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Sobre a queda de Bo Xilai e a tempestade política na China Imprimir E-mail
Escrito por Fernando Marcelino   
Terça, 20 de Março de 2012
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Para a surpresa de muitos, na China ainda existem conflitos em torno do legado de Mao Zedong. Um dos principais responsáveis por reviver este antigo fantasma é Bo Xilai que, nesta quinta-feira, 15 de março, foi destituído como secretário do Partido Comunista de Chongqing, a maior megalópole do mundo, com quase 40 milhões de habitantes no sudoeste da China. Carismático e controverso, Bo tinha chance de chegar ao núcleo de direção do Partido Comunista Chinês.

 

Filho de Bo Yibo, um dos “Oito Imortais” que junto com Deng Xiaoping articularam as reformas pós-Mao, Bo Xilai fez licenciatura em história mundial e pós-graduação em jornalismo internacional. Começou sua carreira no Partido na província de Liaoning para depois mover-se ao governo nacional (ministro do comércio) e assumir a secretaria geral do partido em Chongqing, o maior dos quatro municípios autônomos do país (juntamente com Pequim, Xangai e Tianjin).

 

Além disso, Bo Xilai também tinha a difícil tarefa de articular medidas contra a corrupção, a deterioração ambiental e as enormes disparidades sociais. Apesar das dificuldades, Bo Xilai conseguiu articular cinco grandes frentes de políticas públicas para transformar Chongqing: Chongqing segura, Chongqing habitável, Chongqing accessível, Chongqing saudável e Chongqing verde - este última voltada ao desenvolvimento sustentável da cidade.

 

Foram feitas casas acessíveis à população mais pobre, houve aumento na oferta de emprego, proteção ambiental, infra-estrutura moderna e acessível, programas de saúde pública, grande estímulo a atividades esportivas e medidas contundentes de segurança para prevenir crimes e desarticular células de crime organizado – com mais de 3 mil prisões que incluem juízes e membros do Partido Comunista.

 

Estas políticas foram acompanhadas por chamados à mobilização popular com canções maoístas (“chang hong”) em conjunto com grupos de ópera e outras instituições educativas da cidade, através de discursos de Bo que fazem referência ao papel da cidade na história da luta comunista contra os nacionalistas, com a Chogqing Mobile e outras operadores de telefonia celular enviando milhões de mensagens com citações do livro vermelho de Mao, fazendo retornar o fantasma revolucionário da Revolução Cultural dos anos 60. A estação de TV também apresenta filmes feitos logo após a vitória comunista em 1949, relatando a vida e as batalhas de antigos revolucionários, e as propagandas foram substituídas por “programas vermelhos” com novelas narrando histórias revolucionárias.

 

Quando houve uma greve de taxistas e professores, seu método de encontrar uma solução não foi enviando a polícia para reprimi-los. O Partido Comunista de Chongqing convidou as lideranças para encontrar um acordo num estúdio de TV, onde ao vivo debateram a questão para todos os cidadãos da cidade. Com sua ênfase no retorno dos valores revolucionários de Mao, Bo se tornou o alvo daqueles que estavam descontentes com a campanha anti-corrupção e seus excessos relacionados ao legado da Revolução Cultural. Assim ele fez muitos inimigos dentro e fora do Partido.

 

Não é à toa que sua destituição acontece logo após as advertências de Wen Jiabao para acelerar as reformas políticas, pois se não forem implementadas, poderia fazer ressurgir o espírito da Revolução Cultural. Sem tais transformações, “uma tragédia histórica como a Revolução Cultural pode acontecer de novo”, disse ele. Wen estava criticando abertamente Bo Xilai, suas canções vermelhas e tudo mais que faça o povo lembrar da Revolução Cultural.

 

Logo após 20 horas de o primeiro-ministro Wen Jiabao ter pedido reformas políticas para evitar “uma nova Revolução Cultural” no final do Congresso, Bo foi substituído por Zhang Dejiang, um vice-premiê conservador que já foi chefe do Partido nas províncias de Jilin, Zhejiang e Guangdong, entre 1995 e 2007. A causa do afastamento de Bo continua sendo um mistério, mas provavelmente está relacionada com o medo de parte de certos setores do Partido de que o “modelo Chongqing” desponte como uma alternativa de desenvolvimento chinês futuro. Sem dúvida esse processo irá balançar a política chinesa. Além disso, o Partido está realmente preocupado que a figura de Bo se torne algo como Mao Tsé-Tung ou Deng Xiaoping. Mesmo Hu Jintao já estava descontente com Bo.

 

Oficialmente ele foi afastado na seqüência do "caso Wang Lijun", ex-chefe da polícia de Chongqing, que no início de fevereiro se dirigiu ao consulado dos Estados Unidos em Chengdu, onde passou um dia inteiro e teria pedido asilo político. Movimento similar foi feito por Jiang Zemin quando afastou Chen Xitong como secretário do Partido em Beijing. Agora, o caso Wanj Lijun foi uma boa desculpa para iniciar uma investigação interna em Bo. O objetivo subjacente é realizar uma transição suave da geração no poder na China, nada que nos faça lembrar da Revolução Cultural, quando milhões de pessoas cantavam músicas comunistas contra a burocracia do Partido e seus ímpetos selvagens de avançar no caminho capitalista.

 

Para o susto de muitos, a batalha em torno do legado maoísta simboliza mudanças ideológicas importantes na China, principalmente entre aqueles que advogam uma liberalização maior da economia e do sistema político e aqueles que rejeitam qualquer coisa parecida com o modelo ocidental falido de democracia-liberal, procurando novos caminhos para o socialismo com características chinesas. Como disse recentemente um professor chinês, o modelo Chongqing (e Bo Xilai) é a única esperança para a China, somente ele pode salvar o comunismo. Mais do que nunca, é tempo de cantar as canções vermelhas.

 

Fernando Marcelino é economista.

Blog: Antes da tempestade.

 

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