Estados Unidos: o desgaste da ausência de direitos humanos

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Na visão neoconservadora, a II Guerra do Golfo despertou posicionamentos antiamericanos mais incisivos, submersos temporariamente em função do ataque terrorista de 11 de setembro de 2001. Afirma-se que a postura dinâmica da política externa americana, voltada, em princípio, para o estabelecimento de democracias, conduz necessariamente a desgastes, materializados em posições hostis ao país. Seria o ônus natural da liderança dos Estados Unidos, ao ansiar por preservar a estabilidade do sistema internacional, principalmente após a extinção da União Soviética.

 

Distinga-se que, caso o governo norte-americano se mantivesse apático diante do cotidiano da comunidade global, manifestações de ressentimento ou de queixumes ser-lhe-iam também endereçadas por vários dirigentes de Estado, de maneira que, independentemente da posição adotada em sua política exterior, o descontentamento estará presente.

 

O que fundamenta a contrariedade em relação aos Estados Unidos não são antigos dissabores, da época da dicotomia da Guerra Fria, onde houve apoio, mesmo sem ser, às vezes, tão visível,  a golpes de Estados e a ditaduras,  em nome da contraposição ao comunismo – vide o caso da América do Sul nos anos 60 e 70. O abatimento advindo de tal comportamento orientaria o governo Carter a modificar a política externa, de sorte que se valorizassem mais os direitos humanos.

 

Contudo, na visão conservadora daquele período, o alvo da nova postura afastou o país dos aliados tradicionais enquanto reforçava os países comunistas, resguardados da influência das diretrizes da gestão Carter. Nesse sentido, os opositores – aboletados em seu maior número no Partido Republicano - reconheceriam que o número de países democráticos era pouco significativo, de maneira que o convívio com ditaduras ou tiranias faria parte do cotidiano da política internacional.

 

Premente se fez a necessidade de dividir, portanto, os países ditatoriais em dois campos, haja vista a impossibilidade de, no curto prazo, migrá-los - desde que aliados dos Estados Unidos - diretamente para a esfera democrática, em face da necessidade de anular o (filo)comunismo, o que acarretaria, por vezes, medidas extremadas, distantes dos padrões ambicionados pelo governo Carter.

 

A designação das ditaduras foi bipartite, de acordo com a visão da professora da área de Ciência Política de Georgetown, Jeane Kirkpatrick, no final da década de 70: autoritárias, caso os governos se vinculassem à esfera capitalista, e totalitárias, se conectadas à comunista. Além do mais, sinalizou-se que os países ocidentalizados seriam menos infensos a reformas políticas e econômicas, de modo que a conversão à democracia seria mais provável, mesmo que demorada.

 

Contemporaneamente, a inevitabilidade das ditaduras - ainda mais se localizadas na região médio-oriental - não é mais aceita pelos formuladores da política externa norte-americana desde o início dos anos 90, porquanto anacrônicas, isto é, resquícios indesejáveis de uma era finda politicamente em favor das democracias liberais.

 

Embora considerando inexorável a marcha da democracia, os planejadores estadunidenses encaram a presença de seu país como catalisador de tal processo, mesmo que implique privações imediatas para a sua população na forma de recursos econômicos e humanos – 3 mil e 614 baixas até o dia 26 de julho corrente -, como é o caso da segunda versão do conflito do Golfo.

 

Contudo, nenhuma das intervenções – Afeganistão ou Iraque – desaguou no aguardado pelo governo norte-americano. O resultado provisório indica a ampliação do grau de turbulência de toda a região e, por conseguinte, repúdio da população local. Além do mais, o desrespeito aos direitos humanos materializou-se na base de Guantánamo, minimizado posteriormente em virtude das constantes denúncias de organizações não governamentais e dos meios de comunicação.

 

Mais crítica, no entanto, é a base aérea de Bagram, situada no Afeganistão, onde as adversidades são de difícil registro e posterior publicidade, em função da precariedade do aparato administrativo, e de maior intensidade, em face das rivalidades étnicas e políticas das comunidades locais, suspeitosas de governos centrais, ainda mais apoiados, de maneira explícita, por um governo estrangeiro.

 

Mesmo a distância dificulta o encaminhamento aos meios de informação e não é possível acompanhar, de modo eficaz, se os depoimentos, por exemplo, são colhidos de acordo com as normas das convenções de Genebra ou da Contra Tortura – incorporá-las ao cotidiano militar não implica o reconhecimento imediato de status de prisioneiros de guerra.

 

Deste modo, o desgaste do poderio norte-americano não é gerado, a princípio, pela sua presença externa em si, mas pela postura desagarrada em relação a sua própria pregação política, onde se conjugam democracia e liberalismo, estando a primeira bem afastada do cotidiano do Iraque e do Afeganistão.

 

 

Virgílio Arraes é professor de Relações Internacionais na UnB.

 

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