Comportamento ruinoso dos republicanos contribui para a possível vitória de Barack Obama

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Na primeira quinzena de março, define-se o aspirante do Partido Republicano à Casa Branca. Esperam os democratas enfrentar um adversário enfermiço eleitoralmente, por causa do inédito grau de autofagismo republicano em suas prévias.

 

Na disputa pela indicação ao cargo mais importante do globo, os candidatos se atacam por meio dos veículos de comunicação, especialmente da televisão, onde se concentra a maioria das verbas destinadas à publicidade partidária. De forma geral, os anúncios mais instigados vão ao ar por iniciativa de defensores de um determinado postulante, agregados em organizações civis.

 

Em tese, seriam constituídas tais agremiações por cidadãos comuns, diligentes na preservação de valores considerados tradicionais na sociedade norte-americana; em muitos casos, porém, atuam elas com o furor de infantaria, ao lançar sobre os opositores constante artilharia pesada. Na carga disparada, chegam a incluir até insinuações sobre o caráter, a família ou o passado do adversário.

 

Ao mesmo tempo, elas buscam poupar seu apoiado de eventual desgaste, em decorrência do artifício de utilizar informação de modo ambíguo e de não vincular-se oficialmente a ele. No entanto, não seria possível imaginar que o teor da maioria desses comerciais políticos não tenha sido debatido anteriormente com membros dos comitês dos pleiteantes. Uma das prováveis conseqüências do emprego maciço de ‘fogo amigo’ será o desinteresse dos derrotados em auxiliar o escolhido por conta do ressentimento ou da mágoa.

 

Mesmo se fosse possível superar o rancor, em nome de um projeto maior, o risco de trazer consigo os antigos adversários seria considerável durante a fase final da eleição. De que modo se explicaria ao eleitor a presença em um comício ou em um comercial de dois recentes e férreos antagonistas? Ao aceitar-se o apoio de um e de outro, teriam sido as críticas ao vitorioso impróprias?

 

Desta maneira, o comportamento ruinoso dos republicanos, impremeditadamente, contribui para a possível vitória de Barack Obama, apesar do seu desgaste em função da incapacidade administrativa de minorar os efeitos da crise econômica de 2008 e de levar a cabo uma política externa mais cooperadora.

 

Nos dias de hoje, a comunicação (in)adequada com o eleitor repercute mais, em vista da progressão contínua do mundo digital. Na eleição de 2008, Barack Obama soube explorar muito bem o novo canal, diferentemente de John McCain. Naquele pleito, o próprio uso intenso das opções da internet auxiliou a demarcar aos olhos do eleitorado o representante da renovação necessária, ainda que isso não se confirmasse depois da posse.

 

No Congresso, nenhum parlamentar, por mais ‘analógico’ que seja, pode prescindir de uma existência virtual. Mesmo sem participar diretamente da realidade alternativa, assessores encarregam-se de mantê-lo ‘vivo’, ou seja, de conectá-lo.

 

Desde o fim da década passada, o uso das redes sociais incorporou-se ao cotidiano da política norte-americana – observe-se o recente funcionamento da embaixada dos Estados Unidos na Síria. Ela se mantém aberta apenas digitalmente, em função da instabilidade política naquele país. Não há mais como ignorar o poder de comunicação das redes: até a Santa Sé decidiu aderir, ao difundir comunicados religiosos de modo bastante sintético.

 

De forma gradativa, a administração pública depende mais e mais dos novos canais de comunicação, haja vista o extenso alcance geográfico no espraiamento das informações, o largo número de usuários e o baixo custo das suas transmissões.

 

Além do mais, as redes sociais possibilitam transformar os adeptos de um candidato em bons propagadores de suas mensagens ao longo da disputa. Em países em que a classe média compõe a maioria da população, os simpatizantes digitais tornam-se cabos eleitorais mais eficientes, ao divulgar quase imediatamente as notícias positivas e desmentir ou descontextualizar as negativas, e mais baratos, ao não desfrutarem de vínculos trabalhistas.

 

Se, em 2008, os democratas obtiveram a vitória por também utilizarem bem as ferramentas digitais, em 2012 poderão repetir o feito, mas, desta vez, em decorrência do uso equivocado dos republicanos da mesma tecnologia.

 

Virgílio Arraes é doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da mesma instituição.

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