Sem uma esquerda partidária forte, para onde vai o mundo?

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É a questão fundamental de nosso tempo. Para onde caminha a humanidade com a forma predatória e anti-social com que se afirma de forma crescente e acelerada a hegemonia do grande capital financeiro? Com a forma como se afirma a perversidade das austeridades fiscais que sufocam homens e mulheres dependentes de seus empregos e salários com a mesma intensidade com que se transferem recursos públicos infindáveis para os cofres dos que mais responsabilidade têm na geração do caos econômico dos tempos atuais?



O desabafo vem por conta do artigo produzido por um dos yuppies do nosso "livre mercado", Rodrigo Constantino, em artigo produzido no Globo de hoje (dia 6 de março). Ali ele faz - por via indireta, numa espécie de resenha de um livro típico das bibliotecas "neocon" das organizações fundamentalistas norte-americanas - a apologia da "liberdade individual" absoluta. E o faz, ao fim e ao cabo, através da condenação de um princípio inscrito na Revolução Francesa, ao consolidar o poder burguês contra o absolutismo que marcava o regime monárquico anterior. Faz assim transformando a preocupação com o social em marca do autoritarismo; negando a fraternidade como um objetivo a alcançar numa sociedade humanisticamente avançada. A valorização da solidariedade seria uma forma de garantir os incompetentes contra os mais produtivos...



O trágico nisso tudo é que o anseio de restabelecer a ordem natural - a chamada lei da selva em que o predador mais forte consome o mais débil - como modelo social vem se espraiando rapidamente. Faz sentido, na lógica predominante dos governos reacionários das principais potências capitalistas, eleitos em sufrágios universais,  e de seus formuladores na grande mídia conservadora. Mas é algo absurdo, se considerarmos o que representa de retrocesso no entendimento que o ser humanos só pode sobreviver dignamente em ambiente social regulamentado. Onde, no mínimo, se garanta a aplicação da Carta de Direitos que gerou a fundação da ONU. Afinal, foi essa a resposta que a humanidade encontrou como melhor antídoto ao advento da barbárie previsível caso tivesse prevalecido a vitória do III Reich nazista, na II Guerra Mundial.



É aí que se impõe a busca de solução ao desafio para as forças sociais que não aceitam esse retrocesso: com que roupa?, como indagaria o saudoso poeta da Vila.



O século XXI se marca pelo ceticismo e pela ausência de participação política daqueles que, no século XX, como segmento social, se engajaram na "assalto ao céu". Os que viram perto a conquista de uma certa utopia, nos processos revolucionários que se iniciaram na Rússia e chegaram a Cuba. Na solidariedade às lutas antiimperialistas na Ásia e na África. Na integração com a vaga anticapitalista e anunciadamente transformadora do 68, na Europa e nas Américas (inclusive nos Estados Unidos, com os Black Panters e as revoltas universitárias). Ceticismo e ausência de participação, ambos cronologicamente instalados com a auto-dissolução da União Soviética e com os descaminhos dos outrora heróicos processos libertários na China e no Vietnam. E que, se encontram atualmente alguma variável mais otimista com a sobrevivência de Cuba e com o surgimento dos governos bolivarianos na América Latina, se defrontam com a ascensão de uma direita radical que consegue amplas vitórias institucionais, a despeito de alguns suspiros movimentistas, sem maiores condições conclusivas, nos principais países capitalistas.



O povo grego está nas ruas. Mas, nas instâncias deliberativas do Parlamento, social-democratas se rendem a uma aliança com a direita fascista na submissão aos ditames da chanceler Merkel. Que consegue, pela opressão financeira e a cumplicidade das classes dominantes dos países europeus, instalar o Reich sonhado por Hitler, com a Gestapo e os campos de concentração.



"Indignados" jovens ocuparam praças da Espanha, mas não conseguiram impedir que seus pais elegessem um primeiro ministro, com maioria reacionária absoluta no Congresso. É o general Milan Astray voltando a se impor a Unamuno, numa nova derrota da República contra o franquismo.



Com que roupa, volta a pergunta, reagimos?



Só há uma saída, e ela tem que ser construída a partir do entendimento sobre o pólo unificador das esquerdas anticapitalistas na determinação do sujeito histórico revolucionário de nosso tempo, assim como de seus instrumentos de combate político mais eficazes.



É possível reproduzir o século XX e suas circunstâncias? Certamente que não. É possível pensar em processos insurrecionais, a partir do movimentismo espontâneo? Certamente que não. Na Primavera Árabe, não foram os insurgentes progressistas que receberam armas e ajuda da OTAN e dos Estados Unidos, nem recursos e mercenários da Arábia Saudita e do Quatar. Pelo contrário.



As classes trabalhadoras, o segmento produtivo que vive de seu salário, se encontram fragmentadas em torno de diferenças materiais objetivas, no chamado Ocidente. O próprio avanço tecnológico, com predominância do caráter sagrado da propriedade privada sobre a sua função social, produziu o esvaziamento das linhas de montagem e, por conseqüência, dos próprios sindicatos. Graças à "livre circulação", promovida pela contra-revolução Reagan-Tatcher, indústrias de ponta são transferidos para regiões do mundo onde o trabalho escravo é alternativa de sobrevivência à miséria absoluta. O que transforma antigos núcleos operários, votantes da esquerda oficialista ou comunista, em bastiões da xenofobia anti-imigração, e caldo de cultura para o neonazismo.



O quadro não deixa dúvidas quanto à Europa estar muito mais para anos 30 do que para o pós-II Guerra Mundial.



O que cabe à esquerda sobrevivente, a que não se rendeu nem se vendeu, é mergulhar nas potencialidades fragmentadas que a nova conjuntura impôs. Se não temos os grandes meios de comunicação de massa, temos que ir para as redes sociais. E, a partir delas, consolidar os partidos revolucionários em âmbito nacional, com permanente relação internacional. Dar rumo e política à indignação das ruas, mas sem desprezar - pelo contrário, tentando recuperar o espaço - a batalha institucional das urnas. Uma batalha que não pode se limitar a responder à pauta minimalista que a grande mídia conservadora tenta impor. Uma batalha que fundamente a necessidade essencial da desconstrução do regime capitalista com saída única para que a humanidade não mergulhe no caos irreversível da barbárie autodestrutiva. Consolidando as lutas dirigidas - ambientais, anti-raciais, feministas -, mas sem desvinculá-las da visão universal do embate entre classes sociais. Uma feminista de direita pode ser inimiga mais perigosa do que um patrão. Estão aí Thatcher e Merkel para comprovar. Malcom X já comprovava que a luta pela igualdade racial abrigava muito de falacioso, que não unia a luta pela liberação dos negros à condenação do regime capitalista. E os "verdes" europeus - CohnBandit, como exemplo maior, em seus votos no Parlamento continental - estão aí para provar, com reforço dos nossos, que lutar contra o ambiente termina propiciando rendosas alianças com o grande capital.



A esperança não pode falecer, mesmo que tudo leve a dela nos desligarmos. Depende de nós e recorro aqui ao episódio final do "Fahrenheit 451", obra-prima de Truffaut. Do que tratava o filme? De uma cidade onde o corpo de bombeiros existia para incendiar bibliotecas. Para, portanto, apagar o fogo das idéias e manter o status quo. A "ordem constituída" conseguiu muito, mas não tudo. Na última cena, num acampamento de refugiados clandestinos, um homem caminha declamando Dom Quixote, para que a criança que levava pela mão, repetindo, não deixasse morrer a memória do texto para as gerações seguintes. Venceu, pelo menos até agora, à sua forma.

 

 

Milton Temer é jornalista.

Comentários   

0 #2 RE: Sem uma esquerda partidária forte, para onde vai o mundo? Fernando Rocha 07-03-2012 17:46
Milton,

Concordo com sua crítica ao livre mercado, da necessidade de superação do capitalismo através da revolução e da análise referente a fragmentação da esquerda.

Porém eu não consigo entender como alguns conceitos, cristalizados pelo Leninismo, ainda são idealizados como a "única possibilidade" de desencadear a transformação revolucionária. Isso se aplica também à estratégia, modo organizativo,concepção de democracia, etc.

Esta concepção de vanguarda intelectual e política, do partido de quadros, do centralismo democrático e das estruturas hierárquicas partidárias, sindicais, apenas reproduzem aspectos e fundamentos básicos da estrutura do Estado repressor capitalista.

Sua crítica ao espontaneísmo é nula, pois as revoluções de massas que ocorreram ao longo da história se deram através da espontaneidade das massas (Comuna de Paris, Revolução Russa, Revolução Espanhola, Greves gerais de 1917 no Brasil, manifestações de maio de 68, o levante Zapatista de 1994, etc.)

Não foram revoluções arquitetadas por um partido revolucionário ou por uma vanguarda, mas sim desencadeadas por uma conjuntura econômico-política que instigou as massas à espontaneamente se auto-organizar a fim de derrubar o poder opressor.

O papel da tal vanguarda durante a revolução russa foi qual? Desarticular os soviets (conselhos populares), chamar os camponeses de pequenos burgueses contra-revolucionários oprimindo-os, desenvolver as bases da indústria capitalista na Russia (usando como estratégia as bases do fordismo-taylorismo), hierarquização dentro e fora do partido, militarização, etc.

Pode-se concluir que a "vanguarda" e o partido desempenharam um papel contra-revolucionário na Russia e não o contrário.

Contra tudo isso, o que deve ser entendido como genuínamente revolucionário?

O conceito de minoria ativa (ao contrário da concepção vanguardista)sob o qual os elementos conciêntes do proletariado desempenham um papel de fermento das massas e da revolta social. Não desempenhariam um papel de líderes, mas incentivariam todos a utilizarem o poder da palavra, da crítica, da criação e discussão política.

O conceito de democracia direta, do federalismo, da autogestão e da espontaneidade revolucionária deve ser propagado e colocado em prática aqui e agora, nos diversos meios da sociedade. Nas fábricas, escolas, centros comunitários, etc. Devemos criar um POVO FORTE e não um partido.
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0 #1 Mais do mesmoRaymundo Araujo Filh 07-03-2012 17:39
É importante a questão colocada pelo Milton Temer, hoje um simples militante do PSOL, segundo ele mesmo, em recente declaração, pois não é mais presidente do PSOL RJ.

Embora tenha sido muito genérico no que tange a argumentos afirmativos em favor dos Partidos como vanguarda e aglutinador das Lutas Sociais (apenas deduz que o processo europeu emperra pela falta de Partidos de esquerda “atuantes”), liderança e caudatário principal (como podemos traduzir a vontade do Milton Temer) das energias virtuosas dos processos que se pretendem revolucionários, ou ao menos positivamente transformadores de nossa barbárie de cada dia.

Aprendi cedo este negócio de dialética. No início uma confusão danada para entender Hegel, Marx, Marcuse, Foucault, entre outros, em exaustivas leituras e debates difíceis, hoje eu sei, pois se davam a partir de uma abordagem meramente intelectual, descolado do dia a dia, que nos dá exemplos e possibilita que coloquemos a dialética em uso, como método de discussão, ação e provocação da realidade. Teoria sem referência com a prática, vira uma panacéia.

Então, começo a refutação deste artigo de Milton Temer, invertendo a equação, em atitude dialética frente ao que li: Olhe bem como está a política e a gestão da sociedade, sob a égide da estrutura dos Três Poderes, ocupados obrigatoriamente através dos Partidos Políticos. Uma pessoa desprovida de interesses intrínsecos com a vida partidária, logo compreenderia que há algo, digamos, intrinsecamente equivocado em atribuir a Partidos, a “salvação da lavoura popular”.

No mesmo erro incorre o Milton Temer, a da abordagem meramente intelectual, a meu ver. Em abordagem puramente dedutiva por suas próprias contas, insiste na tese da inviabilidade de uma sociedade regida por um sistema onde o Poder para tomada de decisões para a vida das pessoas se dá de outra forma, onde a descentralização das instâncias decisórias e a forma da população se organizar em torno de seus interesses não se dá exatamente por este sistema representativo que, a história nos mostra isso de forma contundente, ou se burocratiza em torno de um governo monolítico, em ilhas de Poder Paralelo e em função de grupos articulados, ou se elitiza, sequestrando todas as formas de equidade mínima do fazer política, até no âmbito do próprio exercício de um mandato, seja parlamentar ou executivo. E o molho disso tudo, é a legalidade jurídica emanada por um Poder (dizem que é o terceiro) tão podre, corrupto e sequestrado pelas elites, quanto aqueles que regulamentam (o Executivo e o Legislativo). Poderia ser diferente, o resultado, com este 'compadrio” entre os Poderes, a serviço das elites?

Ora! Os movimentos europeus e mesmo o estadunidense que o PSOL, através de sua sec.de Relações Internacionais saldou como Revolucionários (enquanto apoiava os rebeldes da OTAN, contra Kadafi), não faz andar as suas reivindicações justamente pelo motivo oposto ao que expõe o Milton Temer, não andam, em primeiro lugar porque é um Movimento composto, em sua grande maioria, por trabalhadores, é verdade e muitos agora desempregados, mas do terceiro setor, com muita pouca presença do proletariado, esta sim fundamental para atingir o cerne do capital, que é a mais valia e o lucro.

Depois, porque estes movimentos europeus têm como cerne reivindicativo uma espécie de “volta ao passado”, para aquele que ficou conhecido como Estado de Bem Estar Social, levado a cabo por uma das vertentes do Movimento Partidário, a Social Democracia, como se dentro do capitalismo isso pudesse ser uma situação infindável e como se outros não tivessem de pagar esta conta. Nunca vi o proletariado do primeiro mundo e os trabalhadores do terceiro setor (e não falo de uma minoria de cidadãos conscientes que sempre existiram) se padecerem da situação de nosotros aqui ao sul do equador, que financiamos desde sempre o Bem Estar Social do primeiro mundo, a não ser em teoria.

Estes são os motivos principais das coisas na Europa não andarem, malgrado uma parcela da população esteja se movimentando, mas nitidamente “correndo atrás do prejuízo”, pois as etapas de acumulação capitalista se dão “como as ondas do mar”, uma atrás da outra, e sempre arrebentando na cabeça de desavisados que estejam, olhando pra ontem, bem na arrebentação, ou acomodados no tal Bem Estar Social, da Social Democrata, em clara alienação e sem se preocupar com aqueles que, no fim das contas, financiaram ou foram explorados por este sistema, como é o caso dos emigrantes, notadamente os do mundo Árabe que, além de sempre terem sido cidadãos de segunda classe, não estão nos planos reivindicatórios dos que protestam hoje por lá.

Enquanto a esquerda tiver de se apoiar em partidos para que aconteça alguma coisa, as coisas, dialeticamente, não acontecerão. E o motivo é óbvio e ululante: A mecânica partidária suga a energia revolucionária ou transformadora, retirando da sociedade os “modus operandi” para consecução de seus interesses, colocando a Luta Viva e, necessariamente presencial e “de massa” para que as coisas aconteçam realmente, enclausurada em guetos partidários, com suas lutas internas, em geral, colocadas acima das Lutas Populares.

Isso sem contar que a vida partidária, queira o Milton Temer ou não, enseja que muitos vivam financeiramente do Partido, das assessorias parlamentares, cargos em governos, ONGs financiadas, criando uma rede de interesses “a parte” da sociedade, em função de interesses paroquiais, quando não individuais, estejam na oposição ou em governos. Isso aí que descrevi é parte intrínseca da vida partidária, da atividade parlamentar e executiva, onde uns vivem (também financeiramente) de “representar” os outros, mas acabam tão somente, a representar os seus próprios interesses.

Não resiste a mais desatenciosa análise, o argumento que já ouvi de Milton Temer e próprio de uma esquerda que só olha para a Europa e o primeiro mundo, de onde acham que virá a definitiva evolução, em uma leitura mecanicista e desatualizada de Marx, que diz que “é inviável uma sociedade sem Partidos que unifiquem e agreguem de forma superior (como eles acham), as reivindicações sociais, dos trabalhadores, em suas associações e sindicatos.

Ora, Milton Temer! Porque achar que a sociedade organizada, através de suas experiências vividas não vai achar seus caminhos, principalmente em um modelo de organização social, e não pelo Poder (aquele que faz com que as pessoas estejam acima de outras, quando não se investem de uma atitude messiânica)?

A recente greve da PM e dos Bombeiros nos mostrou isso. A comunidade policial tentou fazer greve, apenas reivindicando aumento salarial, na Bahia de forma irresponsável e, com seus agentes aproveitando para “acertarem algumas contas” como “polícia mineira” (nem em greve eles abandonam o terrorismo social), sem tocar no passivo que eles têm com a sociedade, a começar pela quantidade enorme de criminosos em seus quadros, investidos de um Poder armado.

Lamentavelmente a deputada psolista Janira Rocha, com apoio do Marcelo Freixo, caiu de cabeça em apoio à greve, aí sim, colaborando para que os setores ajam em função de seus interesses materiais imediatos descolados do resto da sociedade. Quem apoiou isso, Milton Temer, não foram os cidadãos comuns, mas sim uma agente partidária, sem exigir nenhuma pauta adjacente, para aproximar a polícia da sociedade, a obrigando a se enquadrar na sociedade, em vez de tentar resolver unilateralmente seus problemas salariais, ainda mais por servirem, de forma contumaz, a proteger o patrimônio das elites e reprimir qualquer movimento reivindicativo, afinal, foi para isso que foram criadas as Polícias, assim com os Três Poderes Institucionais. Foi tão oblíqua esta atitude da deputada psolista, que só a posso imaginar como um produto de (falsa) ingenuidade sindical e oportunismo eleitoreiro.

Assim, Milton Temer, nada, até hoje, me indica que este modelo da chamada Democracia Burguesa poderá servir aos Trabalhadores e Povo em geral. E querer um Estado e Governos Populares, utilizando-se dos mesmos mecanismos institucionais que as elites se utilizam, para manter a massa popular, fora dos círculos decisórios, estes restritos as elites, inclusive aqueles que se dizem de esquerda, mas agem como meras elites.

Mas, caro Milton Temer, eu sou um cara bonzinho à beça. Não sou daqueles que vivem a bradar pela extinção dos Partidos, como fazem algumas vivandeiras de regimes autoritários. Eu seria simpático (já fui mais entusiasmado com esta tese...) uma candidatura que utilizasse o período e horários eleitorais, para colocar ao eleitor que “do jeito que estamos hoje, nada conseguiremos a nosso favor pelo processo eleitoral”, dizendo claramente “que respeito muito quem NÃO aposta em eleições, como caminho para construção de uma sociedade justa”. E poderia prosseguir dizendo “é este o significado desta candidatura”, em clara postura dialética frente ao eleitorado. O slogan da campanha, se permite, poderia ser “Só o Povo Organizado poderá mudar as coisas, esteja quem estiver no Poder”. Seria uma perspectiva razoável para se fazer a política institucional, sem acreditar nela, e sem fingir acreditar nela.

E sobre o voto parlamentar, se algum parlamentar deputados garantirem que farão um mandato “de costas para o Legislativo e de frente para a população, tratando de agir diuturnamente em favor da organização popular, inclusive abrindo o seu mandato para uma gestão pública, e não esta política de “gueto pseudo vanguardista”, com o mandato sendo uma “cabeça de ponte” para esta ou aquela facção política a qual pertence o parlamentar ou de seus aliados DENTRO do partido, como uma força tarefa para as lutas internas. Outra medida seria a divisão equânime do mandato, dando o protagonismo para aqueles que foram necessários para a eleição dos mais votados, mas que sozinhos não atingiriam os coeficientes eleitorais exigidos por Lei. Afinal, a Democracia deve sempre começar “em casa”.

Ao contrário, o que vemos hoje, são aqueles que conseguem um mandato trabalharem para que sejam sempre eleitos, o que mediocriza e torna egoísta a sua ação política. E, para a sociedade, fica destinada “as boas idéias” que um grupo de iluminados oferece para a nosotros, como se fosse o melhor, inclusive passando a combater todas as posições diferentes, e de forma mais radical (o passar do tempo esclerosa a possibilidade de relacionamentos intra partidários) elegendo como INIMIGOS, aqueles que resistem, dentro do movimento social, a obedecer ordens desta gente que, a esta altura oscilando em uma crença messiânica em suas proposições, e outros por pura safadeza e oportunismo.

Recentemente, tivemos vários embates com a tchurma do PSOL de Niterói que, entre outras proezas, depois de aparelharem de forma que eu chamo de cretina o Comitê dos Desabrigados das Chuvas de Niterói, bombardearam a sua estrutura que vinha extremamente democrática, e resistindo ao aparelhamento partidário, utilizando-se de expedientes asquerosos, próprios das tradições mais bandidas da política brasileira, como cooptação financeira, por promessas de candidaturas futuras e até oferecimento de ”faxinas”, atraindo justamente aquelas pessoas que têm o foco mais individualista, que passaram a defender os seus “chefes”, atacando quem quer que discordasse deles. Este é um pequeno exemplo da atuação desta esquerda partidária do PSOL (que uns dizem que seria o PT passado a limpo).

Finalizando este longo comentário, neste artigo Milton Temer faz exatamente como o PT faz hoje, elegendo seus adversários entre aqueles, cujas posições são facilmente contestáveis. Nenhum daqueles grupos citados pelo ex presidente do PSOL RJ têm alguma proposta política e social que ultrapassem os seus interesses imediatos. Não por esquecimento, mas por saber que não consegue sustentar suas teses em um debate com aqueles que persistem em ter como foco principal a organização da população, através de suas reivindicações imediatas, para uma possível construção de cenários reflexivos sobre o sistema a ser conquistado. Ao contrário, Milton temer, como bom messiânico (outros são piores, pois defendem descaradamente seus empregos e seus futuros políticos, acima de tudo), já vem com o futuro pronto. E quem já tem o futuro pronto, apenas organiza a população em função do idealizado.

Esta tese do Milton Temer não resiste a cinco minutos de debate ao vivo e a cores! A seguir estarei escrevendo um artigo sobre "a necessidade de uma outra forma de organização política da sociedade".

*Raymundo Araujo Filho é médico veterinário homeopata e não se ilude com qualquer canto do sereio.
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