A máquina não reivindica

 

 

O secretário estadual de Transportes de São Paulo, José Luiz Portella, anunciou recentemente que o Metrô investirá em trens que transitem entre as estações sem necessidade desse elemento humano tão insatisfeito e insatisfatório que é o operador. O sistema chama-se driverless.

 

Os bancários sabem que, mais tempo menos tempo, a internet e os terminais eletrônicos acabarão por assumir todos os serviços: pagamento de contas, depósitos etc. Haverá gerentes para o relacionamento presencial banco-cliente, mas a figura tradicional do bancário será esquecida.

 

Alguns sonham substituir o professor por uma máquina que ensine sem reivindicar. Aquele professor que faz críticas, que fica doente, que sofre, que ri, que atua, ora como paladino da democracia, ora como guardião do status quo, esse professor ficaria bem distante, produzindo conteúdo.

 

Nada contra a máquina. Não é ela que está maquinando contra nós. Do grego mékhanê, significa “invenção engenhosa”. A máquina nasce do engenho humano, é nossa filha querida. Com ela subimos aos céus, descemos ao fundo do mar e da terra. E a máquina é dócil, não reivindica direitos.

 

A máquina não faz passeata, não se queixa de injustiças. A máquina me ajuda a escrever este texto. A máquina me faz conversar com aqueles que eu amo ou não amo. A máquina é mais democrática do que eu...

 

A máquina não reivindica. A máquina pode travar, mas não morre. As flores fenecem, os seres vivos morrem, mas a máquina apenas se cala, desconsertada, desconcertada...

 

A máquina favorecerá o ensino, se os educadores forem engenhosos usuários da máquina. Com a máquina podemos suscitar idéias, torná-las atraentes, divulgá-las melhor.

 

O ministro da Educação Fernando Haddad registrou uma invenção interessante em 1998, como posso ler (graças à máquina) no site do INPI. Trata-se de uma “garrafa extensora”, que soluciona dois problemas dos consumidores de bebidas, particularmente refrigerantes e águas gaseificadas: “o estouro do vasilhame quando esquecido cheio no congelador; e a perda de gás oriunda do consumo gradativo. Trata-se de um vasilhame dotado de uma sanfona que permite sua extensão e encolhimento de modo a acomodar a expansão do líquido congelado, bem como diminuir o espaço vazio dentro do vasilhame quando do consumo gradual, prevenindo a desgaseificação”.

 

Essa engenhosa máquina é um entre muitos exemplos de como seremos sempre os protagonistas. As máquinas, nossas criações, servem para servir ao homem. E não para descartá-lo.

 

 

Gabriel Perissé é doutor em Educação pela USP e escritor – Web Site: www.perisse.com.br

 

Para comentar este artigo, clique {ln:coment 'aqui}.

Para ajudar o Correio da Cidadania e a construção da mídia independente, você pode contribuir clicando abaixo.

Relacionados