade aos companheiros do Pinheirinho, levamos 11 ônibus com militantes, quatro caminhões de comida. Agora, colocamos em mobilização por todo o Brasil milhares de mulheres. Em São Paulo, houve paralisações em todas as regiões, envolvendo centenas e centenas de mulheres. E vamos continuar assim na jornada de abril, que estará calcada fundamentalmente na reforma agrária. Ou a gente destrói e derrota essa proposta da Dilma de que terra acima de 100 mil reais por família não deve ser desapropriada, ou a política de assentamentos continuará fora da pauta política.

 

Assim, estamos iniciando bem o ano, com as forças que temos, com as dificuldades que temos, as quais, como eu disse, são dificuldades do conjunto da esquerda e do movimento social. Mas acho que será um ano de muitas lutas, muitas mobilizações, e principalmente, na minha expectativa, de construções políticas com outros setores da classe trabalhadora, a exemplo do que está acontecendo com o movimento camponês.

 

Portanto, acho este um ano promissor em termos de lutas sociais, principalmente dos movimentos do campo. E outros setores estão dando os mesmos indicativos, como os professores. Na semana passada, acabou a jornada nacional do MAB, com participação do MST, e agora vem o Abril Vermelho, uma jornada que espero que seja bem grande em nível nacional.

 

Correio da Cidadania: Qual o significado deste tipo de manifestações na atual conjuntura política e econômica, dominada pelo entrelaçamento do capital fundiário ao financeiro, com a agricultura praticamente refém de grandes grupos econômicos? Que conseqüências efetivas se podem esperar destas manifestações neste contexto?

 

Gilmar Mauro: Eu não crio ilusões. O capital é o capital, na indústria, no comércio, no sistema financeiro ou na agricultura. A agricultura é só mais um espaço para a sua valorização. E o capital investe muito no Brasil porque está ganhando muito, e vai continuar a fazer isso.

 

Já a minha falta de ilusão é em relação às manifestações da classe trabalhadora. Creio que a grande maioria das mobilizações da classe trabalhadora se resume a reivindicações de ordem econômica. O movimento sindical em geral e a classe trabalhadora em geral lutam por aumento de salário, Participação nos Lucros e Resultados (PLR) etc. Claro que há outras reivindicações também, significativas, porém, ainda bastante calcadas na luta econômica.

 

Assim, acredito que o próximo período ainda será marcado por esse tipo de mobilizações, aliás, no mundo inteiro. As mobilizações na Europa são importantes, mas também não tenho dúvida de que estão calcadas nas importantes perdas sofridas pela classe trabalhadora no último período. Não está posta a luta pelo socialismo na Europa, por exemplo. Ao menos com força popular.  O caso do Oriente Médio, nos países árabes, é semelhante, pois são muito mais lutas democráticas do que anti-sistêmicas. O Brasil não foge à regra, as lutas são muito mais econômicas do que por mudanças políticas e anti-sistêmicas. Nesse sentido, ocorrerão mais lutas, até mais greves do que ultimamente, porque o Brasil ainda vive esse período, não tem pleno emprego, mas ainda tem muitas possibilidades.

 

De toda forma, creio que devemos nos preparar para um longo período. O próprio Plínio Arruda Sampaio (ex-presidente da Associação Brasileira da Reforma Agrária) já disse que temos de nos preparar para uma maratona. Não dá pra pensar em corrida de 100 metros. Eu vejo, tranquilamente, de maneira igual. Os momentos de luta da classe trabalhadora são esparsos, sazonais, às vezes sai só uma greve no ano, e com a luta bastante calcada no aspecto econômico.

 

Porém, enquanto existir capitalismo, a classe trabalhadora vai bater cartão de dia e de noite. Temos de ir nos fortalecendo em relação às organizações, movimentos. Não se trata de fortalecer indivíduos, fomentar mais divisões, e sim de fazer esforços em favor das organizações e lutas conjuntas, ainda marcadas pelo viés econômico, mas visando politizá-las, discutir os processos vividos. Em alguns cantos, o processo de politização é mais rápido, em outros, mais lento, mas existe o aprendizado coletivo, tanto em relação ao que é esse governo, ao que é o Estado, como à lógica do capital. Nesse sentido, muitas organizações sociais têm evoluído.

 

Correio da Cidadania: O que implicaria, na atualidade, e a seu ver, uma autêntica e renovada discussão sobre reforma agrária? Quais seriam, ao mesmo tempo, eventuais novas estratégias para levá-la a cabo?

 

Gilmar Mauro: Eu dividiria a tarefa em duas partes. A primeira é a da resistência. É importante segurar a bandeira em pé, isso é o fundamental. Em tempos de crise é mais fácil sair xingando todo mundo e começar a promover novas rachaduras, sendo que muitos setores da esquerda não conseguem falar com o conjunto da classe trabalhadora, voltando-se a elas mesmas e gerando uma digladiação interna que só gera fragmentação. E assim nem precisa de direita. Manter as bandeiras em pé e resistir a esse tempo histórico é fundamental.

 

Em segundo lugar, do ponto de vista estratégico, como já comentamos em parte, é preciso fazer um amplo debate na classe trabalhadora sobre o que é o modelo econômico. No nosso caso, o modelo agrícola, colocando em pauta o questionamento a respeito de quem nossas terras estão a serviço, a que custo isso tudo está sendo produzido, com a destruição ambiental, degradação da água, das reservas florestais etc., além do tipo de comida que nossa sociedade quer consumir. Tudo para promover um debate politizado de que é preciso pensar num novo modelo agrícola, que respeite o meio ambiente, produza alimentos, matérias-primas, empregos e condições de vida com novos paradigmas tecnológicos e produtivos.

 

Para fazer isso, evidentemente, não tenho ilusões, é preciso outro Estado. É preciso outro governo, e isso não depende só de nós. Aliás, para fazer reforma urbana também precisa de outro Estado, outro governo. Porém, tudo acaba recaindo na correlação de forças e avanço do conjunto de setores da classe trabalhadora, o que é o nosso desafio e também de toda a esquerda que acredita e quer mudanças profundas em nosso país.

 

Enfim, nesse tempo de resistência, é preciso continuar investindo na formação político-ideológica e rever a organização. Enfatizo a organização, pois, como a classe não vive lutando - quem trabalha vive trabalhando, e só luta todo dia quem não trabalha -, caímos no problema da importância da organização, com memória histórica, preparadora de novas lutas, formadora de novos militantes, inclusive com a tarefa da conspiração, no bom sentido, política da classe trabalhadora. É mais que necessário fortalecer as organizações sociais.


Correio da Cidadania: Na época da eleição de 2010, pouco antes da vitória de Dilma, você nos concedeu entrevista na qual reiterava que o Movimento dos Sem Terra não seria refém deste governo, a despeito de não haver tomado partido de nenhum candidato naquele momento. Você acredita que o movimento venha tendo posturas condizentes com essa afirmação?

 

Gilmar Mauro: Acredito que sim. O MST não é refém de nenhum governo e nem será, muito pelo contrário. Mas é preciso dizer umas coisas. Conversando com sindicalistas, ouço que “o MST não está fazendo muita luta, e não sei que...”, mas devolvo lembrando que estamos no mesmo patamar da época do FHC, replicando com a pergunta: “nas greves do movimento sindical qual é a pauta? Vocês têm pautado a desapropriação das fábricas? As greves não são pra melhorar o salário e PLR? As negociações são com quem? Com o próprio patrão?”.

 

Com o MST é o contrário. Nós ocupamos o latifúndio e não negociamos com o latifundiário. Negociamos com o governo, com o Estado brasileiro, e reivindicamos que o desaproprie. Assim, é evidente que, embora façamos uma luta radical, a ocupação da terra etc., no fundo fazemos uma luta radical para que a terra seja desapropriada e aí sim legalizada, institucionalizando a ação do nosso movimento. Que seja legalizada para novas famílias assentadas, pois é a única forma de terem acesso aos créditos e outras coisas. Isso porque não temos força para tomar e distribuir o latifúndio por conta própria e fazer a reforma agrária por conta própria. Por isso, na nossa luta, ocupa-se e negocia-se. Nela, vemos o governo brasileiro como o canal da nossa negociação, assim como o sindicato negocia com o patrão que é o dono da fábrica. Portanto, neste contexto, a única diferença é que lutamos pela desapropriação e o sindicato por melhores salários.

 

Fiz essa reflexão para chegar a outra: quando se parou uma fábrica e o conjunto de seus trabalhadores veio para uma ocupação nossa? Quem vem para as ocupações é a representação política da categoria, do sindicato, o que é importante, mas já paramos nossa produção inteira para prestar solidariedade a outros setores da classe trabalhadora.

 

Não estou dizendo isso para defender que o MST seja melhor que outros setores, e sim que o estágio da luta ainda se encontra fundamentalmente em torno de lutas econômicas. E aí tenho clareza de uma coisa: uma organização que não responde às necessidades de sua categoria perde o sentido e razão de ser para a sua categoria. Portanto, o MST vai ter que conjugar a necessidade da sua base, a luta pela terra, a lona, a cesta básica, o crédito, mas, concomitantemente, terá de investir na formação político-ideológica, fazendo todas as lutas. Esse é o grande desafio de ser um dirigente do MST no atual momento histórico, a meu ver.

 

Correio da Cidadania: Ao lado da reforma agrária, mais fora da pauta da grande mídia bem como da agenda governamental, estamos diante das intensas discussões e polêmicas em torno do Código Florestal. O que tem a dizer do imbróglio em que se tornou esta reforma e como ela está associada ao destacado boom de ‘expansão capitalista’ no Brasil e ao tema da reforma agrária?

 

Gilmar Mauro: Essa é a tentativa deles: avançar nas terras brasileiras e na destruição do que ainda resta de preservação ambiental. É o papel deles no jogo. O que impressiona é ver setores da esquerda – se é que se pode chamar de esquerda -, progressistas, entrarem nessa, inclusive setores da igreja, com um discurso econômico em defesa do modelo atual.

 

De nossa parte, estamos em campanha contra os agrotóxicos, um debate que a meu ver envolveu e entrou na sociedade. Se for aprovado esse Código Florestal, será goela abaixo, porque há sinais claros na sociedade de que a maioria dos brasileiros é contra a sua aprovação.

 

Enfim, é o rolo compressor do modelo econômico aplicado no país, mas os impactos da aprovação do código, evidentemente, serão muitos.

 

Correio da Cidadania: E já há informações de que a presidente poderá vetar o novo texto do Código tal como votado no Senado. Porém, novos decretos viriam a modificar este modelo anterior, de modo a atender às expectativas da bancada ruralista. O que deve ser o desenrolar final desse processo em sua opinião?

 

Gilmar Mauro: Eu não gosto de fazer projeções, pois seriam mais especulações subjetivas. Em minha opinião, se a Dilma vetar, ótimo. Só não sei se tem tempo pra isso, se o fará de fato, é disso que não tenho nenhuma segurança. Acho difícil ficar apelando agora, “veta, Dilma, veta, Dilma!”. Sei lá, é muito difícil. Tomara que isso ocorra, seria uma medida importante, mas não tenho certeza e nem apostaria minhas fichas nisso. Mas, se vetar, dará mais força para a sociedade continuar se mobilizando. Não acho que facilitaria subterfúgios posteriores.

 

Na verdade, para ser honesto, tenho que dizer que os movimentos sociais, os partidos de esquerda, todos, estamos a reboque – a reboque – do grande capital e do Estado brasileiro. E estamos agindo reativamente, esse é o nosso problema, e não é só do MST. Estamos sempre correndo atrás das iniciativas que eles tomam. E normalmente perdendo.

 

Esse é o balanço que precisa ser feito, inclusive para fugir à arrogância de que cada um tem uma verdade, absoluta. É preciso dizer que estamos todos ferrados, pra não usar outra expressão. E se não tomarmos consciência da necessidade de se fazerem lutas com perspectiva de unificação, vamos perder em todas as frentes, nas quais só estamos correndo atrás do prejuízo. Estamos com dificuldade de ter uma estratégia própria e tomar iniciativas. O caso do Código Florestal é evidente, mas é só um. Há a Transposição do São Francisco, os transgênicos... Estamos sempre correndo atrás, e pior, perdendo, como disse.

 

Correio da Cidadania: Acredita que o descaso com as questões agrárias, sociais e ambientais, ao lado da hegemonia do agronegócio, com seu modelo de exploração dos recursos naturais e o pesado lobby que vem fazendo para desmantelar o Código Florestal, poderão levar a uma radicalização dos movimentos sociais, inclusive do MST, nos próximos tempos?

 

Gilmar Mauro: Não é uma questão de vontade. Meu desejo é fazer a revolução... Mas não posso cair no subjetivismo. Volto a ressaltar que a classe trabalhadora está numa fase de lutas com reivindicações econômicas. Eu não acredito em processos mais intensos do que esse. Tomara que esteja equivocado, mas não vou semear ilusões num meio de comunicação. Acho que estamos num tempo difícil e, mesmo com tais medidas, na sociedade brasileira as lutas ainda estão sendo marcadas pelo economicismo.

 

E se eu tenho convicção de uma coisa hoje, é a seguinte: não existe a menor possibilidade de fazer a revolução pela classe. Ou a própria classe faz a revolução ou não haverá um grupo que a fará por ela. Portanto, é momento de ter essa consciência histórica, trabalhar, trabalhar e trabalhar, e talvez a gente consiga superar para o próximo período o atual momento de fragmentação e dificuldades.

 

Acho que a crise econômica internacional, que certamente virá para cá, pode nos ajudar. Se agora não tivermos sabedoria sobre como nos posicionar e onde queremos estar quando a crise vier – e sem dúvida, virá – para darmos um salto de qualidade, talvez possamos ir mais para trás ainda. Não acredito que neste ano acontecerão grandes coisas. Tomara, tomara que sim, mas não quero plantar grandes ilusões.

 

Valéria Nader, economista e jornalista, é editora do Correio da Cidadania; Gabriel Brito é jornalista.

Comentários   

0 #10 PatrícioRaymundo Araujo Filh 13-04-2012 09:59
Para o bem ou para o mal, agradeço a lembrança, mas não me considero "entrevistável", ainda mais no Correio. Contento-me em dar pitacos e escrever artigos, generosamente publicados pela editoria.

Afirmo que não sou "entrevistável", não por me considerar um burro ou imprestável. É que faço qyuestão de manter afirmado que não represento nada e nem ninguém, sendo, portando, as minhas opiniões apenas opiniões individuais e.... minhas, somente minhas. se alguém quiser adotá-las, que as adotem em seus próprios nomes, sem necessidade sequer de citação da "fonte", pois "um sonho que se sonha, é realidade", como dizia o "imorrível" Raulzito Seixas.

Tenho a certeza que a editoria do correio sabe que a dimensão que dou é correta, e não cometeria o desatino de uma entrevista comigo, pois não sou, de forma alguma, alguém que desperte "interesse jornalístico".

Quem tem palanque, faz parte organicamente de coletivos e, vez por outra falam em "alcançar o Poder", estes sim devem ser alvo de entrevistas. isso na minha modesta opinião.
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0 #9 RE: ‘Movimentos sociais, partidos de esquerda, todos, estamos a reboque do grande capital e do Estado brasileiro’ patricio salgueiro 08-04-2012 08:45
Ia sugerir q o CorreiodaCidadania fizese uma entrevista com o Raymundo de Araujo Fº, mas depois desta resposta/comentario dele,acho q nao precisa mais.Quanto a materia do Gimar Mauro, foram declarações/posições importantes,q contribuem, de alguma forma,na visualização atual da questão agraria no país, e a posição do MST.Assisti um debate com o Stedile q vai na mesma linha. Acho q nao estao longe da verdade. Infelizmente. Mas,(Freudianamente,ou nao)a luta continua...
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0 #8 A falta de um programa para os trabalhdores do campoMário Maestri 31-03-2012 12:42
Não podemos entender a crise de uma proposta política de reforma agrária como a crise geral do programa dos trabalhadores para o campo – imprescindível para o desenvolvimento social, político e econômico do Brasil. Não podemos confundir a criação da pequena propriedade com o programa dos trabalhadores para o campo, mais amplo, que deve necessariamente englobar o agro-negócio, hoje hegemônico: organização dos trabalhadores rurais; nacionalização da terra; estatização das grandes empresas de produção, beneficiamento, distribuição, etc. O que está em crise é a proposta de reforma agrária, para produção de propriedade parcelaria, através da desapropriação das terras tidas como improdutivas, com indenização, que constitui a antecipação da renda da terra ao proprietário, às custas do Estado. Com o desenvolvimento do agro-negócio, por um lado, a terra tida como improdutiva desapareceu no coração agrário do Brasil e, por outro, valorizou-se significativamente. Essa valorização exige somas astronômicas para a expansão significativa da pequena propriedade no campo. É da lógica da produção capitalista no campo a incorporação subordinada pelo capital da pequena propriedade – e não há argumento moral que impeça essa subjunção econômica e social. Apenas uma proposta social e politicamente mais elevada permitirá construir alternativa a essa tendência. A incapacidade da pequena propriedade de criar-se processo de sustentação e reprodução autônomo é igualmente parte da lógica da introdução do capital no campo – e esse handicap negativo não poderá ser superado pelo apoio assistencial do Estado. O avanço da luta no campo não será jamais resultado de uma discussão na sociedade brasileira. A sociedade é conformada por exploradores e explorados: os primeiros, apóiam a extensão do capital no campo; os segundos, são mantidos em forte dependência ideológica e cultural. Ele nascerá do estabelecimento de programa que una os trabalhadores da cidade e do campo. Estamos vivendo hoje algo novo – uma forte reativação das mobilizações dos trabalhadores, logicamente tendo como fulcro suas condições materiais de existência. Essa luta centra-se nas cidades e nos grandes obras, e não no campo, onde o agro-negócio mantém ainda fortemente sua hegemonia sobre seus trabalhadores. A priorização da produção de commodities foi característica do Brasil até, digamos,1930, quando foi invertida, construindo-se desde então o capital no Brasil com ênfase na produção industrial, dirigida para o mercado interno (até 1964).
A retomada daquela orientação é imposição do grande capital, referendada pelo atual governo Dilma Rousseff, que recebeu o apoio, em segundo turno, de enorme parte dos partidos e movimentos de esquerda
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0 #7 Lutar para desapropriarAntonio Julio 30-03-2012 15:11
Gilmar Mauro diz que os sindicatos não estão pautando a desapropriação das fábricas, para justificar as ações mais tímidas do MST. Não creio que isto deveria servir como justificativa. Pelo contrário, deveriam estar pautando a estatização de setores fundamentais, como o farmacêutico ou a produção agropecuária, por exemplo. Não estatizamos o petróleo? Lembro também que existem movimentos para estatizar alguns empreedimentos, como a Vale. E que também a maioria do agronegócio está em terra grilada, ou seja, em terra pública. Assim, este deveria ser ponto de pauta dos trabalhadores e não desculpa para recuo.
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0 #6 Sem novidadesAntonio 29-03-2012 14:43
Em decorrência do "centralismo democrático" (ou burocrático) imposto pelo MST, seus dirigentes sempre usam o mesmo discurso. Em vez de entrevistá-los, bastaria publicar a última resolução do Movimento.
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0 #5 SinseramenteMarcos Tavares 26-03-2012 17:31
Boa Tarde!

Sinceramente eu acho que não dá mais para acreditar nessas lideranças, eles foram sim cooptados pelo governo, realmente é o fundo poço.
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0 #4 Triste ocaso.raul milan 26-03-2012 15:33
Por que os partidos tradicionais da direita brasileira estão em "crise"? por que a direita não precisa mais deles. Eles tem o PT , o PC do B , o governo> Prá que partido? Os governos Lula prestaram um grande serviço à burguesia brasileira, detonaram as maiores organizações de resistência popular/sindical que se construiram no Brasil e o MST junto. Nesse sentido esses governos foram desastrosos para a organização dos trabalhadores. É uma pena.
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0 #3 Nós todos quem, Cara pálida?Raymundo Araujo Filh 26-03-2012 10:02
Sou sabedor que a Direção Nacional do MST não é algo unívoco, sem debates, divergências ou contradições. Sei também que o Gilmar Mauro representa, embora ombreado e obediente às decisões da maioria dos dirigentes nacionais do MST, o que poderíamos chamar de uma fração mais à esquerda e menos institucionalista desta DN do MST, cujo líder máximo e de maior visibilidade e encarregado da representação do Movimento seja o, a meu ver, ultrapassado e, também a meu ver, totalmente corrompido ideologicamente João Pedro Stédile (para ficar só nele, neste quesito entre dezenas de dirigentes menores do MST, além de alguns “ideólogos” deste movimento, nenhum deles com as mãos calejadas pela frequência à lavoura).

Começo a análise desta sincera entrevista do Gilmar Mauro contestando a afirmação que dá título à matéria “Movimentos Sociais, Partidos de Esquerda, TODOS, estamos a reboque do grande capital e do Estado brasileiro”.

Pergunto, para começar: Todos quem, Cara Pálida? Se dissesse a maioria, eu até aceitaria, pois a Ex Esquerda Corporation .W.C. dos Wladimires Pomares e Freis Betos (e tantos outros) são ideólogos de ponta na cabeça da maioria dos líderes dos sindicatos, movimentos sociais e que tais, que conjuminam este horroroso “apoio crítico” a estes governos de Lula e Dilma, que no fundo é muito mais apoio do que crítico e, pior, transformou-se em grave dependência financeira.

Assim, digo fraternalmente ao Gilmar Mauro que não deves misturar todos no mesmo saco, assim como devemos, ao menos para nosso uso interno, não te comparar à pelegada que está incrustada nas Direções do MST. Além do que, creio que não devemos considerar “de esquerda” partidos que reverberam o discurso da direita contra a Venezuela com Chávez ou os que apoiaram a recente ação de rapinagem econômica na Líbia, assassinando Kadafi. Com estes eu não me misturo!

O MTD (Movimento dos Trabalhadores Desempregados) é um deles que, além de não praticarem a Promiscuidade Institucional nem com Partidos Políticos e nem com Governos, seguem seu curso de lutas nas ocupações Urbanas, causando os tais “mal estares sociais” referidos por Freud, como forma de tocar a sociedade na sua infinda hipocrisia. O MTD Pela Base (Mov. Dos Trabalhadores Desempregados – não confundir com o oportunista MTD “Nacional” do PSOL, uma espécie de PC do B dos Mov. Sociais) é outro Movimento que resiste ao descrito acima e se relaciona de forma visível e cotidiana com os excluídos, sem dar-lhes falsas esperanças pela institucionalidade.

O Movimento Indígena Revolucionário é outro Movimento digno e atuante que nada quer de proximidade com a Institucionalidade Burguesa, que Gilmar Mauro aponta como a Mandrágora da esquerda brasileira, mas apenas são algozes de suas próprias bases, pois as direções “vão bem , obrigado!).

Temos a FIST (Federação Internacionalista dos Sem Teto) de incansável e admirável atuação, cujo dirigente André de Paula tem tido negada acolhida política na Comissão dos Direitos Humanos da ALERJ, presidida pelo Dep. Marcelo Freixo (PSOL) que, parece que quer ser o único político ameaçado de morte aqui no RJ.

Há muitos outros Movimentos nesta situação, mas sofrem de invisibilidade, não só pela mídia burguesa (já esperada), mas cabotinamente pelos que se arrojam como próceres dos Mov. Sociais, porém, só os que cantam em suas desafinações, assim dando a falsa impressão, lamentavelmente difundida pelo Gilmar Mauro, que TODOS estão arrebanhados pelo Sistema e vivendo de suas migalhas e dentro de sua lógica idiota do “ruim com Lula-Dilma, pior sem eles”, como diz Stédile, sem ter quem lhe dê um para-ti-quieto em regra.

Colocando a minha credibilidade de militante social e articulista (gostem uns ou não) em jogo, mas sabendo-me correto, afirmo que mantenho contato com militantes, uns assentados e outros acampados do MST (dos quais não posso citar os nomes e localizações, pois sofreriam represálias como em qualquer Gulag – vocês não sabem como é doce e faceira a vida no campo...) que estão organizados nas Bases do MST, em pleno processo de Empoderamento Horizontal e verdadeiramente Popular, que consideram a atual hegemonia da DN do MST como traidores dos Sem Terra e conscientes que nenhuma reverência ou obediência lhe é devida. Está em gestação o troco aos Traidores, pela Base do MST, disso não tenham dúvidas. É questão de tempo, se sobrevivermos até lá...

Não é razoável, a meu ver, que Gilmar Mauro refira-se como se referiu ao atual ministro do MDA Pepe Vargas como se referiu, expondo ingenuamente, ou falso ingenuamente, que “tomara que o novo ministro entenda mais de Reforma Agrária do que o anterior que nada entende”.

Ora, Pipocas! Primeiramente é preciso que todos saibam que Pepe “Legal” Vargas é da mesma tendência stalinista-que-se-diz-leninist a-trotkista-rosaluxemburguista (onde vai parar gente assim?) do seu antecessor, e atua sob o Centralismo Democrático, portanto de forma unívoca e uníssona, ao menos para os olhos e ouvidos da plateia de basbaques que os contemplam, e ainda os achando “moderninhos”.

Depois, não é possível que Gilmar Mauro não saiba que “o outro” apenas cumpria o Programa de Desestabilização da Reforma Agrária emanado da presidência da república que, como ele mesmo afirmou nada quer com isso, estando muito preocupada em ceder aos ruralistas o que quiserem, até para ver a venda de cerveja na Copa. Para Dilma, a Reforma Agrária é menos do que tomar cerveja nos estádios e muito, mas muito menos mesmo do que não ter a Copa realizada aqui no Brasil (o que eu acharia ótimo e farei campanha aberta, a partir de Abril. Será o meu Abril Amarelo (cor da cerveja)...

Depois não é possível, pois seria ingenuidade demais, que Gilmar Mauro não saiba que esta demissão do seis e admissão do meia dúzia foi apenas uma manobra para tergiversar, promover falsas esperanças, punir o ex “enfant gaté” da presidenta Jacques Wagner “Love” (por ter contratado o ex presidente da Petrobrás, o José Gabrieli, após ser demitido da presidência da empresa um ano antes do combinado), enfim, qualquer coisa menos avançar na Reforma Agrária. Também acho um atestado de ingenuidade e falta de informação política achar que Pepe Vargas pode entender alguma coisa de Reforma Agrária, visto que ele mesmo declarou que se preparava para concorrer a prefeitura da sua Caxias do Sul(RS) e que nunca teve muito contato com o tema da Reforma Agrária, senão o trivial, ser absolutamente urbano que é. Esta nomeação tem como pano de fundo a negociação do PT de Olívio Dutra (coitadinho...) com o PMDB gaúcho para abrir caminho para eleger o ex governador do RS por dois mandatos Germano Riggoto (PMDB), como prefeito da Cidade das Uvas, na Serra Gaucha, para acalmar a esfomeada Base Aliada de Dilma.

Tenho medo de descobrir que Gilmar Mauro não está à altura das tarefas revolucionárias que, tenho a certeza, gostaria de desempenhar.

Assim, ouso alguns pitacos, colocando-me à disposição para maiores esclarecimentos no e-mail: , caso ele se interesse.

1) Abra uma dissidência na DN, de peito aberto e articulado com a base social do MST no campo e seus apoiadores nas cidades. Quem anda ombreado com traidores, será identificado como um deles.

2) Concorra para praticar o que chamo de “urbanização do debate”, trazendo a Base Aguerrida do Campo, para ocupar, acampando em áreas urbanas, como praças, espaços e terrenos vazios, e que se comece a cuidar destes locais, plantar o possível e de rápido resultado, criar pequenos animais, como galinhas, em estabelecer diálogo com os Cidadãos e Cidadãs, diretamente, sem intermediários.

3) Não falar a besteira que “o MST está no mesmo patamar do fim do governo de FHC, pois isso é uma deslavada mentira. Naquela época, logo antes da primeira eleição de Lula, o MST, justamente pela sua radicalização que já ia há mais de dez anos, já era compreendido pela sociedade e a Reforma Agrária estava na pauta da sociedade como “imprescindível”. O MST hoje está sim manietado e dependente das esmolas governamentais (que nunca chegam às Bases, senão como migalhas imprestáveis), está dependente do Bolsa Família, invadido pelas Igrejas Evangélicas e também por setores atrasados da Igreja Católica (salvo exceções), pouco produz (ao menos em relação ao seu potencial) e tem enormes dificuldades de vender seus produtos, a maioria primários, e com pouquíssima verticalização da produção em agroindústrias sob o controle dos assentados, com seus militantes de maior visibilidade expostos às armas das milícias rurais e muito de suas produções agropecuárias perfeitamente “integradas” ao Agronegócio e às práticas convencionais com fertilizantes e venenos.

Em resumo, acho que carece, mais do que nunca, que um dirigente corajoso cumpra o que é necessário para causar o tal “mal estar Freudiano”, arma necessária para fustigar a hipocrisia política que reina entre nós.

E nunca é demais lembrar que a denúncia feita pelo companheiro Julio de Castro sobre a falcatrua que se pratica em MG com a malversação do Projeto PRONERA, colocando alunos apaniguados de políticos e dirigentes, no lugar de filhos de agricultores no Programa.

Vamos ter que cortar na própria carne, Gilmar, se quisermos avançar na Reforma agrária e no combate ao que esta aí.

Raymundo Araujo Filho (médico veterinário homeopata, membro da IWA (Assoc. Internacional dos Escritores Artistas) e que não gosta de jogar para a platéia.
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0 #2 RE: ‘Movimentos sociais, partidos de esquerda, todos, estamos a reboque do grande capital e do Estado brasileiro’ marcflav 24-03-2012 01:19
e agora, ceo dilma?
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0 #1 Reforma agrária e DilmaHélio Jost 23-03-2012 22:12
Com Dilma e o PT (-quem diria?) o Brasil pode esquecer a reforma agrária. - Que decepção!Tem razão o entrevistado Gilmar quando afirma "Não dá pra prever a data e a hora da crise, mas ela virá, certamente."
Além da ausência de uma política fundiária, falta uma política agrária, o que ajudaria muito. Estive semana passado no sudoeste do Paraná e é preocupante o número de pequenos agricultores (e filhos) que estão deixando suas terras e migrando para as cidades onde encontram habitação do Minha Casa - Minha Dívida e não - Minha Vida. É o prenúncio da crise que virá, é mais um espaço que se abre para o latifúndio de um lado e insegurança pública e social dessas cidades. Pequenas casas agro-veterinárias e armazéns em vilas e cidades estão fechando as portas. Lamentável que isso ocorra num governo (-que se diz) de esquerda. Profundamente lamentável.
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