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Síria: sem luz no fim do túnel Imprimir E-mail
Escrito por Luiz Eça   
Sábado, 18 de Fevereiro de 2012
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Tudo começou com alguns garotos pintando frases contra o regime numa parede da cidade de Deraa.

 

As forças de segurança prenderam e espancaram brutalmente.

 

A história se espalhou e rapidamente explodiu a ira represada da população contra uma ditadura de 11 anos, que proibia a oposição. Seguiu-se uma manifestação popular de protesto. Que foi reprimida violentamente pelas forças de segurança.

 

O governo pensava que, assim, iria calar o povo, mas aconteceu um efeito contrário. Mais gente saiu às ruas gritando contra o regime.

 

Aumentaram as passeatas, agora também em outras cidades. A repressão do governo aumentou, sucederam-se prisões e casos de tortura. E as forças de segurança passaram a atirar no povo. O que causou um aumento diário do número de pessoas mortas.

 

Como o governo proibiu a entrada da imprensa estrangeira, as únicas informações disponíveis vinham da Oposição. Claro que havia exagero, mas os filmes divulgados pelo You Tube eram esclarecedores: revelavam que de fato a polícia e também o exército praticavam violências  contra pessoas que protestavam.

 

A princípio, as manifestações eram pacíficas. Com a adesão de desertores, jihadistas e milicianos vindos da Líbia e das regiões sunitas do Iraque, os rebeldes também se armaram e passaram a atacar as forças do governo.

 

Enquanto isso, o governo de Bashar al-Assad foi se isolando. Perdeu aliados importantes como a Turquia, o Egito, a Liga Árabe e até mesmo o Hamas.

 

Ao seu lado, restaram a Rússia, o Irã, o Líbano e talvez o Iraque. A China tem uma posição equilibrada, busca a paz.

 

Começa a se esboçar uma guerra civil, com a entrada da Irmandade Muçulmana e da Al Qaeda do lado dos rebeldes e a disposição da Arábia Saudita e do Qatar de fornecer armas à revolução.

 

Até o momento, a ONU contabiliza 5.400 mortos e Bashar afirma que já morreram dois mil soldados.

 

O governo apresentou o esboço de uma Constituição, que estabelece leis democráticas como o pluripartidarismo, eleições livres, mandato de 7 anos para o presidente, com apenas uma reeleição.

 

Mas é tarde. A princípio, os rebeldes pediam uma Constituição democrática, agora, como diz Khalef Daowd, da Coordenação Nacional por uma Mudança Democrática: “O povo nas ruas hoje tem exigências e uma delas é a queda do regime”.

 

Não será fácil. O exército do governo é poderoso e superiormente motivado. E conta com a Rússia para supri-lo de armamentos modernos. Uma intervenção militar da OTAN continuará sendo vetada no Conselho de Segurança da ONU pela Rússia e pela China.

 

Provavelmente, nem o Ocidente estaria disposto a repetir a aventura da Líbia. Intervieram militarmente para salvar vidas e dar democracia ao país. E sua aviação matou centenas de líbios e o que existe agora na Líbia é uma desastrada anarquia, com o país entregue à violência das milícias, que não obedecem às leis.

 

É provável que alguns países do Ocidente e da Liga Árabe forneçam armamentos aos rebeldes, inclusive tanques de guerra e artilharia. O reforço dos jihadistas e dos milicianos sunitas iraquianos também não é de se desprezar. E a Al Qaeda já entrou em ação. Terroristas suicidas explodiram dois edifícios do governo, matando 28 pessoas e ferindo 235. Muito provavelmente, a organização foi responsável pelo assassinato, recente, de um general sírio.

 

Os EUA farão o que puderem para destruir o governo de Bashar al-Assad. Não tanto por razões humanitárias, afinal o governo do Bahrain também atirou e continua atirando no povo, prendeu e torturou médicos por terem cuidado de manifestantes feridos, sem que a Casa Branca o condenasse.

 

O que move os americanos contra o governo sírio é a idéia de isolar o Irã, afastando um dos seus maiores aliados no Oriente Médio. E, por tabela, enfraquecendo o Hizbollah, que tem nos sírios seu grande apoio.

 

A Arábia Saudita, cujo regime é uma das ditaduras mais repressivas e retrógadas do mundo, também quer ver Bashar destruído, de olho no problema que isso causará ao sempre ameaçador e xiita Irã.

 

A esperança dos rebeldes reside justamente nestas razões políticas do “humanitarismo americano-saudita”. Eles pretendem resistir ao máximo, divulgar as violências do adversário pelo mundo afora até criar uma onda mundial de apoio efervescente. O que talvez anime Obama e Sarkozy, que têm eleições pela frente, a intervir militarmente. Exemplo que poderá ser seguido pela Arábia Saudita, que não tem escrúpulos de atacar quem lhe interesse (desde que tenha as costas quentes), e pelo Reino Unido, cujo governo conservador segue sempre seu líder do outro lado do Atlântico.

 

Mesmo assim, é complicado. Nem Obama nem Sarkozy e nem Cameron vão topar uma invasão, que iria custar dinheiro que suas economias enfraquecidas não têm para jogar fora. Terão de imitar a solução líbia. Só que a Síria não é a Líbia. Só com bombardeios não será vencida.

 

Resta a solução russa, apoiada pela China: as duas partes se reúnem e negociam a paz. Infelizmente, dificilmente esta solução iluminará as mentes dos dois antagonistas.

 

Em primeiro lugar, porque Assad não aceitará sair da jogada. No máximo, o que poderia se conseguir seria a formação de um governo paritário e eleições livres (fiscalizadas pela ONU).

 

Em segundo lugar, porque é pra lá de duvidoso que os rebeldes aceitem. Talvez, quase impossível.

 

Em terceiro lugar, mesmo que haja concordância num plano semelhante, os EUA não vão topar. Tanto Obama quanto a senhora Clinton já declararam mil vezes que Assad não merece mais governar.  Simplesmente porque ele representa a continuação da amizade com o Irã e o do apoio ao Hizbollah E a diplomacia yankee não quer perder este jogo que ela considera ganho.

 

Finalmente, é preciso falar sobre a questão religiosa; 70% da Síria é sunita, os outros 30% são alauítas, cristãos ortodoxos e xiitas. Assad é alauíta, assim como a maioria dos seus ministros e chefes militares. Alguns deles são cristãos ortodoxos e xiitas. Ao que se sabe, pouquíssimos sunitas ocupam cargos de alguma importância. Fora isso, eles têm os mesmos direitos dos outros.

 

Mas o Estado sírio é secular. Suas leis pretendem respeitar os princípios islâmicos, não a sharia (leis do Alcorão). Já os rebeldes são, em geral, sunitas. Por sua vez, Assad é tido como um governo das minorias religiosas, tanto é que muito poucos cristãos aderiram aos rebeldes. Recentemente, alguns dos destaques da comunidade referiram seus temores de um banho de sangue no caso da vitória rebelde.

 

Havendo eleições livres, o partido dos sunitas tem as maiores chances de vencer, justamente por serem maioria. Pensando nisso, a constituição de Assad proíbe a formação de partidos religiosos, o que, aliás, não deixa de ser correto.

 

É claro que os sunitas podem driblar facilmente esta barreira: basta se unirem num partido cujo estatuto pregue o secularismo, respeitando os princípios islâmicos, sem mencionar o credo sunita.

 

Esta solução esbarra na exigência básica dos rebeldes: nada de Bashar. E bate de frente com o continuísmo do presidente que, tendo somente 11 anos de governo, teria, segundo sua constituição, mais 3.

 

O drama sírio continua imerso em trevas e assim ficará, à espera de uma luz que ainda não surgiu.

 

Luiz Eça é jornalista.

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Última atualização em Terça, 21 de Fevereiro de 2012
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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