Os escombros do Rio e as gambiarras globais do poder público privatizado

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A edição dominical do jornal “O Globo”, no dia 5 do mês em curso, estampou na primeira página, em letras garrafais, a seguinte manchete: “Rio tem 4.896 obras com problemas, mas não pune”.

 

Com a alma abalada pela tragédia mais recente, o cidadão carioca deve ter exclamado: até que enfim! Esperava encontrar na seqüência de tal cabeçalho uma crítica ao descaso das autoridades públicas que, por não cumprirem algumas de suas atribuições fundamentais, devem ser responsabilizadas pelos desastres vários que têm assustado nossa cidade.

 

Ledo engano. A matéria de primeira página, que depois se distribui em páginas interiores, é enorme. Não há nela uma única e escassa linha que, por acaso, fizesse qualquer referência crítica ao comportamento da autoridade pública municipal. A responsabilidade pela impunidade e pelo descalabro de milhares de obras com problemas é atribuída, pasmem, ao Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura. Todos sabem que não é atribuição do CREA punir ou embargar obras com problemas. A corporação de ofício pune apenas seus afiliados que cometem erros, em geral depois do erro cometido.

 

A atribuição legal de fiscalizar, controlar, punir e embargar obra com problemas é da prefeitura. Os editores de “O Globo” devem possuir tal conhecimento elementar. Fosse apenas incompetência de tal tipo de jornalismo, o problema seria menos grave. Mas não é o caso. Não há incorreções no texto da notícia, que trata do funcionamento ordinário do CREA. Até aí, tudo bem. O problema começa quando os editores “puxam” o tema para a manchete da primeira página da edição dominical. O texto da manchete, no contexto em que foi produzido, altera o sentido geral da matéria. E faz isso para produzir um determinado rendimento.

 

Desde o dia do espantoso desabamento, a cidade vive um clima de comoção generalizada. Uma verdadeira romaria serpenteia, diuturnamente, em torno dos destroços. Cidadãos soturnos observam pensativos o cenário da tragédia. Um misto de respeito pelos mortos, medo do que possa, de repente, acontecer com qualquer um, em qualquer lugar, a qualquer hora. Não houve explosão, não caiu avião, não foi atentado terrorista, não foi terremoto ou furação, sequer estava chovendo. Todos buscam entender o sentido da tragédia, suas causas, os responsáveis pelo desastre. E, no vértice da dolorosa reflexão coletiva, uma interpelação muda sobre a feição atual do poder público.

 

Em tal contexto, a manchete do jornal dominical nos informa que existem milhares de obras com problemas no Rio de Janeiro. E acrescenta, de forma insidiosa, que a corporação dos engenheiros e arquitetos é a responsável pela impunidade geral: o CREA não pune. Uma sugestão que dilui responsabilidades e livra a cara do prefeito, queridinho do jornal. Se restar alguma dúvida sobre os objetivos da edição, basta correr os olhos sobre o restante da primeira página da mesma edição do, digamos, panfleto.

 

Duas fotografias enormes, que cobrem quase o restante da página, são encimadas pelo título: “Rio Zona Norte”. Uma delas mostra o “mar de cimento” de Madureira tendo ao centro da foto um imenso terreno baldio. Na legenda se diz que ali surgirá, não se sabe quando, uma área verde menor apenas do que o Aterro e a Quinta. E acrescenta: “a Zona Norte enfim atrai investimentos da prefeitura”. Na segunda foto, aparece uma família suburbana, mãe e dois filhos sorridentes e rosados, no alpendre de uma casa recém-pintada de amarelo. Ao fundo, bondinhos balançam como um colar de pérolas. E a legenda avisa: “Com o teleférico, as lajes do Complexo do Alemão tornaram-se pontos turísticos e passaram a ter decoração em cores vibrantes”.

 

Em suma, diluir responsabilidades sobre o caos urbano que nos ameaça e cantar loas ao desempenho da prefeitura em obras feitas ou ainda virtuais são o verso e reverso de uma mesma malha de cumplicidades: as gambiarras globais do poder público privatizado.

 

Léo Lince é sociólogo.

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