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Na França, o socialismo vira o jogo Imprimir E-mail
Escrito por Luiz Eça   
Sexta, 10 de Fevereiro de 2012
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Numa Europa aonde a direita vem ganhando todas, o socialismo está perto de uma grande vitória eleitoral. Nas pesquisas presidenciais francesas, seu candidato François Hollande vem ganhando sempre. Na última, em 2 e 3 de fevereiro, ele conseguiu 34% das preferências, contra 26% de Sarkozy e 16% de Marine Le Pen.

 

A vantagem do socialista deve-se em grande parte ao desprestígio de Sarkozy e ao fato dele ser governo, o que a população do Velho Continente costuma considerar o culpado pela crise.

 

Embora lhe faltando características carismáticas, Hollande é um político pragmático e sincero, qualidades que agradam ao eleitorado, em geral. Ele teve coragem de comprometer-se com um balanço equilibrado no fim do seu mandato presidencial, idéia bastante impopular, particularmente no seu partido.

 

Entre seus companheiros, Hollande é considerado um político moderado, de “esquerda suave”, como o descreveu sua rival nas prévias do Partido Socialista, Martine Aubry.

 

No entanto, suas idéias são ousadas e originais. Muito diferente das habituais promessas de grandes projetos e avanços sociais, típicas dos candidatos socialistas europeus.

 

De saída, Hollande declarou que tirar a França da crise econômica exigiria muitos sacrifícios, só que, no seu governo, os ricos é quem seriam os mais sacrificados.

 

Depois de afirmar que “meu real adversário nesta campanha é o mundo das finanças”, Hollande lançou um manifesto, em fevereiro, no qual mostrava como enfrentaria a crise.

 

As medidas básicas propostas com esse objetivo são aumentos das taxas cobradas aos bancos, das grandes empresas e das grandes fortunas para, usando o dinheiro assim obtido, acabar com o déficit público.

 

Com os 29 bilhões de euros que os 5% mais ricos deixam de pagar, graças às isenções de impostos de Sarkozy, haveria dinheiro para enfrentar a corrosão da sociedade francesa, ou seja, o desemprego recorde, as estatísticas dramáticas de jovens sem trabalho e um sistema de educação considerado dos mais desiguais da Europa, de onde uma em cada seis crianças saem sem qualificações.

 

O plano de Hollande foca nessas áreas, prometendo criar 60 mil novos empregos nas escolas e 150 mil empregos subsidiados para jovens.

 

Os bancos seriam forçados a separar operações financeiras especulativas no mercado das funções mais tradicionais, usando os depósitos dos clientes para financiar a indústria e a economia. A respeito disso, ele comentou que o dinheiro seria colocado no seu lugar certo “como um empregado, não como um patrão”.

 

Hollande pretende ainda elaborar um movo pacto franco-alemão e renegociar o recente tratado europeu para tirar a União Européia da crise.

 

Em matéria de política internacional, as mudanças devem ser significativas. A França não será mais um fiel seguidor dos EUA. A proposta de retirada imediata das tropas francesas do Afeganistão é um sinal evidente de que com Hollande a França voltará a ter uma política independente na área internacional.

 

O que é ótimo para os palestinos, que poderão contar com um voto positivo da França ao seu pedido de reconhecimento ao Conselho de Segurança da ONU.

 

A esta ofensiva de idéias renovadoras, o partido de Sarkozy reagiu afirmando que Hollande “causaria um banho de sangue na classe média”.

 

Por sua vez, Sarkozy tem estado quieto, afinal as eleições serão em abril e maio, e ele espera uma hora mais favorável para lançar sua candidatura.

 

Por enquanto, ele tem fortalecido suas armas de campanha, a grande mídia, com quem estreitou relações durante seu mandato. Todas as redes de televisão e a maioria das principais redes radiofônicas e jornais estão com ele. Mesmo as poderosas TVs públicas deverão ser usadas na campanha, pois Sarkozy já adquiriu seu controle, via uma de suas leis que virtualmente restaura o poder do Executivo sobre elas.

 

Entretanto, governo de Sarkozy está sendo marcado pelo oportunismo. Em 2007, ele pregava a desregulamentação dos mercados financeiros, defendia as hipotecas de imóveis, estimulava as famílias a se endividarem.

 

Hoje, quando o vento sopra de outro lado, ele prega regulamentações e controles do mercado financeiro, cuja liberdade sempre defendeu.

 

Seus adversários acusam-no pelo desmantelamento do papel do Estado na gestão e co-gestão de políticas públicas, e também pelo desperdício do dinheiro do povo, através de isenções de impostos sobre a riqueza, a renda e a herança.

 

Para procurar se reposicionar como “um político moderno, que pensa no povo”, o atual presidente lança um pacote de reformas, das quais a “pièce de resistence” é um aumento nas taxas sobre as vendas para atender aos custos sociais.

 

Demonstrando sua capacidade de surpreender, Sarkozy convidou Angela Merkel, premier da Alemanha, a participar de sua campanha.

 

Quem tem mostrado também criatividade é Marine Le Pen, a candidata da Frente Nacional, o partido de extrema-direita da França. Em vez dos brutamontes (com jeito de SS), os seguranças da campanha eleitoral do seu pai, ela prefere usar garotas de camiseta tee-shirt e jeans.

 

Dispensou também as suásticas, fotos de Hitler, tambores e saudações germânicas. Mas as idéias pouco diferem de Jean-Marie Le Pen, o fundador da sigla, enfatizando as barreiras contra a imigração.

 

O jornal Le Monde descreveu o programa econômico de Marine Le Pen: “estatísticas irreais e uma real ameaça”.

 

Faz 17 anos que um líder socialista não é eleito presidente da França. Por que o calmo e sem carisma François Hollande conseguirá, quando tantos fracassaram? Hollande responde, citando Shakespeare: “Eles falharam porque não começaram com um sonho”.

 

Luiz Eça é jornalista.

Website; www.olharomundo.com.br

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