Greve da PM baiana evidencia divisão na esquerda e conservadorismo dos dirigentes do estado

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Greves recentes de bombeiros e policiais têm gerado um debate dentro das esquerdas. Certamente a repressão que chefes de Estado têm lhes feito e o apoio da imprensa ajudam a ver de que lado devemos ficar. O breve texto trata disso...

 

Há um debate dentro da esquerda brasileira, iniciado quando da greve dos bombeiros no Rio de Janeiro em 2011 e reiniciado agora, com a atual greve dos PMs da Bahia: devemos apoiá-los ou não?

Os defensores da omissão ou da oposição à greve lembram, com muita razão, que a PM é o braço armado do Estado, a serviço dos governantes, das elites sociais, da exploração dos trabalhadores. Enfim, eles são também opressores do povo. Um aumento salarial (ou qualquer outro recurso destinado a eles) apenas ampliaria seu poder repressivo. Uma histórica repressão covarde e assassina cometida, dentre outros, pela PM recentemente, e os atuais e cotidianos crimes contra os Direitos Humanos, sobretudo contra pobres, reforça o argumento deste grupo.

Por outro lado, existem aqueles que enxergam uma divisão social (classista) dentro das PMs: além de seus setores mais elitizados (o alto oficialato), comprometidos com os donos do poder e das riquezas e, por isso, melhores remunerados, a PM é composta em sua maioria por oficiais de baixa patente, praças, enfim, homens e mulheres altamente explorados, diariamente humilhados, sobrecarregados, muito mal-pagos e internamente oprimidos, pertencendo também à classe trabalhadora (assalariados), vindos do povo (compondo-o), de onde são recrutados e (mal) treinados pelo Estado para fazerem o que fazem...

Na greve dos bombeiros do Rio, o governador Sérgio Cabral (PMDB) agiu com uma truculência digna de um regime ditatorial: mandou policiais, colegas de farda dos bombeiros, reprimi-los a qualquer custo. Porém, para sua surpresa, os PMs cariocas se negaram e inclusive aderiram aos grevistas. Assim, Cabral acionou o BOPE, sua tropa de elite (ou melhor, DA elite), acostumado a deixar corpos de favelados no chão em suas ações, que reprimiu violentamente a todos, ferindo alguns a cassetetes, tiros e prendendo 400 deles.

O governador carioca, então, foi à TV e passou a utilizar da velha cantilena demonizadora de greve que todos já conhecemos: chamou essa brava gente - que na sua maioria são pessoas honestas, pais e mães de família - de criminosos, baderneiros e até de covardes. Só que o tiro saiu pela culatra, pois bombeiros são muito bem quistos pela população. Sua greve ganhou mais apoio popular, cresceu e desmoralizou um governador que teve que retroceder.

A PM baiana é uma das mais mal pagas do Brasil. É majoritariamente formada por soldados quase todos pretos, dando porrada na nuca de malandros pretos, de ladrões mulatos e outros quase brancos tratados como pretos (como canta Caetano Veloso em "Haiti"). Já protagonizaram greves duríssimas, muitas delas reprimidas violentamente pelo Exército.

O governador baiano Jaques Wagner, do PT, vem utilizando os mesmíssimos argumentos difamadores de greve e grevistas de sempre. Convocou o ministro da Justiça, seu 'companheiro' de partido, que prontamente enviou o Exército, a Polícia Federal e sua guarda pretoriana, expedindo onze mandados de prisão aos líderes grevistas, que serão enviados a presídios federais destinados aos bandidos de alta periculosidade.

É o PT mostrando mais uma vez o que se tornou desde sua metamorfose. E pensar: o que seria do governador baiano, do atual Ministro da (In)Justiça, da presidente e de seu partido sem as greves? Eles devem toda a sua história a elas! O que seria, sem as greves, do próprio senhor Luís Inácio Lula da Silva, que chegou a ser preso na ditadura por fazê-las?

Se vivêssemos no século XIX, certamente os políticos, o ministro de Estado e seus sabujos açoitariam e enforcariam alguns líderes grevistas para servirem de exemplo aos demais oprimidos, como na gloriosa Inconfidência Baiana, em 1798. Se fosse na ditadura, alguns grevistas simplesmente desapareceriam ou seriam suicidados, como o martirizado sargento Manuel Raimundo Soares. Mas vivemos em anos ditos democráticos, em que governos do chamado Partido dos Trabalhadores continuam a reprimir grevistas violentamente, tratando-os como criminosos, como sempre fizeram as classes dominantes em nosso país...

Não importa se um juiz baiano simpático ao governador (a solidariedade deles aos poderosos é automática e impressionante!) decretou a greve como ilegal. Greve é um direito universal, inalienável, conquistado nas lutas dos trabalhadores - e que consta inclusive nos artigos dos Direitos Humanos. É e sempre foi o meio mais legítimo, justo e eficaz que os trabalhadores arranjaram para nos defender e se defender de nossos exploradores, sejam eles patrões privados ou chefes de Estado. Greve não é mais crime (foi assim tratada até bem recentemente em vários países, e continua sendo naqueles em descompasso com os Direitos Humanos!) e resulta da mistura da necessidade com a consciência crítica historicamente nascida nos que vivem do suor do trabalho e com miserável salário.

Oxalá chegará o dia no qual uma greve qualquer de trabalhadores (fardados ou não) iniciada em qualquer parte do país (ou do planeta) desencadeie muitas outras paralisações, protestos e demais greves em solidariedade. Eis um motivo para apoiarmos sem vacilo a luta dos PMs na Bahia!



Hemerson Ferreira é Policial Militar no Rio Grande do Sul, historiador e professor.Email: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

Comentários   

0 #10 RE: Greve da PM baiana evidencia divisão na esquerda e conservadorismo dos dirigentes do estadoDavid Alves Gomes 17-02-2012 19:29
Caro Hemerson Ferreira, concordo em partes com o texto. Com certeza o governo do PT não representa, em minha opinião, a classe trabalhadora e vai agir sempre de forma repressiva com os movimentos sociais que põem em xeque a ordem social burguesa. Óbvio que a maioria dos integrantes do corpo policial é composta por praças que são oprimidos pelos baixos salários e tensão diária nas ruas. Contudo, é importante lembrar que a polícia é um “aparelho repressivo do Estado”, termo criado pelo filósofo Louis Althusser o qual destaca que o Estado, através das suas forças armadas, detém o monopólio da violência. Assim, a polícia existe para legitimar as ações repressivas do Estado através da força. Se através da polícia, o Estado detém o monopólio da violência em nível estadual, o que seria uma greve de policiais militares segundo essa concepção que a própria instituição PM compartilha? Bandos armados? Não estou dizendo que policiais militares grevistas são bandos armados, mas é essa visão que tem uma instituição que detém o monopólio da violência quando se depara com outros indivíduos armados. Por esse motivo, já está claro no Código Penal Militar que a greve é considerada motim e na Constituição Federal a proibição de greve por parte dos militares, sendo os policiais militares uma força auxiliar do Exército. Muitos policiais militares afirmam terem de ser repressivos contra movimentos sociais porque eles cumprem ordens. E é verdade. A Polícia Militar, através da sua disciplina, está para obedecer ao Estado e cumprir sua função de manter a ordem em uma sociedade, concepção que varia de acordo com a sociedade e de qual classe detém o poder, podendo ser considerado uma desordem um movimento social desarmado. Com certeza policiais não são robôs, mas se eles discordarem dessa concepção teriam que pensar seriamente em abandonar essa carreira e partir para tantas outras profissões que existem, pois caso contrário estariam contradizendo a sua própria formação de policial militar: o braço armado do Estado.
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0 #9 RE: Greve da PM baiana evidencia divisão na esquerda e conservadorismo dos dirigentes do estadoMônica Santos 08-02-2012 13:20
Seu artigo vale como crítica ao PT que, de fato, tem sido extremamente incoerente, pois tem reprimido todos os trabalhadores em greve, tem se recusado a negociar, enfim tem adotado a mesma postura dos partidos de extrema direita em relação aos movimentos grevistas. Mas, no que tange à PM, de qualquer Estado, na minha opinião ela não deveria ter aumento, ela deveria sim, ser extinta, pois que é uma instituição extremamente violenta, preconceituosa e criminosa.
Quem sabe a repressão sofrida não ensina aos PM's baianos que grevistas em geral são apenas seres humanos lutando por condições mais justas e dignas de trabalho. Há séculos eles precisavam ter aprendido isso.
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0 #8 RE: Greve da PM baiana evidencia divisão na esquerda e conservadorismo dos dirigentes do estadovicente torres mourã 07-02-2012 23:09
E impossivel comparar motim de policial com greve de trabalhador. PM é armado e ameaça a população com seu motim. imagine se o Governo não defendesse a população destes amotinados? Uma das poucas garantias é o estado de direito se este for desmoralizado por estes militares que pela constitui~çao não tem direito de fazer greve porque armados são ameaça a todos nós. Além do mais o motim dos militares é uma tentativa de desmobilizar o governo dea Bahia.
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0 #7 Gostei.Dulcinéa 07-02-2012 19:38
[fv]Greve da PM baiana evidencia divisão da esquerda e conservadorismo dos dirigentes do estado[/fv]
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0 #6 Gostei.Dulcinéa 07-02-2012 19:36
Elucidativa a matéria, mormente num momento em que mesmo a mídia que conspira diariamente contra o Governo do Partido dos Trabalhadores, parece em cima do muro e nós, que pensamos ainda estarmos num partido de esquerda, ficamos a imaginar se não há a chamada e sempre lembrada "radicalização" no movimento dos policiais baianos.
Estou num momento, e já faz tempo, de reflexão. A reflexão sempre nos leva a uma tomada de posição. E isto é bom.
Sempre que tive uma tomada de posição em minha vida, cresci, melhorei como ser humano.
"O poder corrompe." Quem disse isso? Foi Maquiavel?
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0 #5 INSEGURANÇA NA BAHIA!!!!FELIPE 07-02-2012 17:17
[fv]DA SÉRIE, 'INSEGURANÇA NA BAHIA': GREVE DOS POLICIAIS MILITARES EVIDENCIA DIVISÃO DE ESQUERDA E CONSEVADORISMO DO GOVERNO DA BAHIA!!!![/fv]
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0 #4 A gente aprende rápidoDaphne Laurent 07-02-2012 13:51
É surpreendente como o PT aprendeu rápido: aprendeu a desviar verbas, a abafar escândalos, a descer o porrete na classe trabalhadora (como é mesmo o nome do partido?), aprendeu principalmente a mentir deslavadamente e a ser cínico. A começar do grande líder e mentor.
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0 #3 RE: Greve da PM baiana evidencia divisão na esquerda e conservadorismo dos dirigentes do estadoSimone 07-02-2012 12:42
Hemerson,
sua opinião é distante e ingênua. Eu estou na Bahia, em Salvador, precisamente, acompanhando a greve no seu dia-a-dia. Concordo com a reivindicação de aumento salarial, mas o que os policiais estão fazendo não é digno. Fazer de crianças e mulheres escudos? Sequestrar ônibus? E inclusive, sei por relatos de pessoas que trabalham comigo, que os policiais encapuzados chegaram a ameaçar matar a todos que não descessem do ônibus. Essa não é uma manifestação política digna porque está ameaçando a todos os cidadãos e impedindo a cidade de funcionar. Eu me pergunto se todos os profissionais têm o direito de entrar em greve, seria justo que os médicos revoltados com suas péssimas condições de trabalho se recusassem a prestar atendimento aos pacientes enfermos, na UTI? Então, simplificar as coisas nesse ponto talvez não seja a melhor opção.
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0 #2 RE: Greve da PM baiana evidencia divisão na esquerda e conservadorismo dos dirigentes do estadoDiego 07-02-2012 12:27
Fico feliz em saber que existem cabeças como a do autor compondo a PM.
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0 #1 Greve da PMastor guimaraes 07-02-2012 08:30
muito bom o texto. Revela cada vez mais quem controla com mãos de ferro o PT e a quem esses controladores servem.
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